Nancy Thame: Mais mulheres na política e no poder

Quando a jovem Nancy Aparecida Ferruzzi Thame estudava em Campinas, Piracicaba ficava na rota do ônibus que a levava à sua cidade natal, Lucélia, a 500 quilômetros de distância. A estudante conta que sempre se encantou pela cidade e se apaixonou pela Esalq, onde mais tarde estudou agronomia. Foi também em Piracicaba que ela conheceu o marido, Mendes Thame, e onde nasceram dois de seus três filhos. Ela é mãe de Natália, Gustavo e Sofia.

Profissionalmente ela atuou com treinamento no Centro Nacional de Engenharia Agrícola, do Ministério da Agricultura. Nancy foi bolsista em um programa na Alemanha, onde morou por um ano, administrou e prestou assistência técnica em propriedades rurais no Estado do Paraná. Por quase dez anos, trabalhou no curso de engenharia agronômica e de zootecnia da Universidade do Oeste Paulista, inicialmente como professora e posteriormente como diretora do curso de agronomia.

Esteve à frente dos trabalhos relativos ao meio ambiente na prefeitura de Presidente Prudente. Após retornar à Piracicaba, em meados de 1996, montou uma empresa de paisagismo, comércio e gestão ambiental. Paralelo a isso sempre foi voluntária em questões políticas. Em 2004, se filiou ao PSDB atuou em vários setores do partido até se candidatar e ser eleita vereadora. Nancy defende a participação da mulher na política  e fica intrigada com o fato de, em quase 200 anos de história, a Câmara piracicabana só ter 13 mulheres ocupando cadeiras.

Neste domingo, ela se filia ao Partido Verde, a mesma legenda do marido, o ex-prefeito de Piracicaba e ex-deputado federal, Mendes Thame. A vereadora é a entrevistada do Persona desta semana e falou de política, desafios e projetos futuros.

Quando e por que a senhora decidiu entrar na política?
Na verdade não acredito que haja um momento em que decidimos entrar na política, acontece que vamos nos envolvendo com questões coletivas. Ações políticas estão no cotidiano e acaba que todo mundo pratica política no dia a dia. Porém, quando me formalizei dentro de um partido, dediquei-me para o fortalecimento das mulheres dentro do PSDB, através de capacitações, onde fui presidente estadual por do segmento em SP e vice-presidente nacional. Este trabalho voluntário aconteceu paralelo ao meu trabalho profissional. Porém, chegou um momento em que eu realmente percebi que para fazer mais eu precisaria estar dentro de esferas decisórias e tendo um cargo eletivo talvez pudesse ajudar mais. E isso foi em 2016, quando me candidatei para vereadora em Piracicaba, pois senti que era um momento da minha vida que eu realmente podia me dispor a canalizar energias, com forte dedicação a somente este trabalho. Pois quando entramos em um cargo eletivo, entramos para trabalhar, usar o espaço público e toda infraestrutura disponível para que realmente possamos tentar mudar as coisas, fazendo o melhor.

A senhora percebeu algum tipo de preconceito ou resistência por ser mulher? Como lidou com isso?
Sim, naturalmente. A gente vê muita resistência e preconceito sim, embora tenhamos uma boa formação e trajetória de vida, a questão do preconceito por essa resistência à mulher não é só na política, mas este é um dos espaços mais difíceis e nós temos vencido muitas barreiras. A questão da discriminação não faz mal apenas à pessoa discriminada, faz mal para todo mundo. Desperdiçamos muito potencial por não termos a liberdade, instrumentos e espaços para que as mulheres possam realmente desenvolver as suas potencialidades.
 
Como a senhora vê a participação da mulher na política no Brasil e, principalmente, em Piracicaba?
Os dados mostram que a nossa representação é muito pequena, em relação à porcentagem de mulheres que integram a população brasileira, já que somos a maioria. Nós, mulheres, amamos política, fazemos política o dia inteiro nos bairros, nas escolas, nos conselhos, para defender os filhos e a família. Não dá para aceitar a justificativa de que mulher não gosta de política. O que nós fazemos no dia a dia com a defesa do coletivo, com a sensibilidade com os outros, é pura política. Em 25% das Câmaras municipais não há mulheres. O panorama de Piracicaba não é diferente do resto do Brasil. Em quase 200 anos de Câmara tivemos apenas 13 vereadoras eleitas e, na gestão atual, somos apenas duas mulheres na Câmara, entre 23. Por toda a luta que Piracicaba vem mostrando, pelo aspecto cultural, pela presença dos coletivos e pelo significado do município, nós precisaríamos ter mais mulheres na política. Assim como os homens são importantes, nós também somos. Nosso desafio é envolver mais mulheres na política e nos partidos em condições mínimas de igualdade e respeito.
 
