Naquele tempo, as senhoras não pintavam as unhas

Foto: Freepik

Armando Alexandre dos Santos, Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

Nas últimas décadas, o mundo assistiu a múltiplas transformações tecnológicas que impactaram de modo profundo as condições de existência das pessoas e das famílias.

Nasci em 1954; nos anos de minha primeira infância, eram os seguintes os recursos tecnológicos presentes em minha casa: geladeira, chuveiro elétrico, telefone, enceradeira, liquidificador, batedeira de bolo, ferro elétrico, caneta tinteiro, máquina fotográfica de filmes 120 mm, rádio e vitrola antiga, somente para discos 78 rotações. Recordo que tinha 8 ou 9 anos quando meu pai presenteou minha mãe com uma máquina de lavar roupa, e tinha 10 quando ganhei uma vitrola com 3 velocidades, servindo para os antigos discos de 78 rotações, para os compactos (45 rotações) e para os então moderníssimos LPs, de 33 rotações; e já era adolescente quando ganhei uma câmera fotográfica que usava filme 35 mm. Já fotografava desde bem menino com máquina de filme 120 mm, de fole, precisando fazer de cabeça os cálculos de abertura da objetiva e velocidade.

Ainda se conservavam em casa, quase como peças de museu, alguns objetos antigos colocados fora de uso: o velho e pesadíssimo escovão, com que antigamente se dava lustro ao assoalho, depois de encerado; o também pesado ferro de passar roupa de brasas, duas máquinas fotográficas de chapas, anteriores à invenção dos rolos de filme.

Hoje, aos 66 anos de idade, possuo em casa os seguintes avanços tecnológicos: computador fixo, computador portátil, telefone fixo, telefone celular (o meu aparelho é tão velho que se ofende quando alguém o xinga de smartphone), tocadores de DVD/CD instalados nos dois computadores, forno de micro-ondas, máquina elétrica de fazer pão, geladeira dupla, ferro elétrico com vaporizador, ventiladores, gravadores, leitoras de microfilmes, 6 máquinas fotográficas (uma ainda de fole, três de filmes 35 mm, duas digitais), máquina de lavar roupa e aspirador de pó.

Ainda conservo com carinho um bom número de canetas-tinteiro e tenho, como elemento decorativo, um mata-borrão, instrumento utilíssimo que desperta curiosidade em alunos que de vez em quando me visitam, e não fazem a menor ideia de para que serve…

Não possuo automóvel (nem sei dirigir), não tenho televisão (prefiro pensar com minha própria cabeça…), não tenho (nem preciso ter) ar-condicionado e não me adaptei com agenda eletrônica. Do computador sou cada vez mais dependente, para tudo. Para o trabalho, para o estudo, até para o lazer (gosto muito de ver filmes, na tela do computador).

Comparando os idos de 1954 com os dias atuais, dou-me conta de que inúmeras tecnologias foram sendo gradualmente adotadas, ocupando espaços cada vez mais amplos em nossa vida cotidiana. Inúmeras vantagens daí provêm, sem dúvida, mas também desvantagens. Hoje, é-me penoso escrever à mão, porque já me habituei às facilidades do computador. O primeiro livro que publiquei, em 1989, foi inteiramente escrito à mão, em cadernos. Já o segundo, publicado em 1990, foi digitado num então moderníssimo PC que nem sequer possuía HD… Também para o convívio humano há vantagens e desvantagens nos avanços tecnológicos. Hoje, com a maior facilidade, falo com parentes na Europa por skype ou whatsapp. Na minha infância, escrevíamos e recebíamos cartas. Recordo bem a alegria que causava a chegada do carteiro, com os envelopes cobertos de belos selos.

Curiosamente, estamos tão próximos de tudo e, ao mesmo tempo, tão isolados… Substituímos o calor humano, os sentimentos e as emoções por frias conexões entre computadores. Também para a saúde os avanços tecnológicos têm mão e contramão. Por um lado, facilitam enormemente as tarefas da vida diária. Mas, por outro lado, justamente porque facilitam a vida induzem ao sedentarismo, à imobilidade. E, dessa forma, estão na raiz de uma série de doenças da vida moderna, que no passado já existiam, mas eram muito menos frequentes, já que, de um modo geral, a vida era mais ativa do que hoje.

No passado, nossas avós e mães, femininas e delicadas, realizavam em casa serviços que hoje muitos homens não teriam força física para realizar. Uma dona de casa zelosa mantinha limpo e bem encerado o assoalho de sua casa. Sinteco era algo impensável. Para manter o assoalho bem cuidado, era preciso encerá-lo todas as semanas. Primeiro, passava-se palha de aço em toda a superfície, para retirar os restos da cera anterior. Depois, varria-se com cuidado e se passava um pano úmido, para retirar os restos do pó. Depois, deixava-se secar e passava-se uma camada de cera. Depois, secava a cera, passava-se uma segunda demão. Por fim, chegava o trabalho mais pesado: lustrar o chão, com um aparelho pesadíssimo que cheguei a conhecer, chamado escovão.

Isso, todas as semanas. Bem entendido, naquele tempo as senhoras não pintavam as unhas. Pode-se bem imaginar como ficavam suas pobres unhas, depois de lixarem e encerarem a casa inteira! Hoje, tudo é mais fácil. Mas também é menos saudável. Sem dizer que é menos poético…

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