Pelé e a embriaguez dos deuses

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Delicio-me quando bafejado pela brisa da inspiração. É como se me varresse a alma. E, então, meu mundo gira ao contrário. Lá se me vai embora a razão e, no lugar dela, surge a realidade dos delírios, de sonhos, de poderes reveladores de todas as mágicas e fantasias. Torno-me ficcionista e, criando ficções, eis que me sinto mais humano, mais eu mesmo. Na realidade, a brisa da inspiração é libertadora de prisões, de convenções necessárias, mas tolas.

Para minha saúde espiritual, a brisa alcança-me com certa frequência. E lavo-me das feiuras que intoxicam o nosso tão belo, mas enfermo mundo. Lembro-me de quando, numa das vezes, fui envolvido em pleno mar. Foi numa certa manhã de muita luz e quentura. Nadando em águas mansas, na praia solitária, ouvi a voz vinda não sei de onde. Pensei fosse equívoco. Mas a ouvi ainda mais outra, duas vezes. E, então, num repente misterioso, surgiu a solução para o livro que eu escrevia, cujo final – recolhendo-me na praia para encontrá-lo – não acontecia. A voz – trazida, certamente, pela brisa – sussurrara-me: “Teresa…” Enfim, o epílogo do livro: Teresa era a mulher da vida do personagem, não Helena. E assim foi.

E não é que – à alegria dos 80 anos de Pelé – a brisa me alcançou? De repente, fui tomado de imensa confusão e escapei do Calvário, do Gólgota, da cruz, de toda aquela tristeza de morte e ressurreição. E fui levado ao Olimpo, onde moram os deuses do panteão grego. Diferentemente da soberania do Deus único – de judeus, cristãos, muçulmanos –, os do Monte Olimpo discutiam, bebiam, regozijavam-se, celebravam, festejando, com néctar e ambrosia, a formidável data: os 80 anos de outra de suas mais belas obras humanas, Pelé. E – no mundo a que me levou a brisa – foi-me mais fácil entender: Pelé, para existir, só poderia ser obra de muitos deuses, dos 12 gregos olímpicos. Um só não daria conta, faltaria imaginação.

Pelo que sei, ocorrera, há 80 anos, o seguinte: Zeus – tido como o pai dos deuses e dos homens – acordou, certa manhã, entusiasmado: “Vou fazer um humano à minha imagem e semelhança.” Mas Hera – a primeira mulher, apesar das tantas outras do deus supremo – reagiu: “Deixe de ser machista. Se é para fazer um ente especial, vamos criá-lo todos juntos.” Os demais concordaram enquanto Zeus, mesmo aceitando, impôs: “Mas ele será tão poderoso como eu.” Hera, a rainha dos deuses, deu de ombros, toda altiva: “Não importa, pois a maternidade dele será minha.” Todos de acordo, começou a grande festa, regada com ainda mais ambrosia.

A deusa Ártemis – para mim, caipira, é Artêmis – apressou-se: “Eu darei, à nossa criatura, o melhor das florestas onde reino. Ele terá a velocidade da gazela, o olhar da águia, a leveza do cisne…” E, antes que ela terminasse, Apolo – irmão dela – acrescentou: “E ele terá o meu porte, a minha elegância ao andar, ao correr.” Afrodite – com seu erotismo incontrolável – quis interferir, sendo, porém, impedida por Atena – a deusa da sabedoria – que advertiu: “Afrodite não participará disso, pois ele será um atleta e não poderá perder forças com romances e paixões.” Hermes concordou e dispôs a dar rapidez, fôlego sem fim para o menino que haveria de percorrer longos caminhos. Os demais não sei com o que participaram, mas Dionísio – deus das festas, do vinho – já embriagado daquela algazarra olímpica, falou: “E eu lhe darei o dom da alegria, da dança, do malabarismo, para ele desnortear os adversários e alegrar a humanidade tão tristonha.”

E, assim, surgiu Pelé, o deus do futebol. Podem crer.

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