Noves fora, zero

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Até ir-me de vez, renderei graças pelo dom da Vida. Apesar de dores, perdas e tristezas, são apaixonantes demais as maravilhas de estar por aqui. No entanto, por serem tantas, há, também, frustrações. É como se, num banquete régio, não fosse possível provar sequer a mínima parte das especiarias. Mais do que fome, eu diria haver uma gula de viver. Pelo menos em mim.

Frustro-me – na longa busca para algo aprender – por não ter mergulhado com mais afinco no estudo da mística judaica, a cabala. É fascínio, um despertar para o mistério. Dei-me conta disso ao descobrir Fílon de Alexandria. E, então, fui espiritualmente sequestrado. O notável filósofo mostrou-me como, no mundo, as coisas criadas precisam de ordem. E que são os números que as ordenam.

Na minha pobreza de conhecimento, os números sempre me pareceram convenções apenas práticas. Por eles, a minha foi apenas curiosidade. Encantavam-me aqueles jogos criados pelo Malba Tahan em seu adorável “O homem que calculava”. O número 7, para mim, era algo ligado a superstições. Então, com Fílon, entendi ser, o 7, o número perfeito: sete sacramentos, sete pecados capitais, sete dias da semana, o sete maçônico, o sete platônico. E o número 6? Para mim, era o “meia dúzia”; de bananas, de laranjas, “meia dúzia de malandros”. E o 6 é o número mais gerativo: 3+2+1=6 e 3x2x1=6. Incrível!

Levaria uma vida toda para beber desse mistério. Frustro-me, mas me conformo. Pois me contentei com a prova dos nove: 12, noves fora, três. E lá me vou eu fazendo de conta. E animo-me com minha divertida numerologia pessoal. Ora, acabei de completar 81 anos de idade, uma dádiva que me abisma diante de tantas dificuldades enfrentadas e superadas. Fascino-me com os meus 81: 8+1=9. Noves fora, zero! Estou, pois, novamente no Ano Zero. Seria o recomeço?

Devo, pois, preparar-me para outra jornada. Para começar do Zero. Prometo-me não mais cometer tantos erros e tolices. Jamais direi fazer tudo igual. Pelo contrário. Farei quase tudo diferentemente. Pois alguma coisa aprendi e pretendo buscar maravilhas esquecidas, encantos desperdiçados.

Já me vejo descalço, de “macacão” azul, correndo pelas ruas. E apertando campainhas das residências, para fugir em seguida. Espiar pernas de normalistas sentadas em bancos de jardim. Subir em árvores, saltando de galho em galho, retomando o Tarzan que fui. Montar no cavalinho de pau, brincando de mocinho e de bandido. E voltar a “ser médico”, apalpando a barriguinha da menina.

Espanto-me de coisas vistas e vividas. Lembro-me das bombas sobre Hiroshima e Nagazaki. Da escola infantil; de dona Romilda, primeira professora; da “tragédia do Maracanã”, 1950, a perda do título mundial de futebol. E da chegada do Colégio Dom Bosco, estudar com os salesianos, o susto de sentir-me num quartel. O suicídio de Getúlio. O advento de Juscelino, Brasília. Namorar, casar-me e ter filhos com Mariana. A criação da Petrobrás, a enganação e renúncia de Jânio Quadro. Guerra da Coréia, Vietnam, Oriente Médio, árabes e judeus. A queda de João Goulart, a ditadura militar, o horror por duas décadas. A esperança na redemocratização, a desilusão. Pobreza, miséria e doenças sem fim. Militares chegando, indo, voltando…

Começar do Zero, que bênção! Para cuidar mais de meu jardim. E escancarar a alma para acolher Mozart, Bach, Beethoven, Schumann – esses reveladores do divino no humano. Ver voo de passarinho, nuvens no céu, piscares de estrelas.

Como, porém? Como, se nada de novo há sob o Sol?

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