Por que fugir da verdade?

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Outubro. Outubro em rosa, do primeiro ao último dia. Quem teve a genial ideia de encher de cores os meses, reinventou, aos que padecem de algum mal, a vida, dando-lhes senão alento, esperança. Sei o que digo. Experimentei o susto e o medo, enquanto esperava, dos médicos e em Deus.

Tenho, a cada dia, inúmeras oportunidades – penso que você também as tenha – para repensar o difícil exercício de viver e tratar de tocar os dias. Duro tem sido alcançar estes desejos no Brasil, com confiança e fé.

Nunca, quanto agora, viver foi tão perigoso. Se o mundo é feito de minha própria consciência e o resultado disto é o relato que faço, escrevendo, me desculpo aos que se cansarem do niilismo que possa revelar. Insisto nas expectativas acumuladas ao longo de anos, mas pouco ou nada vejo da esperança sonhada.

Sobejam exemplos que a mim me tocam fundo: tiroteios diários de e por todos os lados, em especial, nas comunidades cariocas, matando crianças e jovens, civis e militares, muitos deles, inocentes, destruindo famílias. O feminicídio em manchetes diárias de jornal. Quisera ao menos entendessem que “a mulher quer tornar sério o que parece insignificante a um homem e banal o que para ele é importante”. Tão-somente.

Até quando a tentativa de alterar a escala de valores determinada pela sociedade em que vivemos, prevalecerá como sentença de morte. Basta. Direitos iguais, por favor. Respeitemos a diferença de visão, sem menosprezá-la ou fazê-la calar-se por entender que é fraca só porque não é sua ou por parecer-lhe banal, sentimental, por ser diferente da sua.

Assim tenho sentido o mundo que me foi dado viver. Violência nas ruas, nas escolas, por toda parte. Destruição de biomas inteiros. Proliferação de doenças, retorno de outras tantas que supúnhamos erradicadas. Meu Deus! Ou já não se diz mais meu Deus!

Calúnia. Meu Deus, calúnia, este câncer diabólico, como diz Francisco, o Papa, destruindo a reputação de pessoas, contaminando mais e mais a sociedade ouve e crê no que jamais deveria, fazendo do falso, verdade.

À sombra destes males, hoje, fortalecidos, a ignorância, “esta chave misteriosa das desgraças que nos afligem”.

Nesta primavera, com sibipirunas desfraldando bandeiras em verde e amarelo pelas cidades, tento sair do lodaçal maldito provocado por esta chaga que impera, a ignorância, e repito Rui Barbosa, ao afirmar que ela, sem dúvida, por ser mãe da servilidade e da miséria, contribuiu para que isso tudo ocorra e seja assim.

A experiência com jovens, a partir das últimas duas décadas do século passado me permitiu entender como andávamos na contramão da Educação, do Desenvolvimento e do Progresso. Culpá-los, hoje, adultos, ao vê-los instalados no poder, parece indevido. Temos aí uma parcela de culpa já que não lustramos seu pensamento. Não lhes fizemos ver a urgente necessidade da mudança quando seriam protagonistas da transformação cultural, social e política.

O resultado aí está. Incapazes de pensar, de ler, de entender, de sentar-se numa roda de discussão em busca do possível caminho a ser trilhado, farão o quê? Ao menos soubessem entender José ao declamar o poema? Nem isso. Resta-lhes perguntar: E agora? Aos que, como eu, no ocaso da vida, suportam o peso do mundo, repetir: e agora?

Opressores só sabem responder com sarcasmo, com ironia, porque pouco lhes interessa o que sonhamos.

Resta-nos, oprimidos, silêncio, arrependimento, medo, “sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope”.

E agora? Pergunta deles, porque não sabem o que fazer. Aos pobres, outros, porque parece não haver perspectiva.

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