Tenho muito alegres e saudáveis lembranças de meus estudos no Colégio Dom Bosco. Por mais rígida, à época, tivesse sido a disciplina, riquíssima foi a experiência. E inesquecível o companheirismo entre colegas, o primeiro grande exercício de convivência comunitária. Ainda hoje – e, portanto, ao longo de 70 anos – somos três amigos que se reuniam quase que quinzenalmente para um chopinho e conversas sem fim: o Edu Fogaça, o Sérgio Maluf e este rabiscador de palavras. Sabemos ser, essa amizade, uma riqueza com semente salesiana.

Mas que ficaram, também, marcas ruins, isso não posso negar. E tudo por causa de Deus, daquele Deus anunciado nas décadas de 1940/50, um deus rancoroso, vingador, punitivo. Um deus que eu, pelo menos, não consegui amar. E o responsável principal – pelo menos para mim – foi um triste, amargo e infeliz “seo” Alberto, leigo que morava com os padres salesianos, sei lá se diácono, se ex- seminarista. “Seo” Alberto era professor de Religião e ele parecia acreditar, sinceramente, na textualidade dos textos que narravam casos mirabolantes. Lembro-me de alguns, mas um deles me marcou absurdamente. Era o do mártir posto a assar numa fogueira e que, sem se queixar, pediu, aos algozes, lhe mudarem o corpo para o outro lado, pois aquele já estava bem assado…

Era um mundo sem sentido, sem qualquer atrativo para nele se viver, aquele do “seo” Alberto. Até hoje, tenho a amarga impressão de que, para ele, seria preferível que todos os homens fossem castrados a pecarem contra a castidade. E éramos todos adolescentes, num esplendor hormonal incontrolável, deslumbrados com os namoricos e paixonites sem fim. “Vão confessar!” – determinava “seo” Alberto, obrigando ser, a lavagem das almas, feita todos os sábados. E quanta mentira contávamos e quanta verdade deixávamos de confessar!

Confesso, de minha parte, ter, até hoje – e no florir dos 80 anos – um sério e insolúvel problema com a questão da Eternidade. Evito pensar nisso. E o responsável foi o “seo” Alberto, aquele dedicado defensor da vida após a morte, adversário fiel da vida enquanto vida. Ele, certa vez, explicitou-nos pálida visão do que seria a Eternidade. Que supuséssemos a existência de uma enorme montanha, toda feita de diamante, o material mais duro – conhecido, pelo menos, àquela época – na natureza. Pois bem. Um passarinho – a cada mil anos – voaria sobre a montanha e daria uma, apenas uma simples bicada. De mil em mil anos! Quando tivesse consumido toda a montanha, eis, então, que se teria passado o primeiro segundo da Eternidade!

Nisso, não consigo pensar até hoje. De medo, de pavor. Pavor e medo de céu e de inferno. Deste, do inferno, nem me lembro. Mas do céu, como viver com tanto tédio, uma eternidade, ouvindo cítaras, vendo anjinhos voando, São Pedro avaliando quem pode ser recebido? E, por tempo sem fim, ouvir monges medievais entoando a suavidade da música gregoriana que, neste mundinho atrapalhado, tanto me conforta? Suportar, seria difícil.

Porém, percebo, hoje, quanto “seo” Alberto me ajudou. No sentido contrário. Minha necessidade imaginativa penso ter surgido lá. Pois, comecei a imaginar um grande amor que ele tivesse vivido, um amor que o traiu e lhe causou tanta tristeza. Então, decidi jamais ser alguém como ele. Neguei-me a ser alma sem corpo. Quis ser corpo e alma. E procurei viver e vivi alegrando-me na carne.
E, agora, “in extremis”, tento adubar alguma alma para conjugá-la com o corpo velho de guerra. Solitário, em meu jardim, sinto estar conseguindo.

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