Mulheres negras dão exemplo de resistência com histórias inspiradoras

Engajadas e competentes naquilo que escolheram fazer, elas superaram os obstáculos impostos pela cor da pele. (Foto: Divulgação)

Elas ganham os menores salários, têm 50% a mais de chances de serem afetadas pelo desemprego, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e são as maiores vítimas de feminicídio. Muitas, porém, superam a dor e os obstáculos impostos pela cor da pele e suas histórias são inspiradoras para vencer as desigualdades. O Jornal de Piracicaba ouviu quatro mulheres negras que apesar do racismo e das adversidades conquistaram seus espaços.

Coordenadora da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência e pós- -graduada em História da África, Silvana do Amaral Verissimo, 52 anos, pertence a uma família que praticamente fundou o Movimento Negro em Piracicaba.

“Cresci participando de formações de combate ao racismo e isso me fez ter um outro olhar e superar essas dificuldades. Essas discussões que me acompanharam desde a infância me impediram de me tornar uma pessoa alienada. Cresci atenta a qualquer manifestação de discriminação racial e isso me ajudou na vida adulta. Me fortaleceu para lutar contra as opressões, me deu base para seguir em frente”, afirmou Silvana, que em 2013 recebeu um prêmio do Institute Black Latin Afro Diaspora Celine Cruz, sediado em Nova York, nos Estados Unidos, por sua luta contra o racismo.

O prêmio é dado às pessoas da América Latina e Caribe que se destacam pelas lutas contra a discriminação racial. A indicação da piracicabana ao prêmio aconteceu por intermédio de duas alunas do instituto, que estiveram no Brasil entre os anos de 2009 a 2012 estudando comunidades negras.

Silvana é reconhecida no Brasil e no exterior como uma das ativistas mais atuantes e mais notáveis do movimento negro feminino. “O Brasil é um país racista, machista e misógino. A sociedade enxerga as pessoas negras como incapazes. No caso específico das mulheres negras, a situação é mais agravante. Meritocracia é uma palavra que não existe no universo das mulheres negras e racismo não é vitmismo”, declarou.

Nascida em Piracicaba, a capoeirista e professora da rede municipal de ensino, Misleine Feliciano, 35 anos, foi a primeira pessoa da família a conquistar um diploma de ensino superior.

“Sou de uma família grande, mas com poucas condições fi nanceiras. A gente passava muito apertado. E também não é uma família com histórico de formação acadêmica, tanto que depois que me formei, alguns primos também ingressaram na faculdade”, disse.

Formada na capoeira, Misleine conseguiu por meio do esporte uma bolsa atleta na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) para cursar pedagogia. “Conseguimos essa bolsa porque corremos atrás [refere-se a ela e ao mestre de capoeira Celso Cobra]. Infelizmente não tinha condições de pagar uma faculdade. E mesmo com a bolsa foi difícil, porque tinha ônibus, alimentação, xerox de material. Não foi fácil, mas no fi nal deu tudo certo”.

Sobre a capoeira, Misleine disse que surgiu na vida dela de forma inesperada. “O mestre apareceu no bairro e começou a ensinar as crianças em uma quadra na frente de casa. Depois de um tempo, resolvi participar e estou até hoje”, contou. Ela é professora voluntária de capoeira no Centro Social do Novo Horizonte.

Márcia Maria Antônio, 45 anos, mora no Jardim Parque Jupiá, mas é da Comunidade Vila África. Acolhida aos 16 anos por uma professora do ensino médio após perder a mãe biológica, ela é hoje professora de Educação Física no Colégio Seletivo, onde também atua como professora de capoeira; pós-graduada em Gestão de Organização Escolar; batuqueira e integrante do Grupo de Batuque de Umbigada e do Samba Lenço; e já desenvolveu projetos de dança afro nas periferias da cidade.

“Minha mãe biológica morreu e no dia seguinte eu estava na rua. Quando essa professora me acolheu, estava sem rumo, sem estrutura. Meu sonho era ser professora. Com ajuda de algumas pessoas, inclusive dessa professora que considero uma madrinha, prestei vestibular e consegui uma bolsa Prouni [cedida pelo governo federal em cursos de graduação presencial e à distância]”, recordou.

Márcia disse que quando conseguiu a bolsa foi uma realização, mas também um momento difícil. “Era a mais velha da turma, sofri todos os possíveis dilemas, era sempre a última nos grupos a ser escolhida”, afirmou, acrescentando ainda que a situação que já era difícil ficou mais complicada quando se descobriu grávida no primeiro ano do curso.

“Tudo que conquistei foi com muita dificuldade, muito na vivência, na prática, na dor, mas também na alegria porque várias pessoas passaram pelo meu caminho para me alimentar, me dar roupas, me orientar”.

Para a funcionária pública, rapper e integrante do Coletivo de Mulheres Pretas de Piracicaba, Mayra Kristina de Camargo, 42 anos, não estar dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade foram suas maiores difi culdades.

“Ter que preencher uma fi – cha de emprego onde na chamada já pedia boa aparência, quando nos anos 80 e 90 o alisar o cabelo era praticamente regra, foi uma grande difi culdade para mim”, afi rmou.

De acordo com Mayra, o racismo estrutural impede até hoje a mulher negra de ter o direito de ser e estar onde quiser. “A cultura hip hop me transformou, porém, daí nem a vestimenta condizia com a boa aparência. Foram muitos nãos nessa procura de emprego, até que prestei concurso público. Não teria que cortar e nem alisar minhas madeixas”.

Ana Carolina Leal
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