Os Riiiiiiooooo de Piracicaba

Foto: Claudinho Coradini/JP

Adolpho Queiroz, é Secretário Municipal de Cultura

A Lei Aldir Blanc, com aportes do Governo Federal, tem sido interessante aos artistas locais nas suas várias dimensões e linguagens. Um privilégio acompanha-las nas plataformas digitais. Duas delas, em especial, nos remetem aos encantos que o Rio Piracicaba exerce sobre vários aspectos da cultura local e, com esse apelo, assisti duas peças que muito me sensibilizaram.

A primeira, programa de rádio, dirigido pelo jornalista Rafael Bittencourt. Ele conseguiu enxergar – e nos fazer ouvir – de que forma as margens do nosso rio influenciaram decisivamente o sucesso do Salão Internacional de Humor.

Num documentário, com entrevistas e comentários muito bem produzidos, redigidos e apresentados, ele nos conduz a um a navegação pelo simbólico do Salão e o surgimento da sua maturidade, justamente ao lado do velho rio. Pelo que pensou, escreveu, perguntou e relatou, Rafael e sua equipe conseguiram nos mostrar que o Salão de Humor adquiriu sua maturidade a partir do momento em que passou a ser exibido no Engenho Central, às margens do rio famoso.

Ele percebe um período interessante de crescimento das estruturas de apresentação, premiação, desenvolvimento, relacionamento internacional, conquistados justamente quando o salão ganhou casa nova. E das incontáveis e agradáveis festanças de encontro entre artistas nacionais e internacionais que se confraternizavam à beira do Rio, quando das aberturas do Salão. O local antes de encantamento, virou local de prosas, contatos, trocas de experiências e confraternização, regadas sempre a uma boa cerveja.

Como se a alegria, o bom humor, a crítica feroz dos cartunistas, cessasse por um instante, para a prosa necessária sobre desafios, rumos e perspectivas do campo do humor gráfico que entende ser o nosso Salão, a “coluna vertebral dos salões de humor do mundo afora”, como disse certa vez o mexicano Arturo Kemches.

Noutro momento, assisti, encantado um espetáculo de dança, sob as lideranças de Julia Correa Gianetti e Carolina Moya, intitulado “As outras margens do Rio”. Como na tradição dos duetos musicais e desafios entre Mandi e Sorocabinha, pioneiros da moda de vila ou os desafios sempre instigantes do cururu entre Nho Serra e Pedro Chiquito, elas começam em cenas do Rio e do Engenho, mostrando cada uma das suas margens, indicando pela linguagem dos movimentos, as cortadeiras de cana em ação, movendo facões imaginários ou vestidas de branco. Como a nossa Noiva da Colina? Depois, em Monte Alegre, num velho e abandonado barracão, trabalhando estáticas. O varão nas costas lembrando-sugerindo tempos de escravidão. A dança de branco, aproximando as parceiras aos poucos, vagarosamente, poeticamente.

O documentário tem sons de moda de viola, guitarra elétrica e sintetizador. E no seu apogeu, vem a cena da dança entre os feixes de cana, onde as peças viram armas de brinquedo. Noutro momento, ambas danças de costas, como um relógio voltando no tempo, para cutucar o passado. O suor das canavieiras, e noutro gesto simbólico, carregando a Noiva nas costas. Bacias de águas postam-se como as garças no entorno do nosso rio.

E o grand-finale, como a das corridas da ponte pênsil, para onde correm? Para quem? E de volta ao rio, as cenas de despedidas. O cenário entardece. Certamente o espetáculo poderá contemplar outros olhares e sensações. Esse, modesto, foi o meu que vi de novo, de novo, de novo, tentando interpretar e reinterpretas o que vi e com o que muito me emocionei.

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