“Minha terra, minha pobre terra”

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Procure-se em qual país do mundo civilizado e solidamente democrático as Forças Armadas exercem atividades político-partidárias. O que se sabe dessa ingerência das instituições militares dos Estados Unidos, da França, Inglaterra, Canadá, Suécia – em citando apenas alguns países?

A América Latina tem um miserável histórico de “pronunciamentos” militares que redundaram em ditaduras inomináveis. Com um ex-capitão na presidência da República, assistimos a uma inaceitável escalada militarista no país. E que ninguém se dê à ingênua impressão de tratar-se apenas de radicalismo do homem do Planalto. Revela-se um projeto. Que se anunciou desde o início e que, aos poucos, vem tomando corpo. Ao criar-se a farsa de o presidente ser um “mito”, ali estava apresentado o ovo da serpente.

Ora, é difícil e desafiador o entendimento do que seja o mito. Confesso-o por mim próprio que, apresentado à mitologia ainda nos livros de Monteiro Lobato, nunca mais deixei de estudá-la. Sendo tão complexo o seu entendimento, é, no entanto, perniciosa a criação do chamado “mito político”, uma necessidade essencial quando se busca impor o militarismo. A história é reveladora. Não há tirania sem o poder das armas. Relembrem-se os “mitos” Mussolini, Hitler, Perón, os de 1964. E faça-se a similitude.

Cada vez mais, usam-se símbolos, expressões próprias do totalitarismo, em especial do Integralismo de Plínio Salgado. Ao falar-se em “Deus, Pátria e Família”, falando-se está de ideologia fascista. E, mais revelador ainda, quando se alardeia o tripé “Tradição, Família, Propriedade.” De minha parte, não sei, penosamente, se o povo está anestesiado, indiferente ou apenas ignorante. Meu receio está em elites encasteladas que apoiam violências governamentais cada vez mais acentuadas. Dei-me ao trabalho de procurar entender a criminosa conivência. Rapidamente, porém, compreendi: os semelhantes se atraem; ressentidos e ressentidos; mal-amados e mal-amados. E a sabedoria popular sempre ensinou: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”.

A manifestação das lideranças militares é reveladora. E lamentável. Pois as Forças Armadas levaram 30 anos para se recuperarem do trágico histórico na ditadura brasileira. Voltaram a ser respeitadas e amadas pela nação. No entanto, deixando-se seduzir por um ex-capitão com histórico desagregador, elas assumem o risco de serem infectadas pelos maquiavélicos jogos da política. Lord Acton advertira, ainda no século XVIII: “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.”

Não há como negar os malefícios do incestuoso casamento político/militar. E espanta que representantes das Forças Armadas sintam-se desonrados quando se constata haver corrupção atingindo alguns de seus membros. Por que não haver militares corruptos, se a corrupção faz parte da própria condição humana? Seriam, os militares, uma casta divinatória? Há padres, juízes, professores, operários, jornalistas, cidadãos corruptos, e isso não significa sejam corruptas as instituições a que pertencem. Por que alguém, apenas por ser militar, estaria imune à tão corriqueira corrupção do poder político?

Gato escaldado tem medo de água fria. Já conheci movimentos assim. O Barão de Itararé, Aparício Torelly, ensinava: “Há, no ar, mais do que simples aviões de carreira”. São legítimos os receios. E, em mim, soa o grito desesperado de Ibrahim Nobre quando das traições na revolução de 1932: “Minha terra! Minha pobre terra! (…) / O inimigo, fingindo-se de irmão / Invadiu-a, desfê-la, lesou-a.”

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