PERSONA: JOSÉ VICENTE CAIXETA FILHO

Em 5 anos Piracicaba reduziu em 50% as mortes no trânsito

O engenheiro civil e professor universitário José Vicente Caixeta Filho, 58 anos, é piracicabano, filho do casal José Vicente Caixeta e Gianette Casseb Caixeta. Ele é casado com a médica oftalmologista Creusa Maria Moniz Caixeta,  e pai de Rafael (30), Guilherme (27).

Desde o dia 1º de jáneiro Caixeta é o responsável pela Semuttran (Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte) de Piracicaba.

Com graduação em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, ele é mestre em Economia, pela University of New England (Austrália) e doutor em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica. Caixeta também é formado em radialista  pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Foi professor-visitante na Christian-Albrechts Universität zu Kiel (Alemanha, 1994) e na University of Illinois em Urbana-Champaign (EUA, 2016). É Professor Titular licenciado da Esalq/USP, instituição da qual foi diretor entre 2011 e 2015. Recebeu em 2016 o Prêmio Fundação Bunge, categoria “Vida e Obra”, como reconhecimento pela sua atuação relevante nas áreas das Ciências Agrárias e das Ciências Exatas e Tecnológicas, dentro das quais foi selecionado por suas pesquisas e produções ligadas ao tema “Infraestrutura de transportes”. Nas horas vagas gosta de curtir a família, ver bons filmes na TV, comer bem e acompanhar o futebol profissional. Nesta entrevista ao Persona, ele fala dos projetos, desafios e soluções para o trânsito de Piracicaba.

Qual a avaliação do senhor sobre o trânsito de Piracicaba?

Para os veículos automotores (carros), o trânsito está muito adequado. É possível atravessar a cidade sem grandes dificuldades em grande parte do dia. Em alguns momentos o tráfego fica mais intenso, mas sem grandes problemas como verificado nas grandes regiões metropolitanas do país. Para bicicletas, transporte a pé e ônibus, a situação é oposta: a tal da “mobilidade urbana” é dificultada. Gasta-se muito tempo e os níveis de serviço correspondentes não são os melhores. Particularmente com relação aos ônibus, já estamos iniciando algumas melhorias relacionadas a: frota com carros mais novos; Wi-Fi, USB e racks para bicicletas em alguns desses carros; negociação com indústrias no sentido de se experimentar novos horários de entrada e de saída de funcionários, de forma a se amenizar picos de carregamento de passageiros; redimensionamento de linhas e de frequências, de forma a atender o crescimento das zonas urbana e rural de Piracicaba; disponibilização de aplicativos de celular que possam auxiliar com o fornecimento de informações relacionadas a posicionamento de veículos, tempos de espera em pontos de parada assim como com a coleta de sugestões para a melhoria efetiva do sistema de transporte público em Piracicaba. E, ao longo do primeiro semestre de 2022, fazendo o bom uso das ações que venham a ser solicitadas e validadas pela população, um contrato permanente com empresa vencedora de certame tipo concorrência pública deverá ser firmado.

Destaque para alguns números: transportou-se 27.939.466 passageiros em 2018 com uma frota operacional de 211 veículos, 27.028.721 passageiros em 2019 com uma frota operacional de 211 veículos e 13.676.079 passageiros em 2020 com uma frota operacional que iniciou o ano com 199 veículos, finalizando o mesmo ano com 146 veículos (devido à diminuição expressiva de passageiros em função da pandemia do Covid-19, em abril de 2020 a frota operacional foi reduzida para 84 veículos). Atualmente, o tamanho da nossa frota de ônibus dá conta de 147 veículos em frota operacional (ou de um total de 161 veículos, se considerarmos a frota reserva).

Quantos veículos compõem a frota de Piracicaba? 

Tomando como referência as estatísticas disponibilizadas pelos órgãos oficiais, em outubro de 2020 Piracicaba apresentava 330.212 veículos, sendo desses 239.582 automóveis e 68.325 motocicletas.

Este número está dentro do limite, pelo tamanho da população e da cidade?

