Os vídeos unboxing e a distinção social

O ato de desembalar presentes é, para muitos, um ritual extremamente excitante, pois envolve apreensão, euforia e curiosidade sobre o que há dentro do respectivo embrulho. No entanto, para além de uma prática confinada aos meandros da vida privada, o ato de desembalar bens materiais se tornou uma estratégia comum e rentável para muitas marcas, especialmente para aquelas que têm no público infantil seu principal interesse.

Em meio a um contexto digital cuja presença de objetos de consumo e atitudes performática é majoritariamente destacada, uma categoria peculiar de vídeos se coloca entre as produções mais visualizadas na rede: são os chamados vídeos unboxing. Termo em inglês cuja livre tradução seria “tirar da caixa”, os vídeos unboxing emergiram em meados do ano de 2006, tendo inicialmente como característica a apresentação de produtos recém-chegados ao mercado, com especial atenção para os dispositivos tecnológicos como novos modelos de celulares, computadores, games etc.

Atualmente produções dessa natureza não se limitam a equipamentos do mundo da tecnologia, pelo contrário, abarcam uma ampla variedade de bens de consumo, incluindo até mesmo brinquedos e utensílios destinados ao universo infantil. Nessas produções, crianças aparecem desembalando paulatinamente brinquedos diante da câmera, demonstrando de modo divertido e descontraído os detalhes do produto e os modos considerados desejáveis de brincar.

Embora no Brasil atual haja restrições que normatizam o endereçamento publicitário à criança, os vídeos unboxing se consolidam como um representativo caminho para circulação publicitária, sobretudo quando busca interpelar o público infantil. A pertinência desse formato se dá, visto que, ao mesmo tempo, possui a capacidade tanto de demonstrar as características técnicas dos produtos quanto as formas de uso e as experiências aparentemente “divertidas” proporcionadas por eles. Constituise, desse modo, um produto midiático que possibilita dar visibilidade a certos estilos de vida e, por sua vez, sustentar hierarquias sociais.

Vale destacar que nos vídeos unboxing, a posse dos objetos, por si só, já opera simbolicamente como marcador social. Nesse processo, os produtos são apresentados como as “credenciais” que demarcam e validam os estilos de vida sustentados por tais objetos, ensejando uma ação de hierarquização e distinção que coloca de um lado aqueles
que portam tais credenciais e, do outro, aqueles que apenas contemplam os seus portadores.

É evidente que os produtos que circulam por meio dessas produções, a princípio, estão disponíveis a todos, porém não ao alcance de todos. Além de serem bens materiais recentes e, por isso, custosos, é preciso levar em consideração a desigualdade que afligi nosso país, fato que se tornou ainda mais evidente à medida que a pandemia se consolida e amplia de forma galopante a desigualdade social brasileira. Na prática, é possível inferir que vídeos dessa natureza contribuem sobremaneira para demarcam as posições socioeconômicas, principalmente daquelas que possuem tais objetos eleitos como produtos de desejo e destaque.

Problematizar e buscar compreender o que está para além do simples ato de desembalar bens de consumo diante da câmera, torna-se uma questão necessária para lançar luz sobre as implicações desse tipo de prática na contemporaneidade, com especial atenção para os efeitos dessas produções no desenvolvimento e na constituição das infâncias conectadas.

Marcelo de Andrade Doutorando em Ciências da Comunicação – ECA/USP. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo – ESPM/SP Publicitário pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP

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