O tempo é tema da trilogia da vida de Pires

Foto: Claudinho Coradini/JP

Célebre profissional na área de economia, passou a se dedicar à literatura

Tempo é tema da trilogia a qual o economista Valdemir Pires está se dedicando nos últimos anos – veja um trecho ao fim desta matéria publicado recentemente no volume 3. Chama a atenção o formato multidimensional e uso das mídias virtuais: site, comunidade de leitores e vídeos. Cada capítulo é escrito como um fragmento: pode ser lido aleatoriamente. Cada obra é dividida em 54 fragmentos com a intencional proposta de ser lido um por semana, completando o ciclo de um ano cheio. Cada texto vem acompanhado de uma imagem correlacionada e a abordagem surpreende em um misto de filosofia e informação, tudo para provocar reflexão.

Em termos de estrutura, a trilogia foi construída por Pires por meio de um site – aonde os fragmentos são publicados acompanhados de artes por meio de convite a artistas e conforme a abordagem de cada texto, uma tentativa de que as linguagens (escrita e arte, como dança, fotografia ou encenação) transmitam uma mensagem de percepção multidimensional –, uma comunidade de leitores (Facebook, com aproximadamente 1.000 participantes) – onde, semanalmente, há novos conteúdos para o autor estar em contato com os potenciais leitores.

“Estou começando um canal do YouTube”, avisa. “É mais do que um livro. É um material escrito para circular em mídias diferentes, mas que tem a mesma vontade de ser de um livro: ser lido, servir como objeto de reflexão a partir da escrita. A escrita é fundamental ainda apesar desta heterodoxia neste tratamento [da trilogia].”

O formato de textos curtos e a independência entre si dos fragmentos têm a proposital intenção de engajamento de leitura. “Eu recomendo um fragmento por semana. Isso porque, as pessoas não leem mais, e essa leitura costuma ser muito rápida.” Durante a entrevista, além do termo ‘tempo’, Pires fala muito em reflexão.

“O resultado esperado é que, quem leu, chegue a refletir sobre o tempo de modo a estranhar sobre o fato de achar o tempo seu conhecido. O tempo, na verdade, é muito desconhecido. O fato de pensarmos o contrário, nos leva a viver menos bem, frente ao que poderia, se conhecesse melhor o tempo ou se, pelo menos, refletíssemos sobre ele. Esta é a fundamentação do projeto.”

AO SEU TEMPO
Hoje com 57 anos e sólida carreira como economista especializado em finanças públicas e gestão orçamentária e financeira municipal, então professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), Pires resolveu dedicar-se exclusivamente ao que sempre gostava: literatura.

Autor de “meia dúzia” de livros técnicos, o tempo para Pires mudou. “Eu sou alguém que escreve todos os dias. E, finalmente, tive tempo para me dedicar a escrever esses livros porque adoeci e fiquei ‘fora de combate’ profissionalmente, uns meses, em 2019. Um médico antecipou meu atestado de óbito, mas amigos me indicaram outro. E foi ele, o doutor Rafael Marmiroli, que me ajudou a ter mais algum tempo pela frente. Então, de certo modo, esses livros têm um débito para com ele. (…) A escrita se tornou o centro da minha vida.”

O FIM DO TEMPO
(…) li, em junho de 2021, no El País de 19 de junho de 2019, que numa ilha norueguesa, Sommar, ao norte do Círculo Polar Ártico, muitos dos 300 habitantes estavam, então, querendo abandonar o uso do relógio, considerando-o um estorvo para quem vive sob total escuridão durante 69 dias por ano e outros 69 de total claridade. Não faço ideia de como seja a vida num lugar assim, nem como ela ficaria se todos de lá, ou que para lá fossem, pendurassem seus relógios “na ponte que separa a ilha do restante do município a que pertence, Tromsø.” E também não averiguei se a proposta antiponteiros vingou. O curioso é que, agora mesmo, alguns físicos estão afirmando, não apenas em livros (onde já o faziam há tempos), mas em palestras amplamente assistidas na internet, que o tempo não existe. Circulou fartamente na rede mundial de computadores uma dessas palestras), de Carlo Rovelli (1956), que pude ver, depois de ter lido seu agradável e instigante “A ordem do tempo” (2017). Bem, um nó se formou: o tempo não existe e uma comunidade nórdica está querendo aboli-lo. Como dar fim ao que nunca começou?

Cristiane Bonin
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