Pós-covid: o difícil tratamento das sequelas causadas pela doença

Complicações relacionadas ao vírus são cada vez mais frequentes em pacientes recuperados (foto: Claudinho Coradini, JP)

Os problemas causados pela covid-19 muitas vezes vão além do diagnóstico de que o vírus desapareceu do organismo. Pacientes recuperados passam a ter um novo problema de saúde que requer atenção e cuidados às sequelas trazidas pela doença.


O motorista carreteiro, Wagner Martorini, 49, passou 18 dias internado para tratamento intensivo contra a covid-19, com uso de oxigênio contínuo. Neste período, Wagner conta que chegou a perder 15 quilos e mais de 60% da capacidade pulmonar.
“A dificuldade era muito grande, eu não fui entubado por pouco! Fiz muita fisioterapia no próprio hospital e em casa também, para me recuperar foram dois meses e, mesmo assim, ainda sinto que não me recuperei totalmente”, conta.


Apesar da alta, Wagner Martorini necessitou continuar com os cuidados médicos, dessa vez por conta das sequelas causadas pelo vírus. “Hoje eu tenho muita tremedeira nas mãos, a respiração continua ofegante e o corpo cansado, de vez em quando aparecem algumas manchas na pele acho que é por conta da covid-19 pois nunca tive isso”, relatou.


De acordo com o médico da Santa Casa de Piracicaba especialista em Terapia Intensiva, Rafael Tineli, as complicações relacionadas à covid-19 comportam-se de maneira muito individual. “Desde que surgiram os primeiros casos, a literatura médica tem registrado sequelas em pacientes curados da doença. As mais frequentes conhecidas incluem cansaço, redução da capacidade pulmonar, fraqueza muscular, tosse residual, dor de cabeça e perda de olfato e paladar. No entanto, podemos citar sequelas que envolvem problemas cardíacos como miocardite (inflamação no músculo do coração) e pericardite (inflamação na membrana que reveste o coração), que podem ocasionar arritmias, além de complicações sérias pulmonares como a fibrose pulmonar (endurecimento pulmonar progressivo), sequelas neurológicas graves como AVC (Acidente Vascular Cerebral) e desencadeamento de desordens emocionais e psiquiátricas”, informa Tineli.

O médico diz que, dependendo das sequelas, será necessário que esses pacientes façam um acompanhamento com fisioterapeutas, fonoaudiólogas, psicólogos e médicos. “Os idosos e os portadores de doença crônicas são mais suscetíveis a sequelas, haja visto, por apresentarem o corpo mais fragilizado. De maneira bem simples, a pessoa que não estiver se sentindo bem deve procurar atendimento médico, pois a ação rápida e assistência correta fazem a diferença nesses casos”, reforça ele.


TRATAMENTO
Maura Rigoldi Simões, fisioterapeuta, especialista em fisioterapia intensiva r coordenadora do setor na Santa Casa de Piracicaba, ressalta que, mesmo os casos de pacientes que não desenvolveram a forma mais grave da doença e não precisaram de hospitalização, podem apresentar algum comprometimento funcional. “É importante que esses pacientes passem por um processo de reabilitação que promova o ganho da funcionalidade, por meio de estratégias terapêuticas que otimizem a eficiência neuromuscular, inclusive para a diminuição da dispneia, que é aquela sensação de falta de ar que muitos desses indivíduos acabam mantendo, mesmo após a alta hospitalar”, informa.


A fisioterapeuta reforça ainda que um acompanhamento feito por um profissional de fisioterapia é indicado inclusive de forma precoce, podendo ser iniciado até mesmo por telereabilitação (modalidade de atendimento médico à distância), sendo um tratamento de extrema importância para o restabelecimento e restauração das funções físicas.
“Para isso, utilizamos diversas estratégias terapêuticas, com doses e intensidades que são adequadas para cada momento do tratamento”, ressalta Maura.


Em Piracicaba, a Central de Fisioterapia é quem promove atendimentos a indivíduos que apresentam sintomas persistentes pós-infecção pelo novo coronavírus. Esse trabalho é desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde, por meio do ambulatório de reabilitação pós-covid-19, como explica Elisângela da Silva Oliveira, fisioterapeuta e coordenadora da Central. “Nosso trabalho acontece nas dependências da Central de Fisioterapia e é realizado por fisioterapeutas contratados exclusivamente para esses atendimentos, além da colaboração dos alunos de estágio supervisionado em Fisioterapia da Faculdade Anhanguera”.

Elisângela da Silva Oliveira, fisioterapeuta e coordenadora da Central de Fisioterapia (foto: Claudinho Coradini, JP).

A coordenadora explica que a inserção de pacientes ao programa pode ocorrer de duas maneiras:

A primeira delas é por meio do encaminhamento médico, realizado pelos hospitais que compõem a rede municipal ou pelas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) que estão realizam atendimento exclusivo aos pacientes de covid-19 após a alta.
“São encaminhados para a reabilitação aqueles pacientes que, no momento da alta, apresentem entre outros possíveis sintomas, fraqueza, falta de ar desproporcional ao esforço, diminuição de mobilidade articular, dificuldade para sentar-se e caminhar, ou seja, aqueles que mesmo aptos a voltar para suas casas vão precisar de assistência fisioterapêutica para concluírem sua recuperação e conseguir retomar as suas atividades de vida diária”, explica Elisângela.

Paciente recebendo atendimento na Central de Fisioterapia (foto: Claudinho Coradini, JP).

A segunda possibilidade é o encaminhamento médico realizado pela UBS (Unidade Básica de Saúde), popularmente conhecida como “postinho de saúde”, para os indivíduos que manifestaram a forma mais leve ou moderada da doença e que não necessitaram de cuidados médicos hospitalares, contudo, após passado o período de manifestação dos sintomas, ainda apresentem queixas persistentes de fadiga, falta de ar e dificuldade para realizar esforços aos quais estavam habituados.


“Com o encaminhamento médico em mãos, a Unidade Básica de Saúde realiza o agendamento do dia e hora que o usuário deve comparecer na Central de Fisioterapia, munido de Cartão SUS, encaminhamento médico e agendamento. Na Central, após acolhimento com a equipe de enfermagem, o paciente será direcionado à avaliação fisioterapêutica, onde será elaborado um tratamento exclusivo, de acordo com as sequelas apresentadas e limitações de cada paciente”, ressalta a profissional.


SERVIÇO
A Central de Fisioterapia Dr. João José Correa, fica localizado na avenida Piracicamirim, 3139.

Pedro Martins

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