Na Câmara de Vereadores são apenas duas mulheres, menos de 10% das cadeiras, a que se deve essa pouca atuação da mulher no Legislativo?
A pouca atuação da mulher no Legislativo de Piracicaba tem relação com a sub-representatividade de mulheres em todos os espaços políticos do Brasil. Uma das razões é a estrutura partidária, com a predominância de homens na direção dos partidos políticos. Quando a gente fala de chegar num ambiente que já está todo ocupado por homens, é difícil para nós, mulheres, porque para a gente sentar, alguém precisa levantar. E esse levantar, nos espaços de poder é muito difícil. Há também o desequilíbrio na destinação de financiamento para campanhas de mulheres candidatas, pois, muitas vezes, as mulheres apenas são procuradas para preencher a cota partidária obrigatória, e não realmente no sentido de poder chegar e ocupar esses espaços. Além, é claro, de toda questão histórica, como o direito de votar tardio, somente em 1946 para as mulheres, e a igualdade e a equidade, que só foram consideradas na Constituição de 1988.

Quais são as principais demandas da cidade atualmente, pelo que a senhora recebe em seu gabinete?
Recebemos muitas demandas que vêm por consequência de uma cidade que cresceu um pouco desordenada, sem um planejamento adequado, principalmente nesta última década. Essas demandas vêm do transporte, da falta de serviços públicos locais – que atinge principalmente os novos loteamentos da cidade –, problemas de execução em ações ambientais, que inclui também demandas por mais projetos dessa área no município, além do estímulo para a vocação agrícola da cidade, com incentivo à agricultura familiar, principalmente na produção dos produtos locais que consumimos diariamente. 

Um dos grandes problemas que temos na cidade, que foi se intensificando na última década foi a expansão do perímetro urbano, causando uma cidade “espalhada”. Temos loteamentos construídos em áreas periféricas, distantes da região central, encarecendo o transporte e mantendo a população que mais precisa longe dos principais serviços públicos. Existe estrutura em Piracicaba, mas essa distribuição, principalmente nessas áreas novas, tem muita carência.  Percebemos também que, quando oferecemos o diálogo, espaços de capacitação e treinamento onde as pessoas possam participar – como os fóruns, audiências e a Escola do Legislativo –, existe muito interesse da população em vir dialogar e fortalecer esses espaços de interlocução, e essa contribuição coletivo precisa ser intensificada em nosso município.
 
Em sua opinião e pela atuação na Câmara de Vereadores, qual é o principal desafio de Piracicaba neste começo de década?
Dois desafios: primeiro, trabalhar realmente o planejamento urbano para entendermos as principais vocações do nosso município, e fazer com que isso saia do papel, com ações viáveis e reais. Nós temos muitos desafios na mobilidade, habitação, saúde, infraestrutura urbana, etc, e tudo isso tem que vir de uma forma integrada. E um segundo desafio, é usufruir melhor da tamanha riqueza de instituições que temos no município e colocar um novo olhar e uma nova forma de impulsionamento na nossa agricultura. Isso teria interlocução com toda cidade, com a empregabilidade, a economia, segurança alimentar, entre outros. Tudo isso dentro de um planejamento viável e com muita transparência.  
 
