“A construção do país na falsa democracia racial é uma das coisas que mais prejudicou e prejudica o negro no país”, afirma Adney Araújo, presidente do Conepir (Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Piracicaba). Desde a abolição da escravidão em 1888, sem políticas públicas de inclusão social, a população negra é subrepresentada na sociedade brasileira. Mesmo com certos avanços, ainda hoje a disparidade entre brancos e negros é visível, mesmo em um país onde 56% de sua população se declara negra.


Alguns dados do informativo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”, produzido pelo IBGE (Instituto de Geografia e Estatística) em 2019, ilustram essa disparidade, conforme lembra o doutor em economia aplicada pela Esalq/USP, Josimar Gonçalves de Jesus. Entre os 10% mais pobres da população, os negros representam 75,2%. Já entre os 10% mais ricos, apenas 27,7%. As razões para essa desigualdade são diversas e a diferença entre o rendimento médio é um deles: dos negros são R$ 1.608,00, o que representa 57,7% da renda média dos brancos, R$ 2796,00.

“Não é possível desvincular as desigualdades atuais entre negros e brancos da condição histórica inicial, isto é, do fato que, uma vez finda a escravidão e as barreiras formais à mobilidade social dos negros, por motivos óbvios, estes se encontravam no patamar mais baixo da hierarquia social”, reflete Josimar ao pontuar que a disparidade está longe de terminar, mas à medida que essas questões saem da marginalidade o debate político se fortalece.


Em um país onde apenas 55,6% dos jovens negros entre 18 e 24 anos estavam cursando o ensino superior em 2019, frente a 78,8% dos brancos nessa faixa etária, a estudante de direito Ingrid Lopes é a primeira da família a chegar na universidade. Também criadora de conteúdos para internet, ela faz questão de explorar os três assuntos que considera ser seus pilares: preconceito, política e beleza.

Ingrid usa as redes sociais para compartilhar conteúdo sobre preconceito, política e beleza | Foto: Arquivo Pessoal


A caminhada não é fácil em uma sala de aula de 50 alunos com apenas mais dois negros, porém o orgulho que vai dar à família quando se formar é sua motivação. “As pessoas vão olhar a sua inteligência, seu diploma e sua cor, seu jeito e sua roupa, coisa que você não olha numa pessoa branca. Sinto diariamente que eu tenho que ser melhor”, compartilha, lembrando que esse sentimento acarreta em diversas questões – mesmo psicológicas – para quem os carrega.

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Aos 41 anos, Jeovana Cardoso de Souza, mestranda em direito fez questão de escolher como linha de pesquisa a eficiência das cotas raciais nas universidades. Conta que enfrentou diversas discriminações questionando sua capacidade de estar onde chegou. Ela é a segunda aluna em dez anos de um dos professores do mestrado. “É triste pesquisar sobre desigualdade racial no Brasil e ver que o racismo advém das desigualdades que a população negra está inserida, que o racismo se materializou na cultura e consequentemente nos valores das pessoas”, comenta.


Com o passar dos anos, percebe-se que muito pouco mudou, na verdade. Médico pediatra formado pela Unesp Botucatu e que atua há mais de 25 anos na UTI Neonatal da Santa Casa de Piracicaba, Antonio Ananias Filho lembra que dava para contar nos dedos os alunos negros no curso, mas pontua que não enfrentou questionamento de sua capacidade durante a formação. Já atuando 9 anos depois de formado e com a especialização no antigo Pronto Socorro Municipal, ouviu um paciente questionando a enfermeira se ele era realmente o médico.


“Acho que isto me tornou mais forte e me fez estudar ainda mais”, relata. “A representatividade da população negra neste país ainda é muito pequena diante da rica história, folclore e cultura dessa população”, avalia.

Lia Mara, presidente do Conselho Municipal da Mulher, enfatiza que, devido ao gênero e à raça, às mulheres negras estão reservados, muitas das vezes, os subempregos, sendo que a maioria são as provedoras da casa e mães solo. “Espero que haja reparação histórica ao meu povo e que possamos ter um efetivo enfrentamento ao racismo, que tenhamos políticas públicas que combatam as desigualdades. Nossas pautas são urgentes e ‘inegociáveis’”, salienta.

Andressa Mota

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