O beijo no tatame

O cheiro de suor vinha de longe. Um tatame enorme misturava o odor ocre de chulé com poeira e mofo. Meninos todos juntos vestindo túnicas brancas como se fossem parte de uma cultura oriental em plena comunidade interiorana de São Paulo. Os garotos sempre autoconfiantes e animados para aquela aula de judô, em plena tarde de terça-feira. Eles sabiam o que estavam fazendo. Eu não.

Na casa dos meus sete anos de idade, eu tinha um frio na barriga toda vez que tentava me enturmar com tantos rostos diferentes de idades distintas. Toda aquela ladainha de que um garoto precisa praticar esportes e a ideia era que eu, com os olhos arregalados, me daria bem neste.

Sete anos. Nada autoconfiante. Faixa branca. A cor (ou falta de cor) significa que quem a vestia não sabia nada. Era o pré-saber-alguma-coisa!

Naquela época, olhava tudo com muita curiosidade. Inclusive aqueles garotos todos. Alguns eram mais velhos, com faixas azuis, marrons e pretas. Eram mais evoluídos fisicamente que os outros. E eu, uma criança, e aquela vergonha toda, aquele terror pelo desconhecido, perguntava-me como poderia ser igual eles. Inveja ou fascínio?

O que eu sabia da vida vinha do relacionamento com minha irmã. A garota mais velha que eu andava muito próxima de suas amigas e vizinhas. Achava que também deveria ser mais próximos desses meus novos amigos. E é observando que se aprende. E aprendendo que se copia. Comportamento, principalmente.

Minha irmã, com seus nove, dez anos, tinha sua turma de amigas. Ela sempre beijava e abraçava aquelas coleguinhas de classe e todas sempre andavam de mãos dadas, exalando afeto. Eu ficava ali no meu cantinho, vendo que aquilo talvez pudesse funcionar para que eu me enturmasse e que o pessoal, mesmo arredio, iria ter certa simpatia por mim. O que iria perder aquela criança ingênua e sem jeito para golpes de luta?

Naquela tarde específica, o exercício era fácil. Os meninos faziam uma fila grande. O primeiro corria, dava uma cambalhota e voltava para o final, passando por toda a turma e estapeando as palmas das mãos de quem ainda esperava por sua vez.  

Na minha cabeça era preciso agir com afeto. Ato este que mais tarde percebi ser condenável. Mas ali soou tão natural…

A cada garoto que fazia a cambalhota e voltava para a fila eu soltava um beijo estalado. Smack! Ecoava pela sala. Um beijinho simples, como minha irmã também mandava para suas amiguinhas. E foi-se o primeiro, o segundo, terceiro.

Os garotos se entreolhavam e quem encarava aquele ato ficava com uma expressão de curiosidade, confusão e raiva. Talvez sem entender o que aquela criança queria, o professor o puxou-me para um canto e perguntou: “Mas o que você está fazendo?”.

Na naturalidade própria de uma criança, respondi que estava mandando beijos para seus amigos porque gostava deles. Era como acontecia entre as meninas. Por que com meninos seria diferente?

Os risos ecoavam por aquele salão quente e mofado. Aquele cheiro que impregnava na alma, aquela sensação de ferver a cabeça de vergonha, ficaram marcados em mim.

O judô tem toda uma aura de disciplina. Quem faz, dizem, vai levar para sempre um grande aprendizado da filosofia oriental. Mas naquela tarde, tomei uma bronca grande do professor, que me colocou de castigo no banco, dizendo que jamais deveria repetir aquilo. “Você não pode. Você é um garoto e eles também são”.

As semanas foram se passando e eram os meninos do judô que começaram a mandar beijinhos para mim, como forma de me lembrar daquele erro em um bullying eterno.

Segui fazendo judô por algum tempo, mas, apesar de muitas tentativas, nunca passei da faixa branca.

O trauma virou superação e o episódio foi de fato uma lição que me deu como condecoração uma outra faixa, que exibo com orgulho, estampando as cores do arco-íris.

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