O último adeus à Madalena: o sempiterno ícone da diversidade

(Foto: Arquivo/JP)

Eu era ainda garoto, de calças curtas, a pedalar minha bicicleta pela cidade. Nas ruas do meu bairro sempre via aquela personagem quase caricaturesca, de roupa invariavelmente branca, alva, limpíssima, com um lenço colorido em tons de vermelho a lhe cobrir a cabeça ou envolver o pescoço. Gritávamos: « ôôô… Madalena!!! » e ela respondia fazendo graça: «ô garotão lindo!» e se abria toda em sorrisos soltos. E eu estava sendo «cantado» sem saber.


Naquela época ela era conhecida por toda cidade. Era só ela passar que já se ouvia alguém gritar de longe: «lá vai ‘o’ Madalena!». E ela ria alto, feliz por ser reconhecida, feliz por ter assumido com coragem sua opção sexual. Madalena era o que chamávamos de travesti, numa época em que essa palavra não tinha apelos de gênero nem envolvia complexas cirurgias, doses de hormônios, próteses de silicone e outras técnicas que a medicina moderna colocou à disposição.


Madalena era apenas alguém que queria ser diferente, tendo nascido em corpo de homem, queria ser mulher e mais: vestir-se como tal. Para uma cidade conservadora do interior paulista só aquilo já era um ultraje, uma perversão (e não uma opção) condenada por Deus. Mas Madalena sobreviveu a todos os ultrajes, a todos os preconceitos. Nós, na época, éramos apenas «a garotada» que fazíamos festa quando ela passava. Ela era o dia colorido nas nossas tardes preto-e-branco. Ao vê-la passar era aquela alvoroço de criança: «Mas como você está bonita hoje! », elogiávamos a roupa, o lenço e sobretudo seu andar de passarela. Ela sorria, sempre alegre, e retrucava: «Hoje vou namorar !».


Nem de longe supúnhamos a vida difícil que Madalena levava, lutando contra inúmeras dificuldades de ordem material; sobrevivendo ao preconceito e ao racismo. Mas ela sempre estava alegre, rindo aquele riso solto, sem as amarras sociais da censura e da reprovação. Muitos anos nos depois ela se candidata a vereadora e registra-se como tal no TSE: Madalena. Ela queria ser eleita pelo que ela era, pelo que escolheu ser. E foi eleita. E foram muitos votos recebidos, pois havia um outro lado da Madalena: aquela pessoa que ajudava sua comunidade. Mas a maledicência era a sombra negra de sua fama. Quantos não disseram: « imagine o que ela vai fazer com aquele salário todo de vereador?»


Ela fora ameaçada diversas vezes durante seu mandato público até o ponto que optou não se candidatar à reeleição. Muitos caciques da velha política acharam que ela seria mais um joguete nas suas mãos. Mas se enganaram. Madalena sempre foi autêntica e continuaria a ser assim. Porém, a pressão política sofrida, as ameaças de morte fez com que ela abrisse mão de seu cargo. Preferiu continuar sua luta como sempre fez, sem salário público, sem cargo eletivo.


Madalena fez parte das lembranças mais alegres de infância e juventude de muitos piracicabanos, mas talvez ela nunca teve consciência da sua real importância em nossa cidade. Muito além do folclore que se criou em torno de si, transpôs as barreiras do preconceito com galhardia, nos ensinando a ver (e a respeitar) a diferença. Sua coragem pessoal, ao tornar-se quem era, sem se esconder, nos abriu um mundo de possibilidades, de escolhas que podemos fazer, sem trair nossa própria natureza.
Mas a morte, sobretudo a morte violenta, foi seu destino e a levou deste mundo. Agora Piracicaba fica mais pobre, mais sombria. Mas Madalena deixou para todos nós (mesmo naqueles que se negam a aceitar) uma lição: só num mundo onde a diferença é acolhida e respeitada, a liberdade verdadeiramente existe. Ser livre é antes de tudo poder assumir suas próprias escolhas e vivê-las. E Madalena era um ser livre. Somos e seremos gratos a ela por ter compartilhado conosco um pouco dessa sua liberdade e de sua alegria de viver.
Madalena é sempiterna: algo que não nasce nem há de ter fim, existe para sempre.

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