Os efeitos econômicos da crise do coronavírus

Na última sexta-feira, dia 20/3, o governo federal noticiou que já existe transmissão local do coronavírus em todo o país. O número de casos positivos, na mesma data, encontrava-se em 904. Em Piracicaba, a prefeitura informou que eram 49 casos suspeitos e nenhum confirmado, o que causa certa surpresa. Mesmo sem nenhum caso oficialmente confirmado, já foi decretado estado de emergência na cidade.

No mesmo dia, o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta divulgou que a curva de contágio no Brasil repete a de países europeus, e que a transmissão do coronavírus entre as pessoas só terá queda brusca em setembro. São dados e números alarmantes que exigem repensar a política de combate ao coronavírus.

Prefeitos brasileiros estão mandando fechar estabelecimentos comerciais por todo o país. Somente em São Paulo capital, estima-se que o decreto do prefeito tenha provocado o encerramento de trabalho em 117 mil lojas do comércio. Imediatamente após o decreto, as empresas anunciaram demissões estimadas em 40% dos quadros de funcionários. A previsão é que os cortes atinjam, nesse primeiro momento, 5 milhões de trabalhadores. Se isso se confirmar, o número de desempregados no país, atualmente em 12 milhões, saltará de uma hora para outra para 17 milhões, com crescimento de 41,67%. E não parará por aí.

Ocorre que, a política de fechamento do comércio, para restringir o contágio do vírus, precisaria perdurar por meses. Já que só em setembro a contaminação diminuirá, é necessária a continuidade de políticas de isolamento até lá.

Porém, não é realista assumir que o comércio possa seguir fechado em inúmeras cidades até setembro sem quebradeira geral. A pergunta que os prefeitos precisam aclarar é: quem vai pagar as contas das pessoas – e das respectivas famílias – obrigadas a permanecer em casa sem trabalho? Um comerciante ganha em São Paulo, em média, cerca de R$ 1.500,00 por mês. O governo federal, no entanto, promete pagar R$ 200,00 mensais durante três meses para autônomos e trabalhadores informais. A pergunta que fica é: como as pessoas passarão a viver em estado forçado de isolamento com ajuda de R$ 200,00, e com todas as suas contas vencendo todos os meses?

O Banco Central baixou a taxa SELIC de juros para 3,75% ao ano. O governo pretende oferecer linhas de crédito que levarão as pessoas, em muitos casos, a se endividarem para poder comer. Resta, então, saber como estas pessoas pagarão as dívidas, permanecendo, provavelmente, desempregadas, e devendo taxas de juros cobradas pelos bancos muito superiores à SELIC.

É importante lembrar que a maioria das pessoas impedidas de trabalhar da iniciativa privada não ganham o salário estável de servidores públicos que os prefeitos que decidiram fazer o apagão econômico recebem.

A realidade é que, caso os governos municipais, estaduais e federal não se articulem quanto às decisões econômicas a serem tomadas, a persistir o cenário de isolamento sem ajuda financeira condizente, é provável que muitos passem a saquear supermercados para dar de comer aos filhos. Não é situação impossível na história, tendo já acontecido na Venezuela em ambiente de grave crise econômica.

Os prefeitos precisam se conscientizar de que manter o fechamento por pouco tempo, como o previsto originalmente, até meados de abril, não contribuirá para a inibição do contágio do coronavírus da maneira como pensaram. Cabe, então, com base nas estimativas do próprio governo federal, rever inteiramente as suas propostas.

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