Não é possível saber qual o limite da cidade quanto ao número de veículos. O uso efetivo, por quilômetro de via, seria mais importante do que a quantidade. De qualquer forma, Piracicaba (em torno de 400 mil habitantes) tem em média um automóvel para cada 1,67 habitante; já Campinas, por exemplo, tem 922.390 veículos (618.498 automóveis, aproximadamente 1 milhão de habitantes), o que daria algo em torno de um automóvel para cada 1,62 habitante. Aguardemos o Censo de 2022 mas tem-se essa tendência de para quanto mais populoso for o município, mais “vazio” vai ficando o automóvel (o que poderia ser explicado por um número mais elevado de viagens individuais, mais de um carro por pessoa etc., em detrimento de um transporte coletivo não eficiente).

Desde o ano passado, por causa da pandemia, a arrecadação do município vem caindo com relação ao recebimento de multas. No primeiro trimestre deste ano, houve uma redução de 40% comparado aos três primeiros meses de 2020. Qual o impacto dessa queda na arrecadação para o setor de trânsito?

Multa é uma consequência da forma como os condutores dirigem pela cidade. A redução das multas pode estar relacionada às campanhas de trânsito realizadas, que visam justamente reduzir excessos e multas. Por outro lado, houve um represamento e prorrogação dos prazos de cobrança das multas que não puderam ser cobradas em boa parte de 2020 (fevereiro a novembro) e mais recentemente, a partir de 15 de março de 2021, o que certamente compromete – pelo menos provisoriamente – os recursos para investimentos que estariam sendo programados pela Semuttran.

As multas se concentram em 5 tipos básicos de infração (“transitar em local/horário não permitido pela regulação estabelecida pela autoridade”; “multa por não identificação do condutor infrator imposta à pessoa jurídica”;  “transitar em velocidade superior à máxima em mais de 20% até 50%”; “estacionar em desacordo com a regulamentação – estacionamento rotativo”; “avançar o sinal vermelho do semáforo – fiscalização eletrônica”; e a mais frequente, “transitar em velocidade superior à máxima permitida em até 20%”).

Temos projetos para tratar de forma equilibrada tanto a instalação de radares e câmeras de monitoramento quanto as práticas de educação no trânsito. De qualquer forma, entendemos que ainda haja espaço para mais “educação no trânsito”, em detrimento das medidas punitivas representadas pelas multas.

Quantos radares fixos existem hoje em operação na cidade? A Semuttran pretende aumentar a quantidade desses equipamentos nas vias da cidade?

São 30 no total, sendo 10 radares de velocidade do tipo fixo, 3 lombadas eletrônicas do tipo fixo, 10 equipamentos fixos de avanço de sinal vermelho e parada sobre a faixa de pedestres e 7 equipamentos fixos de detecção de caminhões acima de 3 eixos, conforme divulgado no site da Semuttran.

Em sua avaliação, os radares surtem efeito no sentido de educar e prevenir acidentes? 

É, provavelmente, o sistema mais eficaz no mundo para prevenir excessos no trânsito. Não necessariamente é o mais adequado para a melhoria da educação no trânsito, que pode demandar medidas mais específicas (como um atendimento mais abrangente de alunos do Ensino Fundamental, quem sabe por meio de alguma disciplina voltada à “Educação no Trânsito” – o que por sinal vinha sendo desenvolvido de forma seminal e com maestria pelo Centro Infantil de Educação no Trânsito – CIET da Semuttran, no Parque da Rua do Porto, em tempos pré-pandemia). De qualquer forma, ao longo dos últimos 5 anos, Piracicaba reduziu em 50% o número de óbitos por acidentes de trânsito nas vias municipais.

Uma queixa comum entre os motoristas é com relação à falta de sinalização dos radares de velocidade em Piracicaba. Essa situação existe?

Não. Os locais estão todos sinalizados, conforme preconiza a legislação vigente. Todos os radares estão listados no site da Semuttran, com endereço completo, de forma bastante transparente.

De agosto de 2020 a maio deste ano ocorreram cinco mortes em acidentes de trânsito na malha urbana de Piracicaba.  Como evitar esses acidentes?

