Quando tudo passar…

Quando tudo isto passar, o que restará? Um rastro de estrelas, abraços mudos, noites de silêncio, a eternidade das lembranças? Talvez nos lembremos de como éramos, efusivos nos cumprimentos, calorosos nas acolhidas, entusiasmados nos encontros com os amigos, o coração cheio de alegria e de amor.

Foi tudo tão abrupto! De repente, escondemos nossos rostos com as máscaras, acenamos de longe, oferecemos as costas dos dedos com a mão fechada, damos sinal de positivo, olá, tudo bem? A distância se fez presente em nossas ausências, pela prudência do resguardo e da prevenção.

Não podemos perder nossas melhores qualidades. Aos poucos, estamos treinando para saber como nos comportar, travados que fomos por estes quase dois anos (serão mais?) de pandemia. Ficamos por meses saