Professora conta sobre seus 20 anos de relacionamento abusivo

Nem sempre a mulher percebe que está sendo vitima de abuso (Divulgação)

O relacionamento abusivo nem sempre é fácil de ser identificadado. Quem vive essa situação na pele, nem sempre percebe que é vítima. Em muitas ocasiões, demoram anos até que se perceba que a união entre o casal já não existe. Com uma professora de 50 anos, com nome fictício de Maria, que reside em Piracicaba, não foi diferente. Após quase 20 anos de ofensas e até agressões, ela conseguiu forças para colocar fim ao casamento com o pai de suas duas filhas. Foi um processo bem longo. Ela foi uma das 100 mulheres que são assistidas por ano pelo Projeto Heroica. A professora conseguiu ajuda psicológica e jurídica para construir uma nova história.

“Em me casei em 2000, grávida da minha primeira filha, que hoje tem 19 anos. Nos primeiros anos de casamento tudo foi bem, mas aos poucos o que ele sentia foi sendo vomitado em mim. Palavras que me machucavam profundamente.Sempre procurei dar um jeito e uma melhorada na situação. Fizemos até encontro de casais na igreja que pertencíamos”, disse a professora.

Maria disse que fase “aparentemente” superada, eles decidiram ter o segundo filho. Nasceu em 2007 e depois de cinco meses depois voltaram os xingamentos. “Tudo parecia muito estranho porque do nada eu era xingada. As atitudes dele me faziam acreditar q ele tinha outra. Dito e feito. Na noite de Natal na casa da mãe dele fui ao banheiro e vi caído atrás da pia do banheiro um celular. Eu já havia escutado tocar um celular diferente em casa e claro negado por ele. Afinal, eu era a louca de achar q ele tinha um celular paralelo.Vi mensagens horríveis de duas pessoas que se relacionavam há tempo”, disse.

Pouco tempo depois, ela acabou descobrindo que seu marido também tinha outra família. Outra briga e agora com agressão. “No dia seguinte fui na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e ele continuava aqui em casa. Dias depois, ele veio me agredir. Liguei no 153 (Guarda Civil) e ele foi retirado da minha casa com uma troca de roupa e depois consegui a medida protetiva para que permanecesse afastado a 500 metros”, disse Maria.

A presidente do Projeto Heroica, a advogada Simone Seghese de Toledo disse que são muitos os relatos de mulheres que tiveram que vencer suas batalhas internas para juntar forças para denunciar o agressor.

Presidente do Heroica, Simone de Toledo afirma que projeto também trabalha na prevenção (Claudinho Coradini/JP)

“Para nós que trabalhamos com isso todos os dias, todas as medidas nos parecem insuficientes porque a estrutura social está em frangalhos e parece que punir é apenas uma parte do trabalho”, afirmou Simone.

Segundo ela, o Heroica trabalha também na prevenção, na cura dessa dor social que nasce na formação das famílias, na forma com que as crianças são criadas, na diferença dos papeis entre os gêneros, na intolerância pelas escolhas dos outros.