Nossa cidade é bem sinalizada e segura. Por outro lado, observa-se que a maioria dos acidentes de trânsito é causada por negligência dos motoristas. Nesse sentido, se tornam essenciais as campanhas de educação no trânsito (incluindo aquelas promovidas pela própria Semuttran) para a devida conscientização dos motoristas. Campanhas de trânsito já fizeram nossos números de óbitos em acidentes de trânsito serem reduzidos de forma expressiva. E o recado é muito claro no “Maio Amarelo”: Respeito e Responsabilidade. Pratique no trânsito. Não há como reduzir as mortes no trânsito sem a colaboração/conscientização dos motoristas.

Neste “Maio Amarelo” – dedicado ao enfrentamento de problemas relacionados ao trânsito e prevenção de acidentes – como Piracicaba está contribuindo com medidas preventivas?

O “Maio Amarelo” visa, basicamente, incrementar a conscientização dos motoristas a partir de diversas ações. Respeitando as restrições impostas pela pandemia da Covid-19, tem-se: iluminação de 3 monumentos da cidade com a cor amarela (Peixe, Estação da Paulista e Monumento do Soldado Constitucionalista); divulgação do Maio Amarelo nas mídias sociais, imprensa escrita e falada; palestras online, notadamente para motoristas de veículos de passeio e motociclistas

Ciclistas se queixam da situação e escassez de ciclofaixas e ciclovias na cidade. O que a Semuttran tem de projetos para esses usuários?  O senhor acredita que o uso da bicicleta seja uma alternativa de transporte para o futuro?

Não acreditamos que a bicicleta seja o transporte do futuro e sim do presente. Pelo projeto CicloVidas – iniciativa envolvendo a própria Semuttran e outros coletivos cicloviários – pretende-se incrementar expressivamente a extensão de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas na cidade, a partir da avaliação das possibilidades de serem efetivadas ciclovias integradas, levando-se em consideração a configuração viária do município. As estatísticas oficiais de Piracicaba ainda são tímidas mas deverão se alterar com o CicloVidas e outras iniciativas envolvendo – por exemplo – a integração da ESALQ, Prefeitura do Campus da USP e Prefeitura do Município. Tomando como referência, para fins de comparação, o município de Vitória (ES), capital de Estado mas com população semelhante à de Piracicaba: em Vitória são quase 11 km de ciclovias por 100.000 habitantes (em torno, portanto, de 40 km de ciclovias). Piracicaba tem 2,75 km por 100.000 habitantes. Acreditamos muito no aumento da mobilidade urbana da população, a partir de trânsito e transportes ainda mais adequados e integrados. Hoje, o cidadão que se utiliza do transporte público por ônibus acaba tomando essa decisão pelo fato de não ter um carro. Associa-se que uma viagem mais rápida só ocorra a partir do uso de veículo particular. Há muitas localidades, no Brasil e no mundo, que fazem com que o transporte coletivo seja atrativo justamente por trazer à tona essa chamada maior mobilidade, atraindo usuários das mais diversas faixas de renda. Para tal, o uso adequado de novas tecnologias e de outras modalidades de transporte (transporte sobre trilhos, hidrovias, ciclovias etc.) acabam sendo fundamentais para um município como Piracicaba, que preza pela cada vez melhor qualidade de vida de seus munícipes. Nesse sentido, visando essa maior mobilidade urbana, a Semuttran: desenvolverá e/ou aplicará tecnologias eficientes e baratas que venham facilitar a tomada de decisões da própria Secretaria (por exemplo, apps voltados à comunicação rápida de “problemas”; semáforos inteligentes que venham a trazer ondas verdes mais frequentes em nosso trânsito; agendamento de atendimentos via Internet etc.); gerenciará contratos de transporte coletivo envolvendo ônibus dotados de tecnologias mais modernas e envolvendo frotas mais novas, dimensionadas de acordo com a demanda e planejamento futuro baseados no crescimento demográfico da cidade; passará a agregar às suas funções de cunho operacional tipicamente unimodais (rodoviárias, no caso), atribuições de âmbito estratégico e de gestão de operações multimodais (incluindo transporte sobre trilhos, hidrovias e ciclovias, por exemplo).

Beto Silva

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