Por que lembramos e esquecemos das coisas?

Colorful note paper pin with paper clips and isolated on white.

Autobiografias e livros de memórias sempre são um pouco suspeitos. Eles exprimem com veracidade os indivíduos que os escreveram, ou exprimem, mais bem, a imagem que esses indivíduos formaram de si e que pode não corresponder à realidade, mesmo admitindo que sejam absolutamente sinceros e honestos na redação das suas reminiscências?

Pessoas que escrevem memórias com a intenção de deixar um monumento de suas vidas (por razões políticas, ou familiares, ou por sentirem tão-só a necessidade de extravasarem os sentimentos e deixarem consignadas, por escrito, suas experiências pessoais) até que ponto não exprimem, nas memórias, uma imagem auto-idealizada e distante da real?

Até que ponto uma “biografia autorizada”, como tantos políticos, artistas e empresários hoje em dia gostam de patrocinar, é biografia no sentido pleno e corrente do termo? Não será ela uma ficção, uma projeção mais consciente ou menos, do personagem que a autoriza?

Em última análise, todas essas questões se relacionam com o problema da memória. O mecanismo da memória, no espírito humano, é sinuoso, muitas vezes inexplicável para a própria pessoa que procura recordar seu passado. É um exercício que mexe a fundo com as paixões e emoções. Normalmente, nos lembramos bem daquilo que despertou em nós uma paixão muito profunda, favorável ou desfavorável. É difícil esquecer algo que nos agradou profundamente, como também não é fácil esquecer algo que nos magoou e fez sofrer muito.

Esquecemos facilmente, isso sim, as coisas indiferentes, que não nos marcaram emocionalmente. Essas vão sendo varridas da memória e lançadas à vala comum do esquecimento. Dir-se-ia – para recordar a mitologia grega – que tomamos, a respeito delas aquela água misteriosa do rio Lethes, que separava o mundo presente do inferno mitológico. As almas dos mortos atravessavam esse rio na barca de Caronte e sentiam muita sede. Bebiam, então, para se aliviar, a água do próprio rio, e com isso se esqueciam do seu passado. Os mortos que bebiam água do Lethes ficavam, de acordo com a crença grega, vazios, seres sem memória. Seriam como HDs de nossos modernos computadores, que tivessem todo o conteúdo deletado e fossem, ademais, reformatados… Tornavam-se aptos a, pela metempsicose, reencarnarem em animais.

Nossas vidas são cheias de fatos maiores ou menores que esquecemos… porque nos foram indiferentes. As águas seletivas do imaginário Lethes as varreram. Para nós, individual e subjetivamente, é como se nunca tivessem existido, é como se não fizessem parte da verdade.

Verdade é uma palavra que usamos a todo momento. Mas, que significa ela? – “O que é a verdade?”, perguntou Pilatos a Jesus Cristo (Jo 18,38). Para os cristãos, Deus é a Verdade, Jesus Cristo é a Verdade. – “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6).

Para os gregos antigos, verdade era outra coisa. Em grego, verdade era aletheia, ou seja, não-esquecimento, era o que não tinha sido apagado pela água do Lethes.

No trabalho de seleção subconsciente do que deve ser lembrado ou deve ser esquecido, cada um de nós é senhor de si, sem dúvida, mas somente até certo ponto. Se fôssemos senhores absolutos da nossa seleção, jamais esqueceríamos algo que nos interessasse, todos os estudantes tirariam nota 10 em todos os exames… E, bem ainda maior, conseguiríamos esquecer completamente fatos que nos traumatizaram, nos feriram, nos magoaram. Só lembraríamos das coisas boas, agradáveis e úteis, sem nos preocuparmos com más recordações, com as que nos fazem sofrer e condicionam nossa felicidade.


Imagem: lcd2020

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