Milton Rontani Júnior: ‘Engenheiro civil precisa ter técnica e arte para realizar sonhos’

Foto: Amanda Vieira/JP

Da prática profissional que só o mercado de trabalho proporciona às salas de aula para compartilhar o conhecimento com as novas gerações, o piracicabano Milton Rontani Junior é coordenador do curso de Engenharia Civil da EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba), onde também se formou em 1979. Para o professor, o engenheiro de hoje e do futuro precisa ter em sua atuação a técnica e a humanização, o cálculo e a arte, pois trabalha para tornar sonhos realidade.


Considerado um campo essencial, a construção civil não viu impacto negativo relacionado à pandemia da covid-19. Sendo assim, para manter a tradicional formação de engenheiros, Rontani conta que a EEP soube migrar para o digital sem deixar a qualidade de lado.


Professor das disciplinas de Construção Civil e Teoria das Estruturas na EEP desde 1988, Rontani é especialista em estruturas pela EESC–USP (Escola de Engenharia de São Carlos) e mestre em Habitação: Planejamento e Tecnologia pelo IPT-SP (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo). Após 25 anos de atuação em empresa de construção, desde 2009 está com seu escritório na área de execução de obras.


Filho do professor Milton Rontani e da costureira (“de mão cheia”) Elza Conceição Mariano Rontani, é casado há 37 anos com Regina Maria Puppin Rontani, professora da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). É pai da arquiteta Sofia, de 34 anos, que atua junto ao pai desde 2015, e da dentista Júlia, 30 anos. Também é avô do Martin de 2 anos, filho de Sofia e Gustavo, o “anjo presenteado por Deus”. Para ele, a família é o alicerce e amparo nas horas difíceis, o que faz a vida valer a pena. Rontani é o “Persona” deste domingo (29).

Por que resolveu ensinar?
Em 1988, comecei a lecionar Teoria das Estruturas na Escola de Engenharia de Piracicaba, em função dos meus estudos em São Carlos. Com o passar dos anos e a minha mudança de área para construção, comecei a lecionar as disciplinas de Construção Civil e Gerenciamento e Qualidade, áreas em que acabei concluindo o meu mestrado no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo). O fato de trabalhar como professor e também exercer a profissão, enfrentando o mercado atual, é de suma importância. Assim, os conhecimentos acumulados pelos anos de estudos, somados aos adquiridos ao longo da vida profissional, tornaram-se incentivo para continuar a lecionar, procurando formar engenheiros éticos que saibam a responsabilidade e a importância que seu trabalho tem na vida das pessoas.

O que sua profissão representa para você?
O gosto pelo desenho desde a infância, influência do meu tio Edson Rontani, e a maior facilidade nas disciplinas como matemática e física, base de toda engenharia, acabaram direcionando-me para aliar cálculos com projetos, que constitui o principal fundamento da Engenharia Civil. Outro fator decisivo foi a existência em Piracicaba da EEP, escola forjada nos moldes da EESC (Escola de Engenharia de São Carlos – USP) com estrutura e corpo docente no padrão das melhores universidades.
Essa profissão permite a experiência de trabalhar nos mais variados tipos de obras e projetos, enfrentando desafios técnicos e financeiros, além da possibilidade de transmitir essas experiências aos futuros engenheiros nas salas de aula. As incertezas e dúvidas desses desafios que enfrentamos durante a vida profissional nos ajudam a entender que temos sempre o que aprender e nos preparam para encarar a vida de uma maneira mais tranquila. Trabalhando com empenho e correção, o resultado será no tempo certo e sempre positivo. O engenheiro torna realidade o sonho das pessoas.

Neste ano estamos passando por muitos desafios em vários campos, como avalia o trabalho da EEP para manter a tradição e superar os desafios de 2020?
O ano de 2020, com o advento da pandemia devido ao covid 19, trouxe imensos desafios para todas as áreas, antecipando o uso da tecnologia digital. Dessa forma, houve uma antecipação do uso das plataformas digitais, para disseminação do conhecimento, realização de reuniões, palestras, congressos, etc, tudo no formato online. Creio que nada substitui sistema tradicional, o olho no olho, porém, esse formato “presencial à distância”, adotado pela EEP poderá continuar sendo de muita valia se somado às aulas presenciais. É nas crises que crescemos e nos fortalecemos, reforçando uma frase que gosto muito: “O estímulo humano aumenta em força na razão direta da dificuldade”.
A EEP foi muito ágil, ao instalar, em 15 dias, a plataforma digital envolvendo todos os professores, alunos e funcionários. Com todo o suporte da Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba (FUMEP), mantenedora, realizou os treinamentos necessários e o programa do semestre pode ser cumprido de forma muito satisfatória. Cabe ressaltar que, com o envolvimento e a determinação de todos os funcionários, professores, direção e, claro, dos nossos alunos, a qualidade resultante dos mais de 50 anos de tradição pode ser mantida. Esse resultado é função direta de toda estrutura acadêmica, administrativa e do nosso TI (Tecnologia da Informação).

