Mesmo proibida, linha chilena é vendida livremente

pipa Linha usada para empinar pipa é comercializada e causa ferimentos graves em adultos e crianças. (Amanda /JP)

Os ventos de Outono são os preferidos para os adeptos a empinar pipas. No entanto, o que era para ser uma atividade saudável, tem se tornado cada vez mais perigoso e até mortal. Tempos atrás, o cerol (feito com cola e vidro moído) era o que havia de mais radical para provocar o ‘rélo‘ (expressão usada quando uma pipa é cortada no ar por outra pipa). Porém, o que se tem hoje são as chamadas linhas chilenas, capazes não apenas de cortar pipas no céu, mas de cortar membros, deixar cicatrizes ou até mesmo matar.

Desde 1998, Piracicaba conta com uma lei municipal que proíbe o uso e a comercialização desse tipo de material. A lei é a 4605/98, que em 2016 foi regulamentada por meio de decreto municipal 16531/06. No entanto, em julho desse ano, o prefeito Barjas Negri (PSDB), sancionou nova lei de autoria do vereador Paulo Campos (PSD), que trata do mesmo teor e que revoga a lei de duas décadas. Desde 2006, há também uma lei estadual, a 12.192/2006, que estabelece penalidades.

E, mesmo com todas essas leis, as linhas chilenas são comercializadas livremente. A reportagem do Jornal de Piracicaba conversou com crianças e adolescentes que empinavam pipas em várias regiões da cidade. Muitos disseram que a graça em tudo isso está em travar ‘duelos‘ no ar. Vence quem consegue derrubar mais pipas. E para que isso aconteça, o uso da linha chilena é fundamental. “Ela corta bem mais. Ninguém mais usa o cerol”, revela um deles, de 11 anos. No dia anterior a essa conversa, o menino teve um de seus dedos cortados e levou sete pontos. Mesmo com dor, ele estava na área verde empinando pipa com os amigos.

Eles contam que a linha chilena é facilmente comprada nas proximidades. A reportagem foi até esses estabelecimentos e constatou que essas linhas podem ser compradas por R$ 5 até R$ 20. O cerol é fabricado com cola e pó de vidro e a chilena com óxido de alumínio, quartzo moído, cola adesiva, etanol, pó de carbeto de silício e corante, que lhe confere poder de corte muito superior .

A vida por um fio— Quem nasceu de novo no dia 3 de julho de 2012 foi o engenheiro de produção Romeu Lopes de Oliveira, 37. Naquele dia, ele voltada do trabalho quando uma linha de pipa atingiu seu pescoço na região do Parque Piracicaba. “A linha acertou a artéria do meu pescoço, foram nove pontos internos e sete externos. Era sangue pra todo lado. Fiquei três dias internado. Hoje estou recuperado, mas ainda sinto dificuldade em virar o pescoço para o lado esquerdo. Depois do acidente, vendi a moto e nunca mais pilotei novamente”, disse Oliveira.

Sem fiscalização—A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde informou que não há registros no banco de dados da prefeitura sobre acidentes ou mortes causadas pelo uso linhas cortantes. A Guarda Civil também não tem esse levantamento, mas informou que vai até o local em caso de denúncia e apreende o material se houver irregularidade.

Cobrança—O parlamentar Paulo Campos, autor da última lei, disse que vai cobrar a fiscalização da prefeitura. “Cobrarei levantamentos trimestrais sobre a fiscalização desse tipo de material. Afinal de nada vale uma lei, se ela não for colocada em prática”, salientou. Pela nova lei, é proibida a fabricação, comercialização e uso dessas linhas cortantes em pipas, papagaios e semelhantes artefatos lúdicos. O descumprimento sujeitará ao infrator multa no valor de R$ 2.000, sendo dobrada em dobro em caso de reincidência.

(Fernanda Moraes)