Gleice recriou a rotina para atender os alunos e, com três filhos, é professora em dose dupla na quarentena | Foto: Claudinho Coradini/JP

Se ser professor já não era fácil, com a pandemia, as dificuldades e angústias desse profissional se multiplicaram. Ele está de frente a um cenário onde é necessário aprender uma nova forma de ensinar e driblar as lacunas das desigualdades sociais que se alastraram nesse momento.


As horas a mais de trabalho para responder as dúvidas que chegam por diversos canais, que antes eram mais restritos à vida pessoal, como o Whatsapp e o Facebook, são custosas para o descanso, mas não são obstáculos para os professores, que compartilham junto aos pais e alunos as preocupações com o ano letivo de 2020.


Para enfrentar essa batalha e não deixar os alunos à própria sorte, foi necessário recriar a rotina e momentos simples, como manter o diálogo com um aluno, são os de alegria, alívio e esperança.


“Com certeza não posso me recusar a atender um estudante ou responsável ‘fora do horário’. As desigualdades implicam situações únicas, como o estudante que só assiste as aulas e realiza as atividades com o celular do responsável quando este chega do trabalho à noite. Diante de uma dúvida, é necessário que se pergunte logo e que eu responda prontamente. Ele só terá o celular em mãos novamente no dia seguinte. Claro que não é fácil estar num momento de lazer, vendo um filme ou série, e parar para atender um estudante ou responsável no celular. Mas na situação que estamos vivendo é necessário”, relata o professor Fabrício Henrique de Oliveira, da rede estadual de ensino.

“Quando a gente tem um contato com o aluno, ou ele manda uma mensagem, fala ‘professora, estou morrendo de saudade, estou fazendo as atividades, mas não é a mesma coisa sem ter você perto’. Aí é realmente a recompensa”, lembra a professora Gleice Malosso, piracicabana que leciona na rede municipal de Rio das Pedras. Ela também é mãe de três em idades escolares: 8, 10 e 14 anos, e se tornou professora em dose dupla na quarentena.

LEIA MAIS:


Além das aulas online, as escolas e professores se organizaram para oferecer atividades impressas aos alunos. Mas Gleice lembra que nem todos, ainda assim, têm acesso. O responsável sai muito cedo para trabalhar e volta quando a escola já está fechada, por exemplo. Ou quando o celular do pai ou da mãe é o único aparelho disponível para três filhos estudarem.

“Na maioria dos dias tenho ficado meio triste quando faço as atividades. Falo ‘ah, meu Deus, quando que vai passar?’. Na hora que posto na plataforma online ou mando no Whatsapp, vem aquele sentimento, falo ‘sei que muitos não vão ter acesso’”, comenta a Gleice.


REPENSAR A ESCOLA

Para Oliveira, além das superações diárias, esse momento se mostrou como oportunidade de repensarmos a escola. “A pandemia escancarou as desigualdades que vivemos e, se não refletirmos sobre isso, se não buscarmos superá-las, de nada adiantará tudo o que passamos. […] Se ignorarmos isso, só vai aumentar, então penso que é fundamental repensarmos a escola, sua função social e como ela pode diminuir esse abismo social. O que é necessário em se falando de políticas públicas, bem como práticas pedagógicas para superarmos essas diferenças?”, reflete o professor.

Enquanto aprendem, ensinam e se reinventam, os professores seguem com a saudade da sala de aula e dos alunos. Essa que se mistura com a preocupação pelo futuro, mas com a certeza que estarão lá para reaprender a superar todas as dificuldades. “Como que faz falta aquele convívio diário, vai muito além de aprender e ensinar, é um vínculo humano que a gente cria”, explica Gleice.

Andressa Mota

[email protected]

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

14 − três =