“O amor é o único tesouro que aumenta quando dividimos”

Juliano Silva, de Piracicaba, já participou de exposições em 9 países | Foto: Claudinho Coradini

O artista plástico piracicabano Juliano Silva, de 36 anos, é um apaixonado pelo ofício das tintas. Produtor e divulgador da Arte Naïf, ele hoje tem obras em todos os continentes e já expôs seu trabalho em nove países. Autodidata, aprendeu desde criança apenas observando nada menos que um expoente do Naïf local, seu pai, Ciro de Oliveira (in memorian).

Juliano acredita que a arte é reveladora e inspiradora. “Esculpir e pintar é uma forma que encontrei de levar tudo aquilo que não vimos, mais sentimos em forma de cores, sentimento que vem do coração, buscando alegrar a todos aqueles que visualizam meu trabalho, com o objetivo de transmitir felicidade, cores e sonhos para os amantes da arte, assim levando a Arte Naïf ao mundo”.




Para Juliano, a arte Naïf é a arte livre, autodidata, um jeito pessoal de expressar emoções. É a arte do ingênuo, do simples e do espontâneo. Por isso mesmo, por não exigir técnica inicial, é uma arte inclusiva, que permite a quem tenha a vontade de pintar, esculpir e se expressar por meio da arte, fazê-lo sem limites, apenas com amor. O movimento naïf foi iniciado no final do século 19 pelo pintor francês – e autodidata Henri Rousseau – em meio à revolução da arte moderna. Desde então, o movimento vem crescendo e o Brasil ganhando destaque por concentrar grande número dos mais talentosos e criativos artistas naïf do mundo – com vários expoentes em Piracicaba, uma das principais cidades do país que divulga este estilo.

Dentre os prêmios de destaque, estão os Votos de Congratulações da Câmara de Vereadores de Piracicaba, em 2018, e o de Artista do Ano, pelo Projeto Grandes Pintores, oferecido pelo colégio COC de Franca, no interior de São Paulo, também em 2018.

Já são mais de 200 obras produzidas por Juliano e uma inspiração constante e desafiadora que não o deixa parar. É com coração repleto de alegria e gratidão que ele oferece momentos de amor e cores, como nesta entrevista.

A Arte Naïf é bastante difundida em Piracicaba, muito graças à bienal no Sesc local. Tem recordações de como o seu pai se envolveu com este estilo e como foi o início do seu envolvimento neste universo?

Com certeza, a Bienal do Sesc é um grande divulgador da arte Naif na cidade de Piracicaba, porém, hoje temos muitas Bienais Naifs no Brasil e no mundo. Meu pai se envolveu com o estilo desde que quando era criança, tenho desenhos dele que ele fazia quando tinha 8 anos em seus cadernos do colégio, sendo depois de muitos anos tendo participado muito da Bienal Naif do Sesc. Meu início no universo Naif se deu deste de pequeno, acompanhando as exposições junto ao meu pai. Comecei em 2003 com as esculturas e passando para as pinturas. Uma característica que difere muito o trabalho do meu pai e o meu é que ele sempre pintou muito Piracicaba e temas regionais, e eu acabei indo para o lado mais lúdico e de sonhos. Mas ele é ate hoje a maior inspiração que tenho na arte!

Devido ao nome, Näif, ingênuo, às vezes o estilo é subjugado e até marginalizado, no entanto, é uma expressão artística que extrapola o ofício e se dá, também, no contexto e experiências de vida do artista. Qual é o fio condutor da Arte Naïf que sintetiza seu trabalho?

Com certeza é mesmo a arte ingênua, essa característica do artista sobre sua região. A minha arte, por exemplo, o que me conduz sempre é o amor, é deixar uma mensagem para que por mais que nosso dia pareça escuro os pinceis está em nossas mãos para que possamos colorir. Esse é um trabalho que procuro fazer, é a síntese do meu trabalho, trazer tudo aquilo que sentimos mais não vemos em forma de cores.

