Modelos se unem e fazem da moda um instrumento antirracista

Expressões em forma de protesto ganham o mundo

Com os protestos antirracistas das últimas semanas, modelos de piracicaba se juntaram para usar a moda como ferramenta contra o racismo. Fotografadas por Nilton Vilela no último sábado (6), Jaqueline das Neves Silva e Fernanda Fidellis, em fotos conceituais, representam desde o preconceito até a união em contra o racismo.

Inspira as manifestações ao redor do mundo a frase “I can’t breath” (eu não posso respirar) falada por George Floyd, segurança negro morto asfixiado por um policial branco, em 25 de maio, nos Estados Unidos, que se transformou em símbolo da luta por justiça.

Para Jaqueline, além de passar mensagens antirracistas, a moda também atua na representatividade ao abrir espaço para pessoas negras. “O papel da moda é lançar mais peças com imagens de representantes do movimento negro, é envolver negros em tudo, na mídia […]. É uma honra muito grande [ver] grandes pessoas negras em TV, comerciais, em foto, em desfile”, comenta.

Fernanda conta que a ideia de convidar a amiga para o ensaio veio ao se inspirar no posicionamento de grandes marcas contra o racismo. “[Percebi que] posso usar dos meus privilégios e dar voz a quem realmente tem lugar de fala”, diz. “Talvez nenhum ser humano deixe de ser racista por causa de uma marca famosa, uma modelo, uma digital influencer ter se manifestado. Mas, se os posicionamentos e atitudes forem essas, podem influenciar, sim”, afirma.

No contexto do Brasil, as mortes de meninos negros também se tornaram símbolo de busca por transformação e também influenciaram para que o ensaio fosse realizado. O adolescente João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morreu após ser baleado pelo Exército dentro de casa no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro, em 18 de maio. Já Miguel Otávio, de 5 anos, morreu após cair do nono andar, em 2 de junho, de um prédio no Recife onde a mãe trabalhava como empregada doméstica e a patroa permitiu que a criança acessasse sozinha o elevador para encontrar a mãe, que estava passeando com os cachorros na rua.

“Como uma mulher negra, […] o meu sentimento, neste momento, é infelizmente de profunda tristeza. Profunda amargura. É muito triste saber que, no século que estamos vivendo, ainda há uma grande quantidade de pessoas racistas”, enfatiza Jaqueline, que vê na educação também forma de superar o racismo. “A melhor forma é mostrar, é ensinar as pessoas, que todos nós somos iguais, todos nós temos sentimentos, defeitos e qualidades”, complementa.

ANCESTRALIDADE
Para Ingrid Lopes, estudante de direito e criadora de conteúdos raciais, a moda é uma importante aliada para evidenciar a grandeza da ancestralidade negra e da resistência, mas que precisa ser entendida e usada no contexto de conscientização antirracista. Tudo tem uma história: o turbante, os tecidos africanos, o cabelo black power, as tranças, os anéis.

Ingrid é criadora de conteúdo e apaixonada por moda. (Foto: Divulgação)

Entender em profundidade a essência dos acessórios, para a criadora de conteúdo, é uma forma de a pessoa agir para superar o próprio racismo que envolve toda a sociedade e também entender que a história do povo negro é rica e não é composta apenas de sofrimento.

“Não importa o modo que você conheça desde que você conheça e desconstrua tudo isso […]. Talvez as pessoas que não são tão ligadas às questões políticas, raciais, mas pega, vem um turbante, uma trança, um black power, um vestido com tecido africano […] [esse pode] ser um meio de pesquisa para saber o que você está usando, da onde que vem”, comenta.

Ingrid também integra o coletivo Beleza Preta de Piracicaba, que aborda representatividade e cultura negra. Ela diz que se descobriu como uma mulher negra a partir da moda.

Andressa Mota

Fotos Ensaio Fotográfico: Nilton Vilela

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