Por onde começar

Sempre que alguém, ao longo do processo de amadurecimento espiritual e de despertar da consciência, se dá conta de realidades mais amplas da vida, predispõe-se a cooperar mais ativamente nas ações solidárias que passa a empreender, e pode indagar por onde começar, ou quais atitudes e condutas devem ser prioritárias, face a tantos caminhos e possibilidades.

Devido à imensa diversidade de opções, bem como de tão diferentes temperamentos e tendências, predisposições e características pessoais, não há como delimitar nem estabelecer critérios rígidos sobre a jornada espiritual de ninguém, nem afirmar com precisão por onde cada um deve iniciar sua jornada de auto iluminação. Esse é um dos aspectos fascinantes e belos da vida, que foge a padrões preestabelecidos e condicionamentos.

Parece importante que cada um primeiramente reconheça a condição em que se encontra em relação a si mesmo, ao outro e ao mundo, pois somente a partir de então pode ter referências mais verdadeiras e profundas acerca do próprio caminho, podendo traçar algum roteiro existencial a fim de trilhá-lo com maior segurança.

Embora simples e óbvia a necessidade de conhecermos a nós mesmos, temos a tendência de olhar mais para fora do que para dentro. Vivemos em uma sociedade que valoriza o exterior, o ter, o possuir, o mostrar, o exibir, e negligencia o ser, o universo interior, tão rico e vasto quanto ignorado e inexplorado. Parece mais necessário do que nunca reconhecer que o mundo exterior é a expressão e o reflexo do mundo interior, que a realidade externa é a manifestação do nosso estado interno, individual e coletivo.

A humanidade como um todo tem construído, ao longo da história, a realidade em que vive, seja física, psicológica, social, política, econômica ou religiosa, e não há dúvida quanto à necessidade e urgência de se transformar a atual situação planetária, em grande parte injusta, insana e insustentável. Para mudar essa realidade coletiva torna-se imprescindível que cada um comece pelo interior de si mesmo. Nesse sentido, parece evidente que a melhor maneira de começar a colaborar para a paz mundial seja tornar-se um indivíduo pacífico, capaz de irradiar a paz ao meio em que vive; que uma atitude inicial para evitar e erradicar a corrupção seja viver a própria vida com integridade; que o meio mais favorável de iniciar alguma ação saneadora do planeta seja tornar-se mais puro em pensamentos, palavras e ações; que o primeiro e mais fundamental passo em qualquer processo educador seja através do próprio exemplo, conduta e atitude que se expressam nas relações com os demais seres.

Frequentemente temos a pretensão fantasiosa de realizar grandes feitos, ou esperamos que líderes e governantes (sempre os outros) façam grandes obras no sentido daquilo a que aspiramos, quando as tarefas que ignoramos, desprezamos ou consideramos insignificantes podem ser as melhores ferramentas e oportunidades ao nosso dispor para oferecer nossa contribuição na melhora do mundo. Se realmente tivermos a intenção correta e sincera (o que nem sempre acontece, mesmo quando disfarçada de propósitos caritativos ou religiosos), encontraremos mil modos para começar ou recomeçar a agir no bem, para servir, cooperar e atuar construtivamente na sociedade da qual fazemos parte. Para aquele que se dispõe a qualquer movimento no sentido do bem maior, abrem-se infinitas possibilidades de transformação e de ação, pois esse é o fluxo sempre renovador da vida.