O tempo é inexorável

Viver bem é o objetivo maior da vida. Estar vivo é o bem mais valioso. Mas a apetecida curiosidade sobre a existência dos seres e de todas as coisas até agora não conseguiu decifrar por que a matéria se transforma em pó, por que tudo desaparece, estraga, enferruja, apodrece, se decompõe, se deteriora, se transforma e evolui.

Os humanos não têm ferramentas nem competência para explicar o que está além da percepção dos seus cinco sentidos e do raciocínio. Sendo assim, como podem pretender conhecer o todo universal? É uma equação sem solução. Nenhum cérebro responde questões que transcendem à razão e aos sentidos.

A propósito, o biólogo João Salvador, professor aposentado da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), escreveu o artigo “Essas bactérias…”, publicado recentemente no jornal Gazeta de Piracicaba: “Não é descartável a possibilidade da existência de um ato inteligente de criação da primeira vida”.

O termo mistério será por anos-luz repetitivo para a humanidade justificar e entender o que está além dos horizontes da visão e da imaginação do homem. É presunção querer descortinar os mistérios do Universo. Ante a tantos fracassos a solução só pode pertencer mesmo ao Deus de cada um, ou ao de cada religião, ou à ciência dos homens, que na verdade, neste caso seríamos Deus em nós incorporado.

Para Einstein a ciência é essencialmente uma atividade religiosa em que a presença de Deus está na harmonia do Universo. E para Espinosa, filósofo que viveu no século 17, Deus e o mundo material são indistinguíveis, e quanto melhor o homem compreender o funcionamento do Universo, mais se aproxima Dele.

A natureza não admite privilégios. Lutar contra ela é perder tempo, pois mistérios serão sempre mistérios. A resistência a aceitar a predestinação só serve para alastrar sofrimentos.

Essa aflição sempre provém do apego à ideia que tudo que é bom deve durar para sempre; mas na natureza nada foi feito para durar; não existem vidas e coisas eternas. Tudo acaba.

Então, que o mundo fique como está, que o nosso rosto fique em paz, nosso corpo, nossas diferenças.

Cada um é como Deus fez”, dizia meu pai. Não precisamos experimentar de tudo, conhecer todos os lugares e ouvir todas as sinfonias, saltar de paraquedas, abraçar o mundo.

Se a finitude é certa, não é inteligente quem está no ocaso da vida dar-se ao luxo de perder oportunidades, de rejeitar convites, jantar com a família, um amigo, com a pessoa amada, abrir a garrafa do vinho preferido, vestir roupa de festa. Nada nos pertence nem nunca nos pertenceu.

Einstein é o autor do texto lembrado pelo físico Marcelo Gleiser e autor livro “O fim da Terra e do Céu”:

Tudo é determinado por forças que estão além de nosso controle. Isto vale para um inseto, para uma estrela, seres humanos e grãos de areia. Todos dançam”.

Ficar velho é natural. É feliz quem tem rugas porque quem não as teve é porque morreu sem envelhecer.

Tentar reconquistar a beleza custa caro, e pode piorar o que estava mais ou menos. Cicatrizes são formas de evidenciar experiências e conhecimentos de cada um. O importante na idade da reflexão não é ficar filosofando sentado, é usar e ser usado, amar e ser amado, não importa a idade. A lei da Natureza revela: a morte é o alvo de tudo que vive. Somos parte do universo, assim temos de ser.

É fatal: tudo que tem um começo acaba, ou se transforma. Aceitar essa fatalidade nos faz melhor, pois a beleza que alegra o ambiente e a vida, que favorece o primeiro encontro, não constitui passaporte para sucesso em nenhum vestibular nem para encontrar os caminhos da felicidade própria e a dos próximos.

Melhorar o desempenho, ficar bonito, serve para esnobar. Na volta a casa voltamos a ser o que somos. O que importa está dentro de nós, como diz o ditado:

Quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”.