Multiartista, Carlos ABC mostra no teatro sua paixão por Piracicaba

O diretor e produtor cultural Carlos Alberto Bueno de Camargo, o popular Carlos ABC, com 64 anos, já executou praticamente todas as funções relativas a apresentações artísticas. São quase cinquenta anos de carreira e uma infinidade de trabalhos realizados.

Os espetáculos que trataram da cultura caipira, que falaram de Piracicaba, como; Lugar Onde o Peixe Para, Filho das Águas, Nhô Lica – Aventuras e Desventuras do Capitão Felix do Amaral, Vozes Caipiras entre tantos outros e os infantis comoCaxuxa-Histórias e Sonhos, Circular Prá Não Dançar, A Praça do Pensamento, Um Pequenino Grão de Areia, Pop, A Garota Legal, O Palhaço Era Meu Tio, Tim e Tam-Os Amigos do Tarzan.

Apresentou-se em vários estados do país e também no exterior, mas tem Piracicaba como sua paixão. Recebeu mais de 50 prêmios como ator, diretor, cenógrafo e figurinista.

Nessa entrevista ao Persona, Carlos ABC fala sobre a carreira e cenário atual da cultura municipal.

De onde surgiu esse nome artístico? Pode nos contar mais sobre?

Meu nome artístico é Carlos ABC, que é o nome que me identifico e as pessoas me identificam também. Meu pai, que era jornalista, assinava José ABC, por conta do nome dele, José Antônio Bueno de Camargo e quando comecei no mundo artístico, independente do nome que eu colocasse nos releases, publicavam, Carlos ABC e hoje eu adoro.

Você enfrentou alguma resistência familiar quando decidiu viver de teatro?

Na época em que comecei, nos anos setenta, os pais de ninguém, se animavam muito com a ideia de os filhos ingressarem à carreira artística. Porém, como meu pai era amante das Artes, jornalista, que também ainda não era profissão, me entendia e incentivava. Minha mãe, que adorava fazer artesanatos, extrovertida ao extremo e com passagens pelos palcos da escola quando criança, nos levava desde cedo aos salões de arte, cinemas, museus etc., adorava a ideia ao ponto de embarcar comigo na confecção de cenários e figurinos.
Você passou um tempo em São Paulo. Por que decidiu voltar?

Nos anos 80, fui para São Paulo, pois todos diziam, que para viver de teatro, teria que ser lá e jamais em Piracicaba. Trabalhei muito na capital, houve tempos em que fazia teatro-escola de manhã e à tarde, à noite, espetáculo no teatro e de madrugada, em casas noturnas. As boates, passaram a produzir teatro, com características de comédias rasgadas, com um pé em teatro do absurdo e abriu-se um campo aos atores, porém essa tendência durou menos de uma década, infelizmente. Eu sempre fui muito apegado à minha família e a cidade e sabia que meu lugar sempre foi aqui e numa noite, decidi que iria voltar, que seria mais útil aqui e voltei no outro dia.

Você também chegou a morar no exterior?

No final dos anos oitenta, morei na Espanha e depois em Roma, Itália, onde trabalhei com companhias de danças e também era responsável pelos figurinos. Depois, mesmo morando no Brasil, durante oito anos, ia uma vez por ano, no norte da Itália para criação de figurinos, cenário e adereços. Cheguei a fazer trabalhos na Argentina também, além de levar espetáculos produzidos aqui na cidade, para lá. Quando morava na Itália, ganhava bem, porém a saudade era muito maior.

E como é viver de teatro em Piracicaba? Qual o seu planejamento para seus trabalhos?

Piracicaba sempre foi um polo artístico muito significativo no estado de São Paulo. Uma cidade efervescente em termos culturais. Muitos nomes que entraram definitivamente para a história das artes no Brasil, tiveram suas carreiras iniciadas em Piracicaba. Isso tudo sem falar da identidade, que nos difere de outros lugares. Apesar de tudo isso, é ainda muito complicado viver exclusivamente de teatro aqui, por exemplo. Não temos, por exemplo, um lugar onde possamos fazer uma temporada teatral o que nos faz aventurarmos a bilheterias em outras cidades. A partir do momento em que tomei a decisão de sobreviver de teatro aqui, já soube que teria que matar um leão por dia e ainda assim, passar por dificuldades. Não me limitei a fazer somente trabalhos como ator ou diretor e estudei figurinos, cenografia, adereços, maquiagem teatral, para poder abrir um leque de possibilidades e passei a atender muitos grupos de teatro e dança.

