Motociclistas de app de refeição paralisam por um dia por melhorias

Piracicaba tem 800 entregadores cadastrados (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Assim como em diversas capitais brasileiras e outras da América Latina, o 1º de julho de 2020, em meio à pandemia da covid-19, motociclistas de aplicativo de refeição de Piracicaba aderiram à greve da categoria – não logaram a conta no app e foram às ruas reivindicar por melhores condições de trabalho, a partir de uma pauta que inclui tanto questões econômicas como higiênicas. Na cidade, ontem, no entanto, a paralisação não foi unânime, e apenas uma parcela de ao menos um terço dos 800 entregadores é que aceitaram o movimento.

A greve foi descentralizada, como apurou o Jornal de Piracicaba. Parte dos entregadores grevistas permaneceram parados em diferentes pontos da cidade, como próximo a redes de fast-food, no entorno do Shopping Piracicaba ou de supermercados, enquanto outros que aceitaram deixar de trabalhar por um dia simplesmente não saíram de suas casas.

A pauta também é plural. Perto do Shopping Piracicaba, onde houve uma concentração de cerca de 100 entregadores na manhã de quarta-feira (1º), Fernando Maciel foi um dos mais enfáticos quanto às demandas para melhorar a prestação de serviço. “Queremos receber taxas melhores. Tem corrida que percorremos uma longa distância e nos repassam apenas R$ 4 ou R$ 4,20. Baixou quase R$ 2 em relação ao que era entre setembro e outubro do ao passado, por exemplo”. Segundo o entregador, os aplicativos diminuíram o repasse para compensar o aumento de pessoas que trabalham no setor.

Maciel também critica o critério de uma das empresas em que trabalha em não pagar ao motociclista o deslocamento. “Às vezes recebemos uma chamada que nos faz cruzar a cidade para ir retirar a entrega e levar ao cliente. Eles não pagam os quilômetros de onde estamos até o estabelecimento, mesmo que isso signifique andar 8 ou 10 quilômetros”, conta.

Uma terceira reclamação de Maciel, que assim como as demais é um descontentamento de todos os outros entregadores, se refere à negligência dos aplicativos em não cobrar celeridade do estabelecimento para não chamar o entregar e fazê-lo esperar por um longo tempo até o alimento ficar pronto para ir ao cliente. “Não é justo conosco, que ficamos parados, tendo que recusar outras saídas, enquanto o estabelecimento demora para entregar a encomenda. Isso precisa mudar, eles devem nos chamar apenas quando estiver quase pronto”.

A greve de ontem ainda escancara outro descaso de donos de estabelecimento com a categoria. “O gerente de uma grande rede de fast-food não deixa usarmos o banheiro do local. Água, então, apenas se tiver a sua própria garrafa. Também somos seres humanos”, relata o entregador Rafael Ribeiro Ramos.

Outro entregador, que pediu para não ser identificado, falou que um supermercado da cidade que trabalha com delivery também os tratam mal. “Um funcionário não sabe lidar com os entregadores. Chegamos lá, mal nos cumprimenta, entrega o produto e já passou endereço errado ou incompleto para mais de 20 pessoas. O que acontece? Voltamos com a entrega, porque é impossível achar, e essa pessoa reclamas de nós para o aplicativo, que nos exclui do dia para noite, sem motivo. E não tem com quem reclamar, a multinacional é incomunicável”.

Segundo Victor de Oliveira, outro que participou da paralisação de ontem, as saídas pelo iFood, desde abril, caíram ao menos 40%, porque a empresa agora não permite mais pagamentos em maquininha de cartão, apenas online. O estabelecimento que aceita maquininha, ele explica, é porque tem os próprios entregadores. “As pessoas desistem de pedir ou solicitam diretamente no local, e nós ficamos sem trabalho”, ele critica. A reportagem tentou contato com o iFood, que não respondeu os questionamentos.

Erick Tedesco