Quais os principais projetos de lei de sua autoria que a senhora destaca como importantes para a cidade?
Nesses três anos do meu mandato, iniciado em 2017, tive a oportunidade de contribuir, dentre outras ações, com a elaboração de algumas leis municipais e decretos legislativos, com destaque para a lei que definiu as Diretrizes para a política de enfrentamento à violência contra a mulher e consolidação da rede de prevenção, atendimento e proteção à mulher no Município de Piracicaba, com coautoria da vereadora Coronel Adriana; a instituição da “parada segura” para mulheres e idosos, com coautoria do vereador Capitão Gomes; a instituição, no calendário do Município, do Dia internacional da Tolerância e do Festival Culturas Regionais e Ates Urbanas – Festival CURAU, que já era realizado há oito anos. Ainda é de minha autoria os projetos que criaram, na Câmara, a Procuradoria Especial da Mulher, com coautoria da vereadora Coronal Adriana; a Semana de Conscientização da Alergia Alimentar; o Dia do Engenheiro Agrônomo; o Calendário – 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra as mulheres; o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha; e os Fóruns Permanentes de Gestão e Planejamento Territorial Sustentável, com coautoria do vereador Paulo Serra, e o de Empreendedorismo Feminino, tendo este último recebido, em 2017, o Prêmio Paulista de Boas Práticas Legislativas (1º lugar).
Destaco o Fórum de Gestão e Planejamento Territorial Sustentável, em parceria com o vereador Paulo Serra, como um dos principais projetos de intervenção no município, já que estudamos e desenvolvemos vários instrumentos de planejamento urbano, com base no Estatuto da Cidade que prevê cidades justas, democráticas e  sustentáveis, após vários encontros e debates, e juntamente com as comissões que fazemos parte, em especial a de Meio Ambiente, chegando a propor várias emendas ao projeto de lei de revisão do Plano Diretor, visando uma cidade mais compacta, com olhar para os mais necessitados, tentando reduzir os vazios urbanos, otimizando as infraestruturas já existentes como transportes e saneamento básico,  pensando numa cidade mais barata, inclusiva e sustentável em todos os sentidos para os próximos 10 anos.
Também participei do processo de implantação da Escola do Legislativo, como diretora, trabalhando na elaboração do Regimento, na definição dos eixos de atuação e da implantação dos convênios e grades de cursos, um projeto muito bem-sucedido e que também recebeu o 1º lugar do Prêmio Paulista de Boas Práticas Legislativas, em 2018. Creio que temos contribuído, como parlamentar, também com a apresentação de emendas ao orçamento, como foi a proposta de emenda para a capacitação de pequenos agricultores; para a criação da casa-abrigo para mulheres em situação de violência; e para a elaboração de pesquisa dos dados da violência contra a mulher em Piracicaba.  E, como procuradora especial da mulher, participo, mensalmente, das reuniões e ações de um grupo de trabalho formado por pessoas ligadas a órgãos, instituições e entidades que formam a Rede de atendimento e proteção à mulher, contando também com integrantes de conselhos, coletivos e associações da sociedade civil.

A senhora pretende disputar a reeleição?
Gostei muito da experiência como vereadora, de sentir e ajudar a população pelo espaço legislativo, ter novas percepções. Trabalhamos com um mandato bastante participativo, com dedicação exclusiva ao trabalho de vereadora. Se eu vou para reeleição ou não, vai depender da decisão do partido que eu acabo de me filiar, o PV. Independentemente dessa decisão, pretendo continuar ajudando a sociedade. 
 
O nome da senhora é citado como pré-candidata à Prefeitura de Piracicaba, a senhora tem a intenção de disputar as eleições para o Executivo?
Estou mudando de partido e me colocando à disposição para um projeto conjunto. Então estou me colocando à disposição do Partido Verde, junto com um grupo, para possível inserção dentro de um cenário político nas eleições de 2020.
 
A senhora tem o apoio do prefeito Barjas Negri (PSDB) para concorrer às eleições deste ano? Houve alguma conversa com ele nesse sentido?
Desfiliei-me do PSDB nesta semana, após muitos anos de filiação. Tivemos um diálogo civilizado. Porém, estou saindo para um partido mais alinhado com minhas bandeiras e onde eu possa ser mais aceita nas minhas manifestações. Enquanto estive no mesmo partido que o prefeito, naturalmente houve sim o diálogo para que eu permanecesse como vereadora pelo PSDB. No entanto, pelo posicionamento e pela política que acredito, estou me colocando à disposição do Partido Verde em busca de uma nova proposta para o município.

Beto Silva

Crédito da foto: Claudinho Coradini/JP