Nunca fui dada à composição, mas adoro a regência e o coral

Foto: Claudinho Coradini/JP

O ano de 2021 está quase no fim e já podemos dizer claramente que foi um ano adverso na vida de todos. Muito disso por conta da pandemia do coronavírus, que impactou a vida artística país afora, não só aqui em Piracicaba, mas em todos os lugares. Contudo, a Empem (Escola de Música Professor Ernst Mahle) parece ter se mantido a todo vapor.

Em funcionamento desde o dia 09 de março de 1953, quando foi fundada ainda sob o nome de Escola Livre de Música Pró-Arte de Piracicaba, a Empem vem servindo não só a cidade, mas toda a região, despertando nos jovens a música em suas mais diferentes formas e proporcionando conhecimento. E qual seria a força motriz por trás de tudo isso? Cidinha e Ernst Mahle.

Foi Cidinha e Mahle, juntamente com Hans-Joachim Koellreutter, que começaram a Empem aqui em Piracicaba. Mahle ficava encarregado da cena artística, como diretor, enquanto Cidinha cuidava da parte administrativa. Já Koellreutter fazia a parte de supervisão geral. Diga-se de passagem, Koellreutter havia fundado em São Paulo a Escola Pró-Arte, e, na época, dada a escassez de escolas de música aqui no interior do Estado, muitos alunos tinham que se locomover até a capital para estudar. Daí surgiu a ideia de começar aqui em Piracicaba uma escola de música. Foi uma necessidade.

Os primeiros cursos ministrados na Empem ensinavam os alunos muito mais do que teoria musical. O conhecimento se dava também no ensino de solfejo, harmonia musical, contraponto, dança clássica, iniciação musical, história da música e estética musical. Aos poucos, com a entrada de novos cursos, aulas de flauta, piano, violino, violoncelo, clarineta, declamação, regência, artes plásticas, canto, acordeão, coral e música de câmera também foram adicionadas à grade curricular.

Em 1955, com a ideia de formar novos instrumentistas, Mahle montou a primeira Orquestra Infantil de Piracicaba. As composições tinham como base não só o estilo erudito, mas também as canções folclóricas. Durante 50 anos, essa orquestra serviu como fonte de inspiração e formação de muitos músicos da região.

Por conta de tudo isso, a Empem foi chamando a atenção da sociedade local e, em questão de pouco tempo, superou a matriz de São Paulo em número de alunos inscritos.

O reconhecimento é tanto que, em 2020, a Escola de Música Professor Ernst Mahle foi homenageada por seus 67 anos de fundação. Trata-se de reconhecimento ao ensino e dedicação que o casal Mahle tem não só com a música, mas também com todos os seus alunos e colaboradores. Ernst Mahle, alemão nascido em Stuttgart, no dia 03 de janeiro de 1922, já tem um capítulo à parte na história musical piracicabana. O mesmo vale para Cidinha, sua incansável companheira.

Ernst Mahle e Maria Apparecida Romera Pinto, a Cidinha, casaram-se no dia 10 de abril de 1955, numa cerimônia religiosa discreta. Desta união, vieram cinco filhos: Ernesto, Cecília Elizabeth (in memorian), Claudio, Ricardo e Leonora. São quase 67 anos de união, e claro, muita música.

Após tanto tempo, a EM-PEM continua firme em sua missão de não somente popularizar a música e utilizá-la como instrumento de formação da sociedade, mas também de (01) contribuir para a formação de uma cultura fundamentada em princípios éticos; de (02) promover e manter a educação artística, especialmente a musical, por meio da oferta das mais variadas atividades; de (03) difundir a cultura artística, sempre utilizando como ênfase a cultura e manifestação musical; e (04) tornar conhecidas as principais obras musicais, nacionais e estrangeiras, por meio de audições e concertos.

