Na visão dos poetas

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Sou movida a sonho. Alimento-me do sonho. Na trilha da palavra, habituei-me a sonhar o mundo a partir da visão dos poetas. O poeta quer mudar o mundo, pois vê muito além da paisagem cinza das cidades, além dos limites da percepção. Conformado e cheio de consolações, ele aceita o mundo, porque é dele que extrai a sua poesia. A realidade, o cotidiano é a sua matéria-prima e o contraponto é justamente o sonho.

Olhos que esquadrinham o seu entorno, o poeta faz um relatório completo desta experiência arrebatadora. O que é comum aos outros é extraordinário para ele; o que é invisível aos olhos da maioria torna-se um cenário de perplexidade e luz para sua alma atenta.

O poeta cuida das coisas simples e das complexas com a mesma paixão. Ainda que ignore alguma área da ciência e do conhecimento, tateia com vocábulos certeiros e posa de eminente conhecedor do tema. É a fábula da palavra, que ele sabe manejar com grande efeito.

O ofício do poeta é tratar o fonema, a música que emana das sílabas. Nas mãos do poeta, a palavra ganha um poder infinito, um peso sinalizador de leveza e profundidade. Se ele a escreveu, é porque a escolheu entre um milhão delas. A mais preciosa de todas fecha o soneto arrebatador.

Não há limite para o reino das palavras. Se o universo é infinito, infinitas são as suas possibilidades. Assim como infinitas são as combinações das notas musicais que resultam numa melodia, compor com palavras é treinar a prática do infinito. Lá, onde habita o sonho, onde deve haver sentimento e clareza.

É com a palavra que se pode expressar a esperança do ser humano. O poeta, secretamente, guarda esta esperança no peito. Ele acredita no amor, na bondade, nos gestos de quem compartilha. Volta e meia, dá mostras de que acredita na flor, nas estrelas e no temido mundo das assombrações.

Vaga o poeta sobre o mapa da noite. Vaga sua alma pelas avenidas das indagações. E quando um poeta pergunta, é porque a coisa é grave, é séria. Ele não teme os temas, ele não foge ao seu ofício de perguntar, quase sempre. Um poeta à espera das respostas.

Na corrida do “vale tudo”, o vate faz uma pausa, com sabedoria. Ele sabe que é preciso ser ético, pois a poesia não prescinde da honra, do amor à natureza e ao meio em que vive. O poeta tem valores e respeita os que são vigentes na vida de todos. Sabe que é preciso transigir, dialogar, temperar a vida com especiarias exóticas. Entende que é preciso harmonizar, ceder. E quando a ferocidade da indignação o exalta, ele crê que denunciar pode tornar ainda mais bela a sua missão.

Nem sempre o poeta sonha ser construtor de alguma coisa. Para ele, basta a palavra como arma fundamental. Mas quando o poeta crê na paz, é bonito. Ele sabe que a paz vem de profundas mudanças nas estruturas políticas e sociais, mas teme mexer com isso. Pode não haver rima rica.

Alguns poetas acenam com a idéia de que nem tudo está perdido. Pode haver uma rosa branca no jardim daquela casinha na esquina. É possível curar o mundo, salvar a humanidade e que reverter este quadro insano de barbáries e atrocidades diárias é questão de tempo.
Ah, poeta! Haverá tempo?…

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