Notas de Programa Marcelo Batuíra Losso Pedroso*

Johann Strauss II: No belo Danúbio azul – Op. 314

Johann Strauss Filho, ou, II (1825-1899) é o mais bem sucedido e famoso da família Strauss. Publicou quase 500 peças de dança, entre valsas, polkas, marchas e quadrilhas. Mas nenhuma delas faz sombra à popularidade da valsa An der schönen blauen Donau (No Belo Danúbio Azul), a qual se tornou quase um sinônimo da própria valsa, devido à sua graça e elegância.



Em julho de 1865, o diretor da Sociedade Coral de Viena, Johann Herbeck, solicitou a Strauss a composição de uma valsa para ser executada no Carnaval do ano seguinte. A valsa seria cantada e um certo Joseph Weyl, oficial de polícia e poeta nas horas vagas, ficou incumbido de criar a letra. A valsa fora estreada em 13 de fevereiro de 1867 e foi um total desastre, por dois motivos. Primeiro porque se tratava da primeira obra cantada que Johann Strauss compunha. Depois, porque os versos cantados (dez ao todo) eram muito ruins, a tal ponto que o próprio coro recusou-se a cantá-los.

Por conta da Exposição Universal de Paris, de 1867, foi pedido à Johann Strauss II uma valsa para o primeiro concerto. O compositor então utilizou-se dessa mesma partitura, mas sem a parte cantada. O sucesso foi imediato: o público o fez executá-la por 20 vezes seguidas!

Essa valsa foi utilizada em vários filmes, desde o musical “O canto do Danúbio”, de 1934, feito por Alfred Hitchcock, até os filmes da Imperatriz Sissi (1955-58), Madame Bovary (1991), de Claude Chabrol; Titanic (1997) de James Cameron; O Espetacular Homem Aranha (2014) ou mesmo os desenhos da série Os Simpsons. Mas foi em “2001, uma Odisséia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick, sua mais famosa aparição.

Logo após o início do filme, com o uso do poema sinfônico “Assim falou Zarathustra” (de Richard Strauss), onde um osso é lançado ao céu e, ao cair ele “se transforma” em um satélite flutuando no espaço. A música de Johann Strauss II evoca justamente essa “dança” dos satélites no espaço.

Gustav Mahler: Adagietto da 5ª Sinfonia

Gustav Mahler (1860-1911) escreveu sua quinta sinfonia durante os verões de 1901 e 1902, logo após ter sofrido uma séria hemorragia que o levaria à morte, se não fosse tratado às pressas. Para se recuperar, ele se mudou para sua Villa à beira do lago, no interior da Áustria. Além de diretor da Ópera e da Filarmônica de Viena, Mahler já estava sendo celebrado como um compositor de sucesso.

O Adagietto (pequeno adagio) é o quarto movimento de sua quinta sinfonia. O diminutivo do nome se refere à brevidade do movimento. Mahler assinalou na partitura, por três vezes e em
dois idiomas, que esta deveria ser “muito lenta” (sehrlangsam, no bom e corrente alemão). Diferentemente dos outros movimentos, a orquestra é reduzida às cordas e à harpa.

Este movimento é similar a uma de suas canções: “Ich bin der Welt abhanden gekommen” (“Estou perdido para o mundo”), pois compartilham características muito semelhantes, em ontorno, cor, harmonia, textura musical e os próprios versos da canção confirmam: “eu vivo sozinho em meu céu, em meu amor, em minha canção”.

Este movimento talvez seja sua mais famosa composição. Leonard Bernstein o executou no funeral de John Kennedy e Luchino Visconti o utilizou em seu filme “Morte em Veneza”, de 1971. Dizem que ele representa sua canção de amor à sua esposa, Alma Mahler. O filme de Visconti explora o tema da inevitabilidade da velhice e da morte, associada à perda da beleza ideal e inacessível, em uma Veneza esplendorosamente bela, mas, vítima de suas deficiências sanitárias, acabam por levá-la à uma epidemia de cólera.

