“Quando ajudamos o próximo, nós somos os mais beneficiados”

Foto: Amanda Vieira/JP

Quantas vezes já ouvimos que uma pessoa foi ajudar alguém e no final das contas quem se sentiu ajudada foi ela mesma? Os benefícios vão desde a satisfação por estar colaborando com uma causa, o aprendizado de novas habilidades, até mesmo uma nova maneira de ver os problemas, as pessoas ou o mundo.

O gerente pedagógico Felipe Cypriano tem 38 anos, é casado com Viviane Campacci Cypriano e, há oito anos, atua como voluntário no grupo social Ajuda do Bem Piracicaba, que conta com o apoio do JP e atua no atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade, entre elas as famílias moradoras de comunidades ou bairros carentes do município, com o objetivo de combater principalmente a fome, o desamparo social e o frio.

As campanhas desse grupo não cessam e até 1º de julho, os voluntários arrecadam para a Campanha do Agasalho roupas de frio e cobertores em bom estado de uso. A população pode contribuir deixando doações na matriz e filial do Jornal de Piracicaba – há caixas de coleta no JP na matriz (avenida Comendador Luciano Guidotti, 2.525, Caxambu) e na filial (rua Boa Morte, 1.403, Centro), sempre de segunda à sexta-feira, das 8h às 18h. Para contribuir sem sair de casa, faça um PIX para 320.864.768-92 (CPF).

Nesta entrevista ao Persona, Felipe conta com detalhes o que o motivou a realizar ações sociais e como a população pode apoiar e participar de trabalhos voluntários.

O que te motivou a ser voluntário e o que isso significa para você?

Em 2014, eu, minha esposa e um casal de amigos estávamos conversando sobre eleições presidenciais, foi quando o assunto “mudanças” surgiu. Debatemos o quanto na maioria das vezes, cobramos de terceiros o que nós mesmos poderíamos fazer e então, tivemos a ideia inicial de fazer sopas aos moradores de rua da cidade. Na data de 12 de julho do mesmo ano ocorreu a nossa primeira ação, nós quatro entregamos cerca de 35 marmitas. Atualmente, tenho muito amor e orgulho em saber que não sou mais uma pessoa que reclama, ou alguém negativo, ao contrário, vejo todas as coisas com otimismo. Você revê os seus conceitos de problema. Está muito claro hoje em dia que existem os problemas reais e os problemas imaginários. Muitos dos problemas que eu achava que tinha, eu vi que são coisas que eu posso contornar, ou que se resolvem com o tempo, ou que não dependem de mim. Mas os problemas reais é o que eles passam, estar entre a vida e a morte. Fundar e fazer parte do Ajuda do Bem Piracicaba me faz sentir felicidade, pois o projeto aproxima a população e a estimula a também fazer bem ao próximo. Por meio do trabalho voluntário, existe um desenvolvimento como pessoa, como ser humano, e também profissionalmente. A pessoa aprende, começa a descobrir outras potencialidades que nem imaginava que tinha. Aumenta o círculo de amizades. Sente que pode contribuir para uma sociedade mais justa, tem uma maior visão de mundo, percebe que existem pessoas em situações bem piores do que a nossa.

Você já havia trabalhado como voluntário em outras ações?

Antes do Ajuda do Bem Piracicaba eu participava de pequenas ações, como colaborador e até então acreditava que isso era suficiente. Hoje em dia, por outro lado, vejo que apenas um auxílio, seja ele com dinheiro ou algo assim, não é o bastante para mim.

Quais são as ações que o Ajuda do Bem Piracicaba realiza?

Realizamos algumas ações durante o ano, as principais são: Campanha do Prato Cheio – Arrecadação e doação de alimentos que compõem uma cesta básica; Páscoa Solidaria – Levamos chocolates para crianças de famílias carentes; Campanha do Agasalho – voltado a famílias que necessitam e moradores de rua; Dia das Crianças – na qual entregamos guloseimas, brinquedos e leite; e Natal Solidário – com o objetivo de trazer comida para as casas das pessoas. Mas, além das campanhas pontuais, socorremos durante o ano todo moradores de rua, famílias carentes, cadeirantes, idosos e crianças com necessidades especiais.

Quanto tempo por dia você dedica a ações voluntárias? Onde você realiza visitas e como se sente após cada ação social?

