O Jornal e a Cidade

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Desde o primeiro instante em que te conheci e pude saber dos teus, de tuas flores, teus encantos, que pude entender melhor “a grande dor que sente o filho ausente a suspirar por ti”, tenho-te, também em mim, Piracicaba! Por estes lados nossos, não há como não reconhecer em ti, ó Noiva da Colina, o primor de Deus na tua paisagem, no traçado de teu contorno, ao dar-te António com o Menino ao colo para padroeiro.

Penso que foi António, escrito assim mesmo,no jeito português de escrever seu nome, quem fez de teu rio palco e cenário para a divina festa. Quantos privilégios para ti, Piracicaba. Isto tudo, sem falar de teus poetas, teus escritores, teus artistas plásticos, tuas escolas superiores conhecidas e reconhecidas universalmente.

Esquecer-te, jamais!

Tudo é tão consoante contigo, há tanta harmonia na composição de teu espaço, a natureza soube tanto ajeitar-se por todos os lados onde se estende o olhar a admirar-te queo povo bom desta terra deve entender tantas graças recebidas para festeja ainda mais o instante em que Deus te renova a vida no teu solo.

Até mesmo o Jornal que conta e reconta tua história e vem contigo há mais de um século comemora a teu lado, celebrando contigo.

Tantas mensagens chegaram até mim de meu artigo passado que nem sei contar. Quanto agradeci estes leitores generosos que reconhecem, como eu, em Carlos Drummond um poeta que valoriza, tanto quanto eu, agora, a terra e a gente onde, de algum modo, é possível ter o pão nosso que Deus dá. Com ele aprendi que amar a terra não exige ser dela. É preciso estar nela aprendendo a separar bem o que deve e o que não deve ser lembrado.

Hoje, continuaria remexendo a memória na crônica do dia até ter sido provocado por alguém que me perguntava se me havia dado conta da tua festa. Mudei o foco. Não me esqueceria por ter, por ti, Piracicaba, e por tua gente boa, enorme apreço. Todo ano festejo a data e, neste, pensei deixar lembranças minhas, de um passado recente, já que, na festa do padroeiro, havia celebrado.

De repente, um passeio por teus espaços mais significativos, me obriga a celebrar-te uma vez mais. Gosto de ver como caminhas a passos largos em busca do progresso constante, sem descolar de tuas raízes, as mais profundas e verdadeiras.
Prados, horizontes, serra e montes que vejo aqui assistem a teu crescimento sem perder o encantamento próprio de noiva que és e tem, na renovação constante de tuas núpcias, a esperança de ser vista e festejada. Hora outra vez disto. Faço. Por ti e por teu povo.

Como se fora, a cada dia, o teu dia, tratei de apreciar uma vez mais o modo como deixas cair a cauda de teu véu sobre o rio, fazendo disto um rastro de beleza para nosso constante alumbramento.

Nenhuma jamais vestiu-se assim, para causar admiração em tantos! Nenhuma teve este poder mágico de enfeitiçar, com sua formosura, o nativo e o viandante.

Já no amanhecer, entre cantos de galo na sua forma mais rural, na agitação de tuas fábricas, no alvoroçar de teus estudantes, tu te entretendes com a manhã para erguê-la e fazer disso uma armação tão forte dando a cada dia, o dia bom que esperas, para estabelecer junto do desenvolvimento um lastro de justiça e de verdade.

O sol que se reflete no espelho d’água em que te debruças dá a grandeza da luz que te ilumina.

Ao meio-dia quando já te mostras por inteiro no ritmo frenético do trabalho, impressionas teus visitantes que entendem seres muito mais um aglomerado de cidades, tão dinâmicos teus bairros, que uma cidade só.

Teu rio, ao passar pelo remanso, há dois séculos e meio, observa a Casa do Povoador, os parques que a circundam, os pastos viçosos onde a vida segue mansamente o seu jeito simples e bom de ser e a constante promessa de futuro no jeito intrépido e audaz de tua gente trabalhadora.

No enrubescer da tarde, já quase noite, as árvores do terreno baixo, apaulado, convidam a passarada para o sono e o pouso. Algazarra sem conta na chegada. Festim que só termina quando a noite desce impondo silêncio e calma. Barulho, só o da cachoeira que tece o véu em renda no cair das águas.

Como não celebrar esta terra de Santo António! De São Benedito, de São Judas! De Santo Domingos, São Dimas! Do Sagrado Coração! De Nossa Senhora! Como esquecer onde o Espírito Santo fez morada repetindo, a cada ano, encontro de cor, de som, de luz, ali, bem ali, onde o saipé dourou-se revelando beleza e brilho?

De tantos lugares onde estive, das gentes que conheci, eu que não assentei pouso onde nasci e optei, desde aqueles primeiros instantes, no colo de meus pais a andar pelo mundo, volto aqui quando posso porque muitos dos que conheci me ajeitam o coração e a vida. O que é a cidade senão seu povo, sua gente? Esquecer como de quem sabe fazer da amizade, laço que acolhe e prende?

Há, não nego, quem cause aborrecimento, amofinação. Nem tudo apraz. O mal se esconde onde menos se espera. O capiroto, danado, maroto como sabe ser, doma muita gente, daninha tudo. Se penetra o coração da mãe – Deus nos acuda! – enreda o existir de cada qual.

Agora, Deus, não. Deus se acomoda na grandeza de seu Amor, em silêncio, na paz que é dele. E vence. Tomou lugar aqui o Divino Espírito Santo. Entre os que, com Ele, fazem bem à vida e à cidade.

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