Gioacchino Rossini: Abertura da ópera La gazza ladra

Os fãs do cineasta Stanley Kubrick (1928-1999), sobretudo do filme “Laranja Mecânica”, de 1971, conhecem essa peça de cor, mesmo sem saber que se trata da abertura de uma ópera de Gioacchino Rossini (1792-1868). Para Kubrick, seus filmes deveriam servir às trilhas sonoras e não o contrário. Segundo o cineasta, os compositores hollywoodianos seria incapazes de criar algo à altura dos grande clássicos, assim, preferia utilizar-se largamente da música clássica preexistente como trilhas sonoras de seus filmes.

E, de fato, em Laranja Mecânica, o cineasta utiliza essa abertura na integralidade, durante uma cena de batalha de gangues rivais. O personagem principal, Alex, é fissurado pela música de Beethoven, em especial a nona sinfonia; contudo, a trilha sonora do filme contém mais música de Rossini que de Beethoven.

La Gazza Ladra (A Pega Ladra) é uma das quatro (!) óperas que Rossini estreou no ano de 1817, quando tinha apenas 25 anos de idade. Nessa época Rossini já havia escrito mais de 20 óperas. A sua abertura, em especial, é considerada uma das mais características do estilo rossiniano. Ela se inicia com um célebre rufar dos tambores, sugerindo uma marcha militar, em um crescendo que nos leva aos dois temas principais da abertura. O primeiro tema, uma vigorosa marcha; o segundo, típico na escrita de Rossini, é introduzido por um instrumento de sopro, aqui, o oboé.

Nessa abertura podemos contemplar o famoso “crescendo de Rossini”: a densidade da orquestra é aumentada em paralelo à intensificação do ritmo da música, de modo a criar uma consistente fanfarra de conclusão. Essa abertura também foi utilizada nos filmes Uma vez na América (1984), de Sérgio Leone, e Minha Amada Imortal (1994), de Bernard Rose.

John Williams: Star Wars Suite

É desnecessário apresentar John Williams (1932-), pois as 51 indicações ao Oscar e 5 premiações fazem dele o mais proeminente compositor de trilhas sonoras que se tem notícia. O estilo de sua música é marcadamente neorromântico, em parte inspirada na grande orquestração de Tchaikovsky e, em parte, nas óperas de Richard Wagner. John Williams utiliza-se largamente de um conceito wagneriano: o leitmotiv, no qual um determinado tema se associa a um personagem, ideia ou evento. 

Fascinado pelo trabalho do cineasta Stanley Kubrick, George Lucas pretendia utilizar-se de composições clássicas já conhecidas e aplicá-las como trilhas sonoras de seu novo filme “Star Wars – A New Hope”. Foi John Williams quem o convenceu de que seu filme precisava de uma trilha sonora nova e única.  Segundo Williams: “a técnica do uso da música clássica preexistente não permite que um mesmo material melódico seja desenvolvido durante todo o filme e muito menos relacionado a determinado personagem; sinto que esse filme necessita de uma unidade temática”.

Graças a esse argumento, John Williams criou uma dúzia de memoráveis temas melódicos, cada qual associado a um personagem ou a um evento. Essas “ideias musicais” poderiam ser desenvolvidas ao longo da saga, ao modo dos leitmotivs wagnerianos. Assim, podemos comparar os filmes de Star Wars à tetralogia das óperas de Richard Wagner (1813-1883).

A Suite Sinfônica “Star Wars” é uma coletânea dos temas da primeira trilogia cinematográfica: (1) o tema principal que dá título à saga, iniciada em 1977; (2) o tema da Princesa Leia (de Star Wars: A new hope); (3) a marcha imperial, tema de Darth Vader; (4) o tema do mestre Yoda; (ambos de Star Wars: The empire strikes back), e (5) os temas da sala do trono e do final da saga (de Star Wars: A new hope e Return of the Jedi).

*Marcelo Batuíra Losso Pedroso é graduado em Direito pela USP e em Administração de Empresas pela FGV, pós-graduado em Direito e Economia pela FGV e em Administração de Empresas pela The Anderson School of Management, da UCLA. É doutor em Direito pela USP. É diretor do Jornal de Piracicaba e da revista Arraso.