Juliano, você contabiliza quantas obras já produziu, quantas estão em exposições permanentes, quantas já foram e vieram do exterior? E ainda dentro da questão de números, sua produção segue regras, tempo entre uma e outra etc?

Atualmente já são mais de 400 obras produzidas e mais de 100 que viajaram para outros países! Como minha primeira exposição se iniciou na Alemanha, em Noremberg, hoje tenho a oportunidade de ter obras expostas hoje em todos os continentes. Para se ter uma ideia, no ano de 2019 foram 15 exposições internacionais. A produção das obras são constantes, pinto diariamente e varia muito a obra que estou sentimento e fazendo em relação ao mês. Algumas obras demoram meses, obras que demoram dias, e algumas obras que demoram algumas horas.

É possível dizer que, assim como o naïf é forte em Pernambuco, o estilo também é relevante dentro do universo artístico de Piracicaba? Creio que você pode conviver com importantes naïfs locais, como a Carmela.

Conhecendo e podendo participar de exposições no Brasil e ao redor do mundo e conviver com grandes artistas Naifs no mundo, posso dizer que hoje a Arte Naif está forte em muitos lugares em destaques algumas cidades aqui no Brasil como, a cidade de Socorro, na Paraíba e, no exterior, na Polônia, onde acontece um grande festival. Também na França e em Miami, seria ate difícil mencionar o quanto a Arte Naif esta forte em vários lugares e principalmente os artistas mais unidos, mas não tenho dúvida nenhuma, conhecendo esses trabalhos e esses lugares, os estilos são bem relevantes ao que vimos aqui na Bienal Naif do Sesc, pois, independe do lugar, o que difere um artista é a sua arte ingênua e pura.

Para você, qual o valor do Sesc Piracicaba realizar a Bienal Naïf? Já teve obras selecionadas em alguma edição?

O Sesc tem seu papel muito importante na história da Arte Naif no Brasil, pois foi praticamente o pioneiro das Bienais da Arte Naif. Porém, atualmente existem muitos eventos no Brasil que elaboram exposições, além de tantas internacionais. Infelizmente minhas obras nunca foram selecionadas para a bienal do Sesc, mas é uma bienal que acompanho de perto, vou às abertura, prestigiar prestigiar os amigos artistas selecionados. É sonho um dia ter a oportunidade de poder ter minhas obras selecionadas por uma questão de homenagear meu pai, que tanto participou e foi premiado algumas vezes.

Você tem obras expostas em vários países. Como levou seu trabalho aos Estados Unidos e Europa? No continente europeu, principalmente na França, consome-se muito a arte naïf, não?

Tive a felicidade de receber o convite para expor nesses países e, hoje, tenho essa felicidade de ter pessoas que me representam no exterior. Costumo dizer que, independente da arte Naif, acredito muito no amor e na dedicação de cada obra e cada mensagem que ela procura passar, pois todas as exposições que participei não eram focadas apenas na Arte Naif. Temos alguns clientes na Ásia e na África! Fix exposições no Carroseul do Louvre, em Paris, São 40 mil pessoas que passam por dia! Então é um publico diversificado de muitos países. As exposições de Miami, Nova York, e é por isso tenho a felicidade de ter hoje minhas obras presentes em todos os continentes. Acredito muito na ligação da obra que encontra seu cliente, por isso costumo dividir que o mundo consome a arte quando ela é bem compreendida baseada no amor.

E como foi expor em países da América Latina onde o naïf, de certo modo, não é tão praticado, como Argentina e Chile? Apesar de o Chile ter os bordados e pinturas de Violeta Parra, que como uma autodidata e pela estética, acredita que ela pode ser considerada a expoente naïf daquele país?

