Por que Santo Antônio ganhou fama de casamenteiro?

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Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

A tradição disseminada em todo o Brasil, de se atribuir ao português Santo Antônio especiais poderes para facilitar casamentos, se constituiu séculos atrás, no tempo em que somente conseguiam casar moças que dispusessem de um dote.
O regime dotal era praticado universalmente, nas mais variadas culturas; em Portugal, era regulamentado pelas famosas Ordenações do Reino. O dote era um pagamento em dinheiro, terras, ou cabeças de gado, que o pai da noiva entregava ao noivo, para que este administrasse. Se a mulher morresse sem filhos, o dote devia ser devolvido pelo viúvo ao sogro. Em alguns lugares – como na província portuguesa do Minho – as moças solteiras costumavam ir à igreja, aos domingos, cheias de joias de ouro, para mostrarem que eram ricas e, assim, atraírem noivos de boa condição social…
Era realmente difícil, para moças pobres, cujos pais não pudessem dispor de meios para dotá-las, encontrar marido. Seu destino era permanecerem solteiras. O valor do dote variava conforme a condição social da moça. Na prática, o que acontecia era que os pais “compravam” noivos para suas filhas, e o dote nada mais era do que o pagamento dessa operação comercial. Pelos costumes atuais, tão diferentes dos antigos, temos até dificuldade de entender isso, mas era assim que se procedia antigamente.
Naquelas condições, dotar uma moça, ou seja, fornecer a ela o dinheiro suficiente para ela encontrar noivo de acordo com sua condição social, era uma obra de caridade cristã, inclusive porque também era um modo de evitar que ela, desesperada pela pobreza e pela “solteirice”, acabasse se prostituindo e se perdesse. Foi nesse contexto (tão diferente dos dias de hoje!) que teve início a fama de casamenteiro de Santo Antônio.
O Padre Fernando Tomás de Brito, que publicou em 1894 o livro “Vida e milagres de Santo Antonio de Lisboa”, reporta o seguinte fato, extraído de uma antiga biografia antoniana publicada na Itália:
“Vivia em Nápoles uma viúva que tinha uma filha de grande beleza, mas extremamente pobre, e não podia casá-la por falta de dinheiro para o dote. Eram pessoas de boa origem, mas não tinham como viver decentemente. A mãe, oprimida pela pobreza e desejosa de recuperar o prestígio social, determinou prostituir a filha e fez a esta a seguinte proposta infame: – Menina, nada desonra tanto no mundo como a pobreza. De que nos servem nossos títulos de nobreza se nossa indigência nos sujeita ao desprezo da sociedade? Só a tua beleza nos pode livrar. Vai entregar-te aos rapazes ricos que te galanteiam, porque não há outro remédio.
A pobre moça, que era de bom caráter, ficou estupefata diante do que a desavergonhada mãe lhe dizia. Começou a invocar Santo Antônio com fé e confiança. Uma tarde, quando entrou no convento de São Lourenço, onde se venera uma imagem milagrosa do Santo, ajoelhou-se e, em lágrimas, suplicou: – Meu bom Santo Antônio, eu de nenhum modo quero perder a pérola da virgindade com ofensa a Deus. É minha desalmada mãe que me arrasta para o caminho da perdição e da desonra. Socorrei-me! Coloco-me sob vossa proteção, ó puríssimo defensor da virtude da castidade.
Mal acabara de formular essa prece quando o Santo lhe estendeu o braço e lhe entregou um papel, dizendo: – Vai à casa do Sr. X e entrega-lhe este bilhete. Tratava-se de um rico negociante, muito conhecido na cidade. O bilhete continha estas palavras: “Dareis à mulher que vos apresentar este papel, para o seu dote, o peso deste mesmo papel em moedas de prata. Saudações. Santo Antônio”. A jovem, cheia de esperança e reconhecimento, correu a entregar o bilhete de Santo Antônio ao rico negociante. Este se pôs a zombar dela, dizendo: – Só o peso desta folhinha de papel?! Por certo vosso noivo se contenta com bem pouco. Vamos já satisfazê-lo.
E colocou o papel num dos pratos da balança, pondo no outro uma pequenina moeda de prata, certo de que já pesaria mais do que o papel. Como o outro prato nem se moveu, colocou uma segunda moeda, e mais outra, e mais outra… Para sua grande confusão, somente quando tinha colocado 400 escudos de prata a balança se equilibrou. Foi nesse momento que o negociante se recordou de que havia outrora prometido a Santo Antônio dar-lhe 400 escudos de prata, e nunca havia cumprido a promessa. O Santo viera fazer a cobrança daquele modo maravilhoso. A feliz jovem pode então casar-se honestamente, de acordo com sua condição social.” (Até aqui o relato do Pe. Fernando Tomás de Brito).
Em Portugal também tem fama de casamenteiro São Gonçalo do Amarante, que viveu em Amarante, no Minho, no século XIII, e segundo a tradição edificou a célebre ponte que até hoje existe sobre o rio Tâmega. Curiosamente, na tradição lusitana, a especialidade de São Gonçalo é ajudar preferencialmente as velhas “encalhadas”, e não as jovens, a encontrarem marido… Conservo na memória alguns versinhos populares, do folclore local, aprendidas na infância: “São Gonçalo do Amarante / Casamenteiro das velhas / Por que não casais as moças? / Que mal vos fizeram elas?”

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