Trabalho em Limeira, então dedico três horas por dia para ajudar durante a semana. Quando estou disponível, saio entregar os alimentos e roupas, com meu próprio carro, faço as campanhas e divulgo nas redes sociais. Não somos ONG (Organização Não Governamental), somos apenas amigos que querem fazer o bem ao próximo. Visitamos cerca de 35 famílias por mês, vamos até comunidades, casas e prédios, sem distinção. Atendemos pessoas de quase todos as regiões de Piracicaba, que nos procuram e relatam suas histórias.

Teve alguma história que te emocionou/encantou durante as visitas? Pode citar uma em específico?

A história que mais me emocionou foi quando levei uma cesta básica para um casal com três filhos. Quando cheguei na casa deles, entreguei a cesta, leites e dentro tinha uma lata de salsicha, de conserva, e outra de sardinha. A mãe das crianças ajoelhou no meu pé, agradeceu, pois fazia muito tempo que a família não comia algo como “mistura”, não havia como ela oferecer para os filhos nada além de arroz e feijão. Passou-se um mês e eu fui levar outra cesta básica para eles, um amigo me ligou no caminho e enviou R$ 150, que era pra eu ajudar uma família, já que confiava em mim. Lembrei da história da salsicha, olhei para cima e vi um açougue na minha frente. Parei no local, comprei o valor que ele me deu em carnes e levei para eles. A família chorou demais, falei que tinha sido um amigo, liguei para ele, contei a história, ele também chorou, falou que tinha sido tocado naquela manhã de domingo e que precisava fazer isso. Na semana seguinte a entrega, a mãe me mandou uma foto dela fazendo churrasco com quatro tijolos e uma simples grelha no chão com carvão, e as três crianças comendo. Aquilo me marcou, pois nós trabalhamos, temos como ter esse privilégio de comer carne, mais não são todas as pessoas que podem.

Quais são os maiores desafios que vocês encontram tanto na administração do projeto quanto a quem ele é oferecido?

Na real, precisamos de pessoas que ajudem, que doem para podermos ajudar. Não temos onde armazenar, meu carro serve de depósito, minha sala serve de depósito, o nosso maior desafio, é que a cada dia tem crescido o número de famílias que precisam de ajuda, e, infelizmente, não temos algo que podemos contar todo mês, pois cada cesta, cada ajuda, vem das pessoas, amigos e parceiros. Muitas pessoas pedem ajuda, as vezes não temos como ajudar no momento, pois infelizmente não temos mesmo o que oferecer. Minha esposa até fala comigo, “pegue o nosso óleo”. Eu tiro feijão e outros alimentos do nosso armário para completar uma cesta. Infelizmente, o julgamento das pessoas acontecem a todo momento, muitos acham que ganhamos dinheiro com isso mesmo que deixemos claro que isso não é verdade. Apenas dedicamos nosso tempo em ajudar as pessoas, somente isso.

Em sua opinião, o que falta para projetos como estes terem mais abrangência entre a população e que mais pessoas possam se juntar a essas causas?

Falta força de vontade. Muitos passam por nós, durante as ações, como no último Dia das Crianças, por exemplo. Em datas como essa temos quase 20 pessoas ajudando, fazendo parte, mas depois elas encaram isso como um trabalho. Realmente, é um trabalho, cansa como qualquer outro trabalho, precisa de dedicação, e as pessoas não querem isso, gastar o tempo em ajudar. Quem nunca comprou uma pizza e sobrou aqueles pedaços? Por que não pegar o carro ou até mesmo dar uma caminhada e achar alguém que está precisando ou está com fome e entregar o que sobrou? Você já está alimentado, mas e a outra pessoa? Nesse frio, quem não tem uma coberta ou uma simples meia que não usa? É só andar, achar alguém e oferecer, mas as pessoas não fazem isso. A arte de doar, tem que ser de coração, tem que fazer algo com empatia, tem que ter amor, e não apenas colocar em uma sacola e despachar.

Que dicas e orientações você poderia dar as pessoas que desejam ser voluntárias em ações sociais?

Cada pessoa tem as suas próprias razões para querer dedicar tempo a uma causa. É importante saber como deseja contribuir e porque escolher determinada instituição ou iniciativa para se envolver. Faça as coisas por amor, não vá em ações voluntárias apenas para falar que foi ajudar ou tirar uma foto. Lembre-se que são pessoas que estão precisando, que nós poderíamos estar do outro lado. Ações sociais não são apenas algo de um dia, é contínuo. As pessoas precisam sempre de ajuda, faça isso no seu ambiente familiar, na sua roda de amigos, com seus pais, enfim, se coloque sempre no lugar do próximo.

Laís Seguin
[email protected]

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