O Otimista

O Otimista acorda cedo, seja ou não dia de semana. Arregala os olhos com o primeiro soar do despertador. Espreguiça antes de subir o tronco para, então, levantar-se, com o pé direito, sempre.

Para o Otimista, o café da manhã é a principal refeição do dia e o seu pingado tem açúcar, sim! “Porque de amarga já basta a vida”. O Otimista é do tipo diurno.

Ele dá bom dia, distribuindo sorrisos e cantarolando canções como se sua cabeça fosse uma rádio AM do interior paulista. “Canto para espantar a tristeza”, diz para quem ousa reclamar. Para começar bem o dia, yoga.

Se o dia está ensolarado, o Otimista twitta: “hora da corridinha matinal #gratidão”. Se está chuvoso e frio, não deixa de postar uma foto da xícara de café com a legenda: “um dia frio, um bom lugar pra ler um livro… @djavanoficial”. Augusto Cury, Cortella, Karnal estão na estante ao lado de um buda que serve de peso de livro e porta-incenso.

Veste cores fortes. Mistura tendências. Tattoo japonesa. Piercing no septo. Meia de dedinho. Corrente nos óculos. Whey protein. TOC. Bike. Bipolaridade. Expressionismo alemão no fundo de tela do celular. Pai de planta. Cinéfilo de blockbusters. Vegano!

O Otimista evita jornais porque as notícias são negativas demais, mas gosta de dar sua opinião quando se reúne para um gin com os amigos. Acredita que a “mão pungente do mercado” resolverá o problema da Economia. É fã das facilidades oferecidas pelo banco e do seu cartão platinado.

As reformas, para o Otimista, são sempre bem-vindas, pois ajudam o país a alavancar. “É muito difícil ser empresário hoje em dia. Temos sempre que ajudar quem nos ajuda a trabalhar”.

O Otimista, de certa forma, odeia política. Mas, “se está eleito foi, vamos apoiá-lo para o Brasil crescer”. Ele não votou no segundo turno.
E mesmo em um cenário obviamente pessimista, tem como ser positivo? Claro que sim. “Há sempre algo bom em uma pandemia. Estou refletindo mais sobre eu mesmo”.

O Otimista está sempre dando dicas. Dicas de séries. Dicas de livros. Dicas de filmes. Dicas de supermercado. Dicas de como comer melhor. “Beba água!”. “Dance na frente do espelho”. “Receita para assar seu próprio pão”. “5 passos para encontrar a felicidade dentro de si mesmo”. Otimista adora um pleonasmo.

O Otimista não frequenta religião. Ser iluminado que é, sente presença de espíritos e energias boas ou ruins nas pessoas. Em suma, o Otimista acredita. Astrologia, cartomante, cabala, mandinga, bruxaria, palo santo, banho de ervas, sal grosso, chia, óleo de coco e yakult.

O Universo que rege a natureza — do girar de Saturno à direção certeira das fezes das pombas na praça — foi o responsável por sua promoção no trabalho, por passar na prova de inglês, pela recuperação da apendicite, pelo carro financiado em 412 parcelas e pelo iPhone barato que encontrou sem querer à venda na internet. “Quem acredita sempre alcança” é o mantra do Otimista.

De frases de efeito, aliás, das que mais gosta estão “a esperança é a última que morre”, “nenhum obstáculo será grande se a sua vontade de vencer for maior”, “no fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim”, entre outras. Todas anotadas em stickers colados pela casa.

O Otimista não cansa e isso faz dele, a cada dia, mais otimista. Ele está por aí, no seu escritório, na sua sala, na vendinha da esquina, na escola e no atendimento de telemarketing. No restaurante sem canudos, no estúdio de crochê, nas lentes de contato biodegradáveis. O empresário de tie-dye, o padre acupunturista, o astronauta apicultor.

Nada contra. Eu nem sou pessimista, mas você também não desconfia vendo esse mundo otimista até demais?

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