Monarquia é a melhor garantia para as liberdades populares

Foto: Alessandro Maschio/JP

Há 15 dias o príncipe imperial do Brasil, dom Bertrand de Orleans e Bragança, 80 anos, esteve em Piracicaba e Região. Nascido em fevereiro de 1.941 no exílio na França, foi registrado no consulado brasileiro. Somente comofim da Segunda Guerra Mundial a família pode retornar ao Brasil. Com quatro anos de idade, dom Bertrand passou a morar no Brasil, inicialmente no Rio de Janeiro, depois no Paraná e, por último, em São Paulo. O bisneto da princesa Isabel e trineto de Dom Pedro II é advogado formado pela faculdade de direito da USP (Universidade de São Paulo). Durante visita na região, ele esteve em Saltinho onde foi recebido em clube de tiro por autoridades locais.

Nas horas vagas, o ex-piloto e ex-paraquedista que defende a prática de exercícios físicos, praticou tiro esportivo e escalou montanhas, disse ter uma vida ativa, viaja por todo o Brasil, convidado a fazer conferências, palestras, inaugurações e visitas. Ele admite que as horas vagas são poucas e as aproveita com leitura, especialmente de temas históricos, ouvir música clássica ou popular tradicional. Por e-mail, dom Bertrand respondeu às questões do Persona deste domingo, onde fala da monarquia e política.

Como o senhor avalia o movimento de restauração da monarquia no Brasil?

Com muita esperança. No Brasil inteiro surgem a todo momento grupos de monarquistas, na maioria jovens, que veem com simpatia a alternativa de uma restauração monárquica, de um retorno do País às vias gloriosa que estão nos planos para nossa Pátria. Aí mesmo, em Piracicaba, o Círculo Monárquico Barão de Rezende é muito atuante. Um pouco antes da atual pandemia, meu irmão D. Luiz (que é o Chefe da Casa Imperial do Brasil) e eu tivemos a alegria de receber uma comitiva de jovens de Piracicaba, que lotaram um ônibus inteiro e vieram nos visitar em São Paulo. Isso acontece continuamente, com jovens de todas as partes do Brasil. São tantos os convites que recebo que, lamentavelmente, não é possível atender a todos, como gostaria.

Desde a proclamação da República em 1889, que instaurou a forma presidencialista de governo no Brasil, encerrando a monarquia constitucional do Império, como o senhor avalia amudança da forma de governo no Brasil, foi um ganho?

A proclamação da República, resultado de uma quartelada promovida por uma minoria de oficiais positivistas, não correspondia a um anseio popular, como a propaganda republicana depois procurou fazer crer. O Brasil, em 1889, era respeitado internacionalmente, sua vida pública era altamente moralizada, os raros casos de corrupção, quando detectados, eram punidos
imediatamente; a economia era estável e tendia a melhorar ainda mais. A última chaga do passado, a escravidão, tinha sido eliminada e minha bisavó, a Princesa Isabel, acalentava um projeto grandioso para completararedenção dos antigos escravos: ela queria inseri-los dignamente na sociedade brasileira. Ela se correspondia com São João Bosco, que na Itália havia fundado a Congregação Salesiana, especializada no ensino de meninos pobres. Dom Bosco montou em Turim um imenso complexo de escolas profissionalizantes, dando formação e emprego a filhos de operários abandonados pelas ruas da cidade. Seu sistema era inovador e muito adequado para as necessidades da época. A Princesa conseguiu que São João Bosco mandasse seus missionários para o Brasil e os instalou em Niterói, mais tarde eles vieram para São Paulo, foram para Mato Grosso e se espalharam pelo Brasil. Até hoje os salesianos mantêm escolas e faculdades, mas pouca gente sabe que, no projeto inicial
da Princesa, sua missão no Brasil incluía como elemento primordial a educação de ex-escravos.

Há fragilidade no presidencialismo?

Vejo fragilidade no sistema republicano em si, seja ele presidencialista, seja parlamentarista. Num país como o Brasil o parlamentarismo só pode dar certo se a Chefia de Estado não ficar na dependência de oscilações eleitorais, mas seja exercida por um monarca suprapartidário, que não deva sua eleição a interesses de grupos políticos ou econômicos, mas paire acima deles, unicamente empenhado no bem estar da população. Quando falo em bem estar, penso não apenas no imediato, mas no das gerações futuras, com perspectiva de longo prazo. Numa monarquia constitucional parlamentarista, evidentemente, não cabe ao monarca governar; isso é atribuição do gabinete, chefiado por um primeiro-ministro, sustentado por maioria parlamentar. Mas cabe ao monarca um papel moderador e garantidor do equilíbrio harmônico dos outros poderes de Estado. No
seu reinado, D. Pedro II exerceu o Poder Moderador na forma do art. 98 da Constituição de 1824, sem interferir na autonomia e liberdade dos demais Poderes, mas garantindo que nenhum deles ultrapassasse seus limites e ameaçasse o equilíbrio geral. Na República, a falta de um Poder Moderador neutro e imparcial é notória. Estamos vendo isso de modo protuberante nos nossos dias.

O senhor defende a monarquia como forma de governo no país? Por quê?

Porque a monarquia é o sistema de governo mais antigo, mais experimentado, mais natural e estável que existe. Tudo, no universo, se ordena monarquicamente, desde a estrutura planetária até à estrutura celular. Uma família bem constituída, uma empresa bem organizada, um clube, uma associação, têm sempre algo de monárquico no seu funcionamento. A monarquia
é o mais maleável e adaptável dos sistemas, per feitamente compatível com as necessidades e anseios do mundo moderno. A república, tal como imposta pelo modelo republicano fixado após a Revolução Francesa, é por definição instável, sujeita às oscilações eleitoreiras. Um presidente é sempre temporário, é sempre dependente do apoio de grupos que o elegeram e
o sustentam politicamente (não sem esperar, do chefe de Estado, uma contrapartida). Um governante republicano forçosamente tem que pautar sua conduta pensando nas próximas eleições; só um monarca, que não deve sua posição a eleições periódicas, mas a Deus e à História, pode pensar nas futuras gerações.

Beto Silva
[email protected]

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