O Santo que restitui bens perdidos

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Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

Expliquei, na semana passada, como se originou a fama de casamenteiro de Santo Antônio, um dos santos mais populares do Brasil, padroeiro da Diocese e da Cidade de Piracicaba.
Santo Antônio também é invocado como eficacíssimo restituidor de bens perdidos. Na sua biografia escrita pelo Pe. Fernando Thomaz de Brito, que citei no artigo anterior, são narrados vários episódios antigos de devotos que recuperaram objetos perdidos, graças à intercessão de Santo Antônio. Por exemplo, este:
“Na vila de Alcácer do Sal vivia um homem rico muito devoto, que tinha o costume de todos os anos pagar as despesas da festa do Santo Antônio. Aconteceu que esse senhor certo dia foi lavar as mãos junto a um poço muito profundo que possuía em seu quintal e, num movimento desastrado, deixou cair dentro um anel pelo qual tinha muita estima. Todas as tentativas feitas para recuperá-lo foram inúteis. Confiou então o caso a Santo Antônio e não pensou mais nele. Tempos depois, durante a festa do Santo que, como de costume, custeara, estava o homem dentro da igreja, assistindo à solenidade. Nisso aproximou-se dele um criado muito contente, e lhe estendeu o anel. Ante a curiosidade do senhor, esclareceu que tinha ido tirar água do poço e deixara nele cair o balde. Lançara então um gancho para prendê-lo e, ao puxar, na ponta do gancho viera o anel, tão bem encaixadinho que parecia ter sido posto de propósito por alguém. Curiosamente, Santo Antônio parece ter querido demorar a devolução do anel até sua festa, para manifestar quanto lhe agradava a devoção do bom homem pela mesma festa.” (até aqui, texto do Pe. Fernando Thomaz).
Em qualquer roda de conversa, em Portugal, ainda hoje basta falar de Santo Antônio e imediatamente todos os presentes se põem a contar casos maravilhosos de coisas perdidas e achadas graças a ele. Não há quem não tenha depoimentos a dar. E eu também tenho um caso a contar, acontecido comigo mesmo.
Muitos anos atrás, lá por 1976 ou 1977, notei certo dia a falta de uma Medalha de São Bento pela qual tinha grande estima, e por mais que a procurasse não houve meios de a encontrar. Repetidas vezes invoquei Santo Antônio, mas contrariamente ao que já havia acontecido em diversas ocasiões análogas, o Santo pareceu não querer atender o meu pedido.
Muitos meses depois, o episódio já estava inteiramente esquecido, quando fui com alguns colegas à Ilha Comprida, no extremo sul do litoral paulista, acampando numa praia então deserta. Levava no bolso da camisa uma preciosa relíquia do Santo Lenho, numa teca de prata portuguesa, que me fora dada por um sacerdote da Companhia de Jesus e da qual nunca me separava.
Depois de dois ou três dias de acampamento, fomos, alguns companheiros e eu, visitar a histórica e pitoresca cidadezinha de Cananeia, numa ilha vizinha. Lá nos demoramos, passeando, cerca de duas horas, visitando, entre outros edifícios, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes e de São João Batista, uma das mais antigas do Brasil.
A certa altura do passeio, pondo a mão no bolso, dei-me conta de que não mais estava ali a relíquia insigne!
Lembrava–me de ter saído com ela do acampamento, mas não sabia onde poderia tê-la perdido. Poderia ter sido na areia da praia; ou durante o trajeto de automóvel; ou na balsa, durante a travessia do braço de mar; ou ainda durante o passeio a pé, na cidade… Encontrá-la seria como achar agulha em palheiro.
Aflitíssimo, me pus a percorrer todo o caminho que antes fizera na cidade, na esperança – muito tênue naturalmente falando – de encontrar a relíquia. Ao mesmo tempo, invocava Santo Antônio, pedindo que a fizesse reaparecer.
Graças a ele, fui reencontrá-la bem no meio de uma passagem de terra batida, próximo ao centro da cidade, num local em que certamente haviam transitado dezenas de pessoas e no qual o estojo de prata, em que estava a relíquia, com facilidade seria percebido pelos passantes.
Contentíssimo com o achado, retornei ao acampamento, dando graças ao glorioso Santo Antônio. Ao chegar à barraca de praia, uma grande surpresa: enfiei a mão num dos bolsos da calça… e lá estava a Medalha de São Bento que tanto procurara meses antes! Ela ficara esquecida naquele bolso de uma veste pouco usada, até, muitos meses depois, reaparecer naquelas circunstâncias tão especiais.
Eu já me havia esquecido dela, mas Santo Antônio ainda se recordava do pedido… E parece ter–se comprazido em demonstrar seu poder de restituidor dos bens perdidos, restituindo de modo maravilhoso, em menos de uma hora, dois bens perdidos em locais e ocasiões tão diferentes!
É por essas e muitas outras que Santo Antônio é invocado como restituidor de bens perdidos, como reza o seu tradicional Responsório:
“Se milagres tu procuras,/ Pede-os logo a Santo Antônio; / Fogem dele as desventuras,/ O erro, os males e o demônio. / Torna manso o iroso mar; / Da prisão, quebra as correntes, / Bens perdidos faz achar; / E dá saúde aos doentes”.

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