Tenho feito muitas exposições e trabalhos nos países da América Latina e Estados Unidos. Costumo dizer que, por ser piracicabano, todas as exposições que participo é sempre um sentimento muito grande de gratidão! As exposições que fiz nos países da América Latina, praticamente 90 % foram exposições elaboradas nas embaixadas dos países.

No Chile, por exemplo, fizemos na embaixada do Brasil como também tive a oportunidade de expor aqui no Brasil com chilenos no Rio de Janeiro, e quando, vemos a diversidade de artistas ingênuos autodidatas tanto na Argentina, Chile, Peru, Paraguai, percebemos a quantidade de talentos e artistas que estão ganhando o mundo!

Violeta Parra, acredito, sim, ter sido uma grande expoente no Chile, grande artista plástica, cantora, compositora, e todo trabalho de amor que ela contribuiu para o Chile.

Qual é o grande aprendizado que o seu pai te legou na arte e que considera fundamental para sua desenvoltura?

Foi o amor, o respeito! Com ele aprendi o verdadeiro amor de acreditar num sonho que muitos acham impossível, como mencionei acima ver hoje minha arte no mundo todo mais sem perder a essência que é a divulgação de um mundo colorido e estar participando de exposições hoje como artista.

Neste momento de isolamento forçado pela quarentena, o que anda produzindo?

Costumo produzir diariamente independente do isolamento, mas estamos passando por um momento que necessita de uma reflexão particular de cada um. Recordo-me que, no final de novembro, cheguei ao Brasil e me recolhi em reflexão sobre o ano que ia se iniciar, por isso nesse isolamento continuo produzindo bastante e refletindo cada vez mais como faço em todas as obras. Acredito no que faz um artista é acreditar que ele pode mudar o mundo, pois pintar por pintar sem um propósito seria em vão! Então, acredito plenamente que, nesse momento de reflexão, possamos todos refletir um pouco mais na arte, tanto obras de arte, teatro, música e como costumo dizer que depois de tudo isso os abraços e os encontros eles não serão os mesmo e nesse momento estamos aprendendo que o amor é um sentimento puro, e que podemos chegar muito mais longe do que imaginamos sem sair de casa.

Hoje tenho obras que no momento que deixo ela publica, elas são comentadas em todos os cantos do mundo, como Cingapura, Indonésia, e em vários outros países, e a mensagem de amor e de cores segue fluindo sem ao menos eu sair de casa. Por isso, nesse momento, tenho criado bastante, mas sem desanimar dos meus sonhos que é levar uma mensagem para os amantes da arte que todo sonho são possíveis.

Você acredita que, além de pincéis, tintas e tela, ou um pedaço de madeira e as suas necessárias ferramentas para se esculpir, a Arte Naïf também demanda um enorme exercício de cidadania e compaixão?

Acredito plenamente, pois costumo dizer que o amor é o único tesouro que aumenta quando dividimos, e poder dividir minha arte com as pessoas levando a mensagem que todo sonho é possível! Isso não só as pinturas, mais a música, o teatro e por ai vai. Acredito que o exercício da cidadania da compaixão maior que possamos fazer é o exemplo! Por isso tenho recebido mensagem de pessoas de todos os lugares, justamente com esse objetivo de dividir e de compartilhar que os sonhos são possíveis e de levar essa mensagem do que independe do que você escolher ser na vida, tendo muito amor e trabalho, é impossível dar errado! Porém, exige paciência e determinação, é essa mensagem que tenho levado às pessoas que acompanham meu trabalho e para as visitas que faço em escolas onde estudam minha arte.

A Arte Naif tem um contexto muito interessante e particular de se trabalhar na divulgação do amor e de uma mensagem de paz, pois pelo fato dos artistas serem autoditadas e livres, faz com que o trabalho de cidadania fique mais claro sobre a pessoa fazer apenas aquilo que sente vontade, isto é, ser livre a expressar apenas os sentimentos dela, sem ter aquela formação acadêmica.

Erick Tedesco ([email protected])