O mágico “salto” e os desafios para Piracicaba

Como num passe de mágica, na última sexta-feira, dia 7/8, Piracicaba saltou da fase vermelha para a fase amarela do Plano São Paulo de flexibilização da quarentena, sem passar pela fase laranja. Tal “progressão” ocorreu às vésperas do dia dos pais e, excepcionalmente, as mudanças passaram a valer no dia seguinte, justamente para viabilizar que as pessoas saíssem às compras. Com maior planejamento, a liberação poderia ter ocorrido na semana anterior, evitando-se aglomerações no comércio na véspera da data festiva.

Duas explicações podem justificar a repentina mudança de classificação da cidade: ou milagrosamente foram descobertos antídotos para o coronavírus, ou, à medida que as eleições se aproximam, os atuais administradores da máquina pública resolveram voltar atrás e mudar de estratégia a fim de evitar, nas urnas, o desgaste político notório decorrente da paralisação forçada por mais de quatro meses, que resultou em situação muito pior em Piracicaba que a da capital do estado e de outros municípios paulistas.

É importante ressaltar que o “salto” somente foi possível com alterações do critério de classificação do Plano São Paulo, isto é, as regras foram alteradas de uma hora para outra – e, aparentemente sem qualquer explicação “científica”, apenas para viabilizar a transição de algumas cidades específicas. Ao que tudo indica, por obra do tradicional “jeitinho” brasileiro, a preocupação com “a vida” cedeu espaço para a preocupação com a “economia” como se, desde o começo, as pessoas não dependessem da economia, ou do trabalho, para sobreviverem.

Espera-se que o fenômeno seja duradouro e que a cidade não necessite retroceder rapidamente para as fases laranja ou vermelha, o que certamente denotaria inconsistência no salto da flexibilização.

Como nem tudo são flores, Piracicaba ainda terá que lidar com desafios importantes gerados não só pela pandemia, mas especialmente pela forma como a administração da cidade e do estado lidaram com ela.

Dados recentes do IBGE revelam que a forma como a crise de saúde foi administrada deixou um saldo de 40,5 milhões de desempregados em todo o país. Notícias dão conta de que o padrão de vida do brasileiro deve ter queda recorde, com estimativa de perda de 6,7% do PIB por habitante, a maior retração desde o início da série histórica, na década de 40. A situação em Piracicaba é dramática, e não se sabe se a administração da cidade já tentou mensurar os impactos da política que adotou no mercado de trabalho local.

Assim, o desemprego, além da saúde, passa a ser um dos maiores problemas a serem enfrentados. É preciso que gestores analisem todas as formas possíveis para arrefecer tal situação e estimular a volta da criação dos postos de trabalho perdidos.

Um outro desafio diz respeito à educação, especialmente das crianças da primeira e segunda infâncias e do ensino fundamental, que são de responsabilidade municipal. As crianças mais novas foram as mais afetadas pela ineficiente gestão da crise. A pandemia expôs o fato de que as escolas municipais não estavam preparadas para o uso de tecnologia no ensino nem formas alternativas de aprendizado. É necessário conceber um plano que enfrente os prejuízos que a crise do coronavírus vai deixar para o aprendizado das crianças de Piracicaba. Não é possível que o poder público negligencie tal tarefa.