Daí o motivo da EMPEM ser muito mais do que uma instituição de ensino, mas um divisor de águas na história da música piracicabana. A EM-PEM, quando inaugurada, foi vista com grande entusiasmo pelos piracicabanos, tal como mencionou um artigo do “Diário de São Paulo”, em março, que dizia que a instituição seria um marco na vida artística local. E foi.

Cidinha até hoje se mantém ativa, auxiliando a nova geração de músicos sempre que pode. O mesmo vale para Mahle, que, embora tenha se isolado um pouco devido à pandemia, continua ainda compondo e criando novas composições. Ernst Mahle nasceu em Stuttgart, na Alemanha, no dia 03 de janeiro de 1922. Seus primeiros contatos com a música, ainda lá pelos oito ou nove anos de idade, vieram com a flauta doce. Compondo obras desde os 22 anos de idade, Ernst Mahle conta que não pretende se aposentar. E mais, diz que a música o mantém vivo. O mesmo vale para Cidinha, que até hoje sente mais do que necessidade de praticar piano.

Nesta entrevista ao Persona, Cidinha Mahle fala um pouco da cena musical de Piracicaba, do começo da Empem e da importância da música para a formação dos jovens.

A cidade de Piracicaba tem uma cena cultura bastante agitada. Quando digo isso, me refiro à cultura de maneira geral, não somente à música. Você concorda com a afirmação de que Piracicaba é um grande celeiro cultural, berço de grandes artistas?
Eu concordo, sim. Só de pensar na escola de música e na quantidade de alunos que estudaram lá — que fizeram ou não carreira –, e que continuam apreciando música e cultivando ela até hoje. Eu acredito que sim.

Com que idade e como você começou a se envolver com música?
Eu comecei na música estudando piano aos seis anos de idade.

Como você define não só sua parceria musical com Ernst Mahle, mas acima de tudo o companheirismo de vida de vocês?
O Mahle e eu somos pessoas de temperamentos bem diferentes, mas trabalhamos muito bem juntos e estamos casados há quase 67 anos.

Qual a maior dica que você pode passar a um jovem que pretende seguir carreira na música atualmente?
Que ele goste muito de estudar, que vá assistir concertos e principalmente que tenha bons professores.

Como você conheceu o senhor Hans-Joachim Koellreut-ter?
O modo como eu conheci Hans-Joachim Koellreutter conto bastante bem em meu recente livro “Recordações”. Porém foi no ano de 1952, em julho, na Pro Arte de São Paulo.

Como foi o início da Em-pem? Quais eram as maiores dificuldades que vocês enfrentavam na cena musical?
O começo da Empem, que no início tinha vários nomes como Pro Arte, Escola Livre de Música, etc, foi muito difícil, não tínhamos capital algum. Contudo as pessoas de prestígio musical e artístico aqui na cidade muito colaboraram, nos orientando. Tudo isso eu conto em meu livro “Recordações”, recentemente lançado.

Quais os principais objetivos da Empem até hoje?
Os principais objetivos sempre foram: trabalhar com os alunos a fim de que eles gostassem de estudar música, percebessem quanto ela poderia ser importante em suas vidas, seguissem a carreira de profissionais ou não.

Você é adepta da composição ou prefere a regência?
Nunca fui dada à composição, o compositor sempre foi o Mahle. Ele sim compõe muito, até hoje, aos 92 anos. Sempre fui mais dedicada à regência coral, ao ensino de crianças e jovens e a tocar como pianista acompanhadora.

De todo o material que você e Ernst Mahle agregaram nesse tempo todo, qual você enxerga com mais carinho?
Essa eu acho bem difícil de responder, mas vou mencionar as três óperas: “Maroquinhas Fru Fru”, “A Moreninha” e “O Garatuja”, já encenados com grande sucesso, coisa que eu espero que se repita com “Isaura” (libreto Marcelo Batuíra, baseado no romance de B. Guimarães) música de Mahle em primeira audição.

Rafael Fioravanti
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