“Novo normal é um conceito ainda a ser criado”, diz psicóloga

População terá que construir o conceito de novo normal | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Esperança é, sem dúvida, a palavra de ordem para 2021. Um novo não necessariamente deve advir com o vislumbre de um mundo menos impactado e, numa ótica bastante otimista, livre da covid-19. É uma entre tantas expectativas para o tão falado ‘novo normal’. Mas, afinal, o que esperar e como encarar uma eventual realidade pós-pandemia?

Para a psicóloga clínica Eliana Zanatta, o conceito de novo normal foi criado para dar conta de alguma compreensão do que se passa neste momento. “E, neste momento, temos muitas informações da pandemia e da covid-19, mas não temos tudo. Desta forma, o novo normal é um conceito a ser criado, quando tudo isso terminar”, ela explica.

No entendimento da psicóloga, o novo normal será um novo estilo de vida. “Outros paradigmas, que todos juntos, e cada um de nós, vamos construir. Aquilo tudo que conhecíamos já não servirão para o que virá”.

Apesar de lidar sempre com um tempo futuro, Eliana destaca que, antes, é preciso encarar o presente, que é a pandemia. “Estamos em meio de uma situação difícil e penosa, com pessoas morrendo”.

Por isso, Expectativa, aponta a psicóloga, é uma palavra crucial para este período único na contemporaneidade. “A origem da palavra é ‘ter a espera de’, ‘estar a espera de’. É o desejo de retornar à normalidade”.

O questionamento, provoca Eliana, é se qual será esta realidade almejada, e como buscá-la. “Esta situação de distanciamento social nos coloca em um novo estilo de vida, em que temos uma condição de convivermos mais conosco e com o núcleo familiar mais próximo. Isso já é, para muitos, uma nova condição”, ela exemplifica.

Um aspecto deste debate que a preocupa é sobre o fantasiar ou negar uma realidade. “Faz com que se tenha ações muitos diferentes do que a realidade, de fato, pede, que é o distanciamento, usar máscara etc. Temos que compreender a letalidade da situação. Ninguém precisa gostar dos procedimentos, mas é importante aceitar a situação e isso explicita a vontade de sair dela”.

Além disso, continua Eliana, não negar as dificuldades da realidade torna as pessoas “imensamente poderosas”. “É um momento de transcendência, travessar isso vivo e bem. Negar é quase que estar contaminado com um vírus, que cega da realidade”.

A psicóloga também tenta vislumbrar maneiras de se preparar para o ‘novo normal’, isto é, outro estilo de vida. “Transformações serão inevitáveis. Podemos tentar compreender que sentimentos estas situações do agora nos traz, porque este movimento gera conhecimento sobre nós mesmos. Também, precisamos entender que a distância de hoje é geográfica, não é afetiva. Estamos com muitas saudades e entra a criatividade para minimizar isso, como por meio das redes sociais”.

Para ter um futuro, aponta Eliana, basta respeitar o presente. “Não tem leveza para ninguém e precisamos cumprir com determinações que nos foram colocadas”.

Mas é evidente que existem outros desafios, como o luto. “As relações terão que ser reconstruídas e novos caminhos terão que ser trilhados. Já não existe uma família que não foi tocada pelo vírus, então vamos cuidar de nossas vidas”.

Erick Tedesco

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