Patriotismo: você também não acha que “est modus in rebus”?

Foto: Agência Brasil

Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

“Porque me ufano do meu país” é o título de um livro publicado no Rio de Janeiro, em 1901. Tornou-se célebre e ainda hoje é frequentemente citado como exemplo de literatura ufanista, escrito numa época em que se procurava valorizar muito, de modo piegas e sentimental, o sentimento patriótico da nacionalidade brasileira.
Foi nessa fase que se redigiu a letra do Hino Nacional, que já era tocado, como hino pessoal do Imperador, no período monárquico, mas não possuía letra. “Berço esplêndido”, “nossos bosques têm mais flores”, “povo heroico”, “Pátria amada e idolatrada” etc. são expressões que hoje podem parecer patrioteiras, mas que, na época, com a mentalidade então vigente, pareciam muito naturais a todos.
Foi nessa fase que tiveram grande voga poetas como Olavo Bilac, com seus versos famosos: “Ama, criança, a terra em que nasceste / Jamais verás país algum como este”. Ainda na primeira metade da década de 1960, nas escolas primárias, esses versos figuravam em todas as cartilhas e por vezes até mesmo na contracapa dos cadernos escolares. Ainda não tinha começado (ou melhor, estava apenas começando) o insidioso processo de destruição do ensino público brasileiro.
O livro se destinava à formação dos jovens, contando-lhes a história do Brasil e descrevendo as belezas e riquezas naturais da Pátria. Não era, propriamente, um livro didático, mas algo que hoje se chamaria um livro paradidático, um livro que todo estudante deveria ler e assimilar. O autor, Afonso Celso de Assis Figueiredo, era filho do Visconde de Ouro Preto, último chefe de gabinete da Monarquia brasileira, do Partido Liberal. Afonso Celso é mais conhecido como Conde Afonso Celso, titulo concedido pela Santa Sé. A edição é da famosa casa dos Laemmert, alemães radicados no Rio de Janeiro, ainda no tempo do Império, organizadores e divulgadores do famoso “Almanach Laemmert”, publicado durante muitos anos. Os Laemmert gozaram de grande prestígio e fama, e suas publicações eram respeitadas até mesmo na Europa. Eram correspondentes, no Brasil, do famoso “Almanach de Gotha”, publicação alemã da mais alta respeitabilidade.
O livro, bastante superficial e de caráter mais literário e imaginativo do que embasado na realidade, insere-se dentro da corrente historiográfica brasileira mais aceita na época, que subestimava e criticava a colonização portuguesa. Contém muitas verdades, a par de erros e imprecisões, generalizações, unilateralidades e lugares comuns. Tem-se a impressão de que foi escrito ao correr da pena, baseado unicamente na memória, sem que seu autor se preocupasse com a precisão histórica. Um exemplo entre numerosos outros: na pg. 96, informa que o Papa Leão X conferiu a João Fernandes Vieira o título de “Restaurador do Catholicismo na América”. Acontece que Leão X foi Papa cem anos de os holandeses terem invadido o Nordeste brasileiro e muito antes de João Fernandes Vieira ter nascido…
Também peca pela total falta de senso de proporções, caindo facilmente no ridículo em suas comparações grandiloquentes: por exemplo, refere-se ao episódio da retirada da Laguna, na Guerra do Paraguai, como tendo a mesma grandeza que a de Xenofonte, e apresenta o livro “A Retirada da Laguna”, do Visconde de Taunay, como êmulo do de Xenofonte…
Gostaria de transcrever alguns trechos exemplificativos do espírito geral do livro.
Na pg. 109, o autor trata longamente dos “nobres predicados do caracter nacional”, e destaca, entre esses predicados, a “honradez no desempenho de funcções públicas ou particulares”, e acrescenta: “A estatistica dos crimes depõe muito em favor dos nossos costumes. Viaja-se pelo sertão, sem armas, com plena segurança, topando sempre gente simples, honesta, serviçal. Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nelle entram. Magistrados subalternos, insufficientemente remunerados, sustentam terriveis luctas obscuras, em prol da justiça, contra potentados locaes. Casos de venalidade enumeram-se raríssimos, geralmente profligados”…
Na página 110, volta a tratar da honestidade dos nossos políticos, enfatizando: “Quasi todos os homens politicos brazileiros legam a miséria ás suas familias. Qual o que já se locupletasse á custa do beneficio publico?”
Que diria o pobre Afonso Celso se abrisse qualquer página de jornal de hoje? Será que ele continuaria tão ufano de nosso país? Sem dúvida seu livro exaltou de modo excessivo e hipertrofiado o amor à Pátria. “Est modus in rebus”, como se dizia no velho latim (em tradução livre: há medida nas coisas). Mas também não era preciso, para corrigir esse excesso, cair no extremo oposto e destruir nas novas gerações todo o sentimento patriótico, como vem ocorrendo nas últimas décadas.

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