O curso de Engenharia Civil da EEP promoveu em outubro live para debater “os novos olhares de 2020” e comemorar o dia do Engenheiro Civil. Quais são esses os novos olhares que foram necessários para a profissão neste ano?
Por incrível que pareça, os novos olhares são muito positivos para a área da Engenharia Civil. Foi isso que ouvimos de dois engenheiros de uma grande construtora do estado de São Paulo que está investindo pesado em conjuntos residenciais de grande porte e do engenheiro Ivan D’Abronzo Camargo, nosso ex-aluno, muito atuante no mercado de Piracicaba e região.
Durante toda a pandemia, praticamente foi um dos poucos setores que não paralisou, por ser considerado essencial e, pelo contrário, acelerou. Com crédito de longo prazo mais barato para a construção de imóveis residenciais associado aos investimentos de construtoras em grandes projetos Minha Casa Minha Vida, a construção civil foi alavancada. Com a pandemia, os investimentos em papéis tiveram rendimentos negativos, fazendo o mercado voltar os olhos à solidez dos imóveis. Além disso, com a aprovação, do Marco Regulatório do Saneamento Básico, que provocará investimentos privados de grande monta nessa área pelos próximos 15 anos, permitirão um campo muito atraente para os engenheiros civis e ambientais.

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Qual é o diferencial que a EEP visa proporcionar aos estudantes de engenharia civil?
A EEP, assim como as demais unidades de ensino da FUMEP, é uma instituição que prima pela excelência de seus cursos. O curso de Engenharia Civil, onde me formei e tenho a honra de ser o atual coordenador, foi o primogênito dos nossos cursos, tendo completado, no ano passado, 50 anos de tradição. Ao longo de todos esses anos, a Fundação cresceu e possui um campus que poucas escolas possuem. Todos os cursos dispõem de laboratórios com equipamentos de ponta, biblioteca com grande acervo físico e digital com áreas para estudo individual e em grupos, laboratórios de informática, área de convivência, restaurante, grande área para atividades físicas e culturais, auditório, salas de aula e anfiteatros equipados e ótima estrutura física administrativa e acadêmica. Mas, o principal diferencial é seu corpo docente composto por mestres e doutores com experiência profissional que fornecem ao aluno uma visão mais aberta do mercado de trabalho.
Nossos cursos, a grande maioria com 4 estrelas pelo Guia Estadão, encontram-se no mesmo patamar das grandes universidades com Mackenzie, PUC, FAAP, etc. Creio que muitos piracicabanos realmente não conhecem o grande potencial acadêmico que tem à disposição, aqui mesmo, muito mais perto do que imaginam.

Qual é o perfil do engenheiro civil que o mercador de trabalho busca?
Atualmente, os jovens são muito ágeis no uso das tecnologias e acreditam que isso sempre vai resolver os problemas. O fato é que, para utilizá-las, alguém tem que desenvolver essas tecnologias e esse é o papel do engenheiro. Para isso, precisam entender que há necessidade constante de leitura técnica, mas também conhecimentos gerais que envolvem economia, política e, por que não, artes, ou seja, precisam ser cultos. Os profissionais hoje são valorizados pelo poder de decisão, e para isso é preciso que o nosso HD (cérebro) esteja cheio para formatar soluções. Outro ponto importante é a busca por emprego no mercado de trabalho, quando a tendência mundial é a prestação de serviços, ou seja, o profissional terá que “se vender” todo o tempo. O sistema tradicional de emprego rotineiro, onde acaba ocorrendo uma certa acomodação está em extinção.

Qual é o seu conselho para os engenheiros do futuro?
Como todas as profissões, a engenharia exige cada vez mais a constante atualização, pois o campo de trabalho se expande muito e suas fronteiras estão cada vez mais ampliadas. Assim, a participação em cursos de inovações tecnológicas, bem como de softwares e relações humanas são de suma importância para o crescimento profissional.
Especializar-se na área de interesse, junto com a aquisição da experiência profissional, que virá ao longo da vida, trarão, com certeza, o sucesso almejado.

Andressa Mota

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