Por amor aos pais, filhos precisam optar pelo carinho a distância

Pai de Eva aprendeu a lidar com tecnologia para poder ver a filha e o neto (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Dia dos Pais longe do pai, no clichê do momento, é mais uma peripécia da famigerada ‘nova normalidade’. Caso o progenitor estiver dentro do grupo de risco da covid-19, filhos precisam relegar o contato físico e optar pelo carinho à distância, no entanto, sem jamais deixar de comemorar a data. As alternativas são práticas, como telefonema, videochamada e presente que chega antes ou depois pelos correios. Práticas, que certamente trarão um sorriso no rosto do pai, mas toda e qualquer tentativa de compensar a distância encobre um aperto no peito.

Eva Ferreira Luvizotto está em Piracicaba há quatro anos. Veio de Aracaju (Sergipe) para montar uma franquia no setor de estética, mas desde então, voltava à capital sergipana para celebrar a data junto ao ‘painho’ Osman Ferreira, de 71 anos. “Somos muito apegados. Meus irmãos ainda moram lá, mas esse ano, sem poder viajar, será mesmo diferente. Planejamos uma chamada de vídeo e passar o carinho por meio da ligação”.

Para suprir a presença em Aracaju, Eva disse que preparou o presente, claro, à distância. “Vou mandar uma cesta de café da manhã”. E ela revela: “fica um vazio, né? Mas o importante é manter a segurança deles. Meus pais estão mantendo o isolamento”. O distanciamento entre Ferreira e a filha Eva o fez aprender a lidar com novas tecnologias. “Ele resistia muito. Até o ano passado, ele nem mesmo tinha whatsapp no celular, hoje ele adora! Pode ver vídeos do neto, meu filho”. E inclusive entende que, desta vez, a ausência da filha no Dia dos Pais é justificável. “A situação do país ainda é complicada, não? Domingo não posso receber a minha Eva, tenho muitas saudades. Não podemos nos ver, só comunicação de longe. Mas tudo voltará ao normal”, disse Ferreira.

Michele Fernanda Pereira, psicóloga clínica e supervisora de desenvolvimento organizacional de uma empresa em Piracicaba, este ano não viajará até Castilho, no interior de São Paulo, para passar a data com o pai, José Domingos Pereira. “Ligarei na hora do almoço para passar uma mensagem de muito carinho”.

A data é especial na família de Michele, ela conta, devido à proximidade com o próprio aniversário, na próxima terça. “Comemorávamos juntos”, lembra. A última vez que eles se viram foi há dois meses. “Por conta da pandemia, desde que foi decretado o estado de calamidade, o vi apenas uma vez esse ano, no fim de junho. Nunca fiquei tanto tempo sem contato físico com eles, mas fiquei com medo por conta dos tantos casos positivados de covid-19 aqui na cidade”.

Por sorte de Michele, José é uma pessoa ‘antenada’, e usa aplicativos de comunicação. Por meio do Jornal de Piracicaba enviou uma mensagem a ela. “Minha Filha, nesse dia dos Pais estaremos ausentes devido à pandemia. Saiba que eu entendo sua ausência, e peço a Deus, que logo estaremos juntos novamente. Cuida se tudo isso vai passar”, escreveu, inclusive com um emoji de coração.

Conexões: a distância causada pela pandemia

José Ribeiro Júnior passará o primeiro Dia dos Pais longe de José Ribeiro Sobrinho. O pai agora mora com a filha, em Atibaia. “Na época, minha mãe ainda estava viva e tinha que ter alguém sempre presente para cuidar dos dois, doentes”, fala sobre a mudança. A distância que os separará neste domingo é mesmo a pandemia. “Num outro normal, certamente passaria com ele. Mas além da idade, tem problemas pulmonares, o cuidado tem que ser redobrado”.

O caso de Denis Torino Barreto é o contrário. Ele mora em São Paulo e não voltará a Piracicaba para comemorar junto ao pai Francisco Souza Barreto. A razão, como todos os demais, é a pandemia. “Não vou arriscar e minha esposa, fonoaudióloga, trabalha em um hospital diretamente com pessoas com suspeita de covid-19”. Desde março, quando tudo começou, eles ainda não se viram. Uma videochamada em família será a solução, também na companhia da irmã, que mora em Minas Gerais. “Meu pai tinha restrições à tecnologia, mas aprendeu a usar ”, conta Barreto.

Já a mineira Nathália Knop, que vive há nove anos em Piracicaba, fará o combo cesta de café da manhã e chamada em vídeo para agradar o pai Juarez Detoni, que mora lá em São João Nepomuceno. “Tenho contato com muita gente e não quero expor meu pai. Será meu primeiro ano longe. Ele compreende, mas fica um pouco sentido, é muito emotivo”. Agora, tanto ela quanto o pai aguardam notícias esperançosas para o próximo abraço, que será pelo Dia dos Pais, um gesto que os mantêm conectados, e não só por cabos e conexões, mas pelo amor.

“Queria todos juntos, mas me sinto abraçados por eles porque moram em meu coração. Quando os filhos gostam do pai, é dia dele todos os dias”, falou emocionado.

Erick Tedesco

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