Olá Oi “Vá trabalhar, vagabundo.”

0
199 views

Não há o que resista quando se perde o respeito. Nada.

A frase de Marx e Engels – no manifesto que se tornou histórico – continua a explicar muita coisa: “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado.”

E, diante desse caos, os pensadores constatam que, como consequência, “as pessoas são forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas.” É, pois, o grande drama que, tendo acompanhado toda a modernidade, ainda se manifesta nos tempos contemporâneos. Com uma diferença que me parece essencial: desapareceu a serenidade. São perguntas angustiantes que levam ao desespero, à perda de limites, à falência do bom senso. Quem sou eu, o que estou fazendo aqui, para onde vou, para onde estão me levando, em quê acreditar? É o sólido que se desmanchou. É o sagrado que se profanou.

O líder do partido do governo federal chamou o presidente da República de vagabundo. Quase ao mesmo tempo, o governador de São Paulo – reagindo contra ofensas de partidários do presidente – acusa, todos eles, de serem vagabundos. E famoso e respeitável comentarista político – como que simultaneamente – vocifera, contra um assaltante que beijou a testa de uma velhinha: “Vá trabalhar, vagabundo!”

Ora, se um dos principais aliados e apoiadores de um presidente da República chama-o de vagabundo – o que mais resta de “sólido e de sagrado” no comando da Nação? O que resta de uma família na qual o marido chame a mulher de vagabunda?

Não estranhei a baixaria de e entre homens públicos. O que me atingiu foi a xingação e a rudeza dos jornalistas. Tentaram banalizar a cena. Mas ela foi inusitada e repleta de significados. O assalto ocorreu no sofrido e pobre Piauí. Dois moços, armados de revólveres, invadiram uma loja para roubar. Um deles rendeu o dono e o outro, também com revólver, deu-lhe proteção. Ao lado deste, estava uma humilde mulher idosa, a velhinha, imagem de avó, de mãe. O moço tentou acalmá-la, a velhinha gesticulava, advertindo-o. E então, o rapaz – garantindo não querer agredi-la – beijou-lhe a testa, como um neto faria à sua avó.

Foi o beijo e não o assalto o que indignou os jornalistas. Pois o beijo, na cena, desmontava a costumeira e fácil análise do banditismo apenas pelo banditismo. Ora, como e por quê – parece ter sido assim – um bandido, armado, beija uma velhinha? No entanto, o jornalista não perguntou – e, talvez, nós também não nos perguntemos – por que um adolescente, que sabe beijar uma velhinha, rouba, com revólver na mão? Por prazer, por desesperança?

Vivi situação parecida há poucos anos. Dois adolescentes invadiram-me a casa, atacaram-me ainda no quarto, manhãzinha. Amarraram-me, jogaram-no chão, vasculharam a casa, roubaram o que lhes interessava. Por três horas, estivemos juntos, eu, no chão. Tomado de uma, para mim, incrível calma, comecei a conversar, perguntando-lhes dos pais. Foi quando – com raiva – disseram morar com a avó. “Ah! entendi. Vocês estão no crime para ajudar a vovó, por toda essa injustiça, sem trabalho, sem educação, sem saúde…” – algo assim, lembro-me bem.

Ao ouvirem a palavra “avó”, os meninos amoleceram. E eu vi, no rosto deles, como que um pedido de perdão. Não a mim, mas à avó. Foi como se, no silêncio, estivessem dizendo: “Vó, perdão. Não queremos ser bandidos, mas não há outra saída.”

Desde crianças, eles já percebiam um destino, aprisionando-lhes o livre arbítrio. É o que ocorre quando o “sólido e o sagrado” se desmancham no ar. Quem é, mesmo, o vagabundo nessa história sem fim?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, entre com seu nome

8 + 10 =