O vento me traz Agosto

Antes do calendário, o vento revela agosto. De onde virá o vento nesta velocidade, empurrando o tempo para diante? Como surgiu assim, no julho terminando, já tão forte na primeira noite do mês?

O zunzunzum resmunga: agosto chegando. E ao amanhecer de agosto, tranquilo, sereno, o sol quem diz: cheguei!

Desde pequeno o vento me encanta e intriga. Pena ter aprendido surgir o vento do deslocamento de ar, quente e frio. Saber, tirou-me o prazer da imaginação e da intriga. Ensinaram-me isso para roubar-me a riqueza das sensações que Dante e Serena, visão limitada, me ensinaram ao se aproximarem de mim, um dia, para abrir-me os olhos e descobrir a vida.

Tenho na memória seus braços em movimento, sentindo. E das sensações obtidas, a revelação do que viam, diferente de mim que, vendo, não sabia falar delas, do prazer e da cor que revelavam. Só eles mesmos poderiam ensinar que é dentro de mim que a visão se manifesta, já que ver é mais, muito mais que enxergar.

Enxergar é quase, dizia Serena no seu jeito delicado e sereno de ser. Os olhos abertos entreveem, notam, percebem, mas não veem. Ver é ir além.

Em casa, por exemplo, me conta Dante, a cortina, engendrada, vibra, trepida, estremece, avisa no tremor da vidraça a chegada do vento. O gato, assustado, desentendido do esvoaçar da bambinela, se retorce, salta, brinca com a franja, num espetáculo de contorcionismo invejável, sem imaginar que o dono do show é agosto e o vento, ao fazer bailar o cortinado e contorcer-se o gato. Muitos não veem isto. Percebem, tão somente, a cortina em movimento na passagem do vento. Nem se dão conta da porção dele que entra e fica pela casa alucinando o gato.
E se não houver gato? pergunto.

Responde: dê asas à imaginação e sinta. Sentir é melhor que ver, traz gozo e prazer à alma.

Uma rajada forte de vento sopra destemida? Que cor tem o vento, agora? “Escuro e forte.” Por quê? Porque cheira à chuva e faz pesado o céu.

─ Como está o céu?
─ Negro.
─ Antes?
─ Azul, azul.

A memória me conta tudo, revelando o que a alma sente. Quando era possível entrever, conheci o matiz que Deus usava. Ele não se repete, ainda que se valha de iguais cores.
Prossigo descobrindo e insisto.

Quando a aragem é fresca quais as cores? Verde água e rosa. Sei da cor pelo cheiro Se sopra a brisa, as pétalas, como borboletas, esvoaçam, enredam as tramas do vento suave dando-lhe aroma e cor.

Quando julho começou a despedir seus últimos suspiros pouco ou nada tinham da brisa do inverno. Fazia calor e o vento soprava forte algumas vezes. Parecia agosto. Não era. Pode haver vento em qualquer outro mês, mas faltará sempre o privilégio da cor, conta-me Dante.

─ Qual cor? Amarelo. Ao gosto de agosto. Sol. Pouca chuva e o ipê, tingindo o chão e a vida.

Agosto, certa feita, me revelou aos meus e a mim. Eu vim antes de mim mesmo, para que me conhecesse primeiro e, depois, a mim. Por isso gosto da palavra que uso ao encontrar-me comigo mesmo. Se resvalo em outra, aquela se agita e me tira da beira de mim para que adentre. É para mim que devo ir, ensinou-me Clarice Lispector. Para ver. Para sentir, como Serena e Dante. Para penetrar o real, o pulsar da alma.

Qual palavra a que segreda tudo? Amor. Serena e Dante ensinaram antes mesmo que descobrisse em Clarice, que o amor é vermelho. É preciso amar para que verta a cor.
Quanta gente no olhar mostra a falta de amor, esbranquiçados os sentidos. Deixa, então, o sol entrar nas flores do ipê.

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