Você já dirigiu a Paixão de Cristo. Quais eram as suas expectativas e como foi o evento?

Quando o Grego, Ellie Deftérios deixou de dirigir a Paixão, o pessoal do Guarantã me convidou, porém, na época trabalhava na secretaria de cultura e fiquei com receio, além do medo pelo tamanho da produção. Indiquei o João Prata, já tínhamos trabalhado juntos em São Paulo e sabendo do interesse dele pelo tema e foi um grande acerto, pois a partir daí foram anos de muito sucesso do espetáculo. Até que ele saiu, nos anos dois mil e voltaram a me convidar. Na época estava num período de depressão, porém resolvi assumir este grande desafio. Minha expectativa era, em princípio dar conta de tamanha responsabilidade e depois, mais à vontade e confiante, introduzi algumas modificações e até mudanças meio ousadas, mas que acabaram sendo muito bem aceitas pelo público. Acabei dirigindo por vários anos, sempre com muito prazer e orgulho pelo trabalho realizado.

E esse seu lado caipira assumido também se manifesta no palco?

Esse “lado caipira”, é o meu melhor lado! (Risos) Desde que comecei a trabalhar com arte, sempre tentei falar essencialmente das minhas origens, meu lugar e consequentemente, em toda a minha carreira, você vai encontrar esse tema. Se for citar todos aqui, vai ocupar muito espeço. (Risos) Enfim, esse meu “lado caipira” é o que eu tenho de mais latente, o que me estimula e me diferencia. Claro que fiz e faço incursões em grandes nomes do teatro mundial, porém, minha essência é o banho de Rio Piracicaba.

Você nunca pensou em ser famoso em nível nacional, fazer televisão?

Ser famoso, normalmente, é consequência de quem trabalha em televisão. raramente falamos em fama, quando um ator faz exclusivamente teatro. Eu direcionei minha vida ao teatro, mas, apesar disso, quando morava em São Paulo e a TV Globo tinha a sua matriz lá, fiz algumas pontar em novelas e algumas propagandas, porém, chegou num ponto que, além de pagarem muito mal, tinha que passar a maior parte do tempo esperando para gravar, o que começou a me atrapalhar no teatro e concluí que aquilo não era pra mim. Para você ter ideia uma ocasião, para a novela “Quem Ama Não Mata”, tinha uma cena de dois minutos num restaurante, que ficava perto da avenida Paulista, com o Carlos Augusto Strazer e Marília Pera e ficamos das dez horas da manhã até dezenove horas.

O que você acha da atual movimentação teatral na cidade?

Atualmente temos grandes atores em Piracicaba e montagens incríveis, que mereceriam ficar mais tempo em cartaz, mas infelizmente, isso não acontece, fazendo com que todos fiquem na dependência de leis e editais que subsidiem seus trabalhos. Nos principais eventos que congregam as Artes Cênicas no país, as montagens piracicabanas são muito esperadas pelo conteúdo e qualidade técnica. Talvez, aqui, as pessoas nem saibam o quanto nossa cidade é respeitada nos meios teatrais do Brasil.

Como você avalia a forma com que os piracicabanos tratam a cultura a nível municipal e nacional?

Infelizmente, em nossa país, as pessoas não tem o habito de frequentar teatro, o que é uma pena, pois ela, além de entreter, aguça o senso crítico, propicia uma leitura, fazendo analisar melhor a nossa sociedade e também do ser humano. e quanto a nossa cultura popular, dificulta ainda mais, pois muitos se envergonham de serem taxados como caipiras e escondem o que os diferenciam de outras paragens, ou seja, a identidade. Meu sonho é que em breve as artes e a cultura neste país sejam tratadas com o respeito que merece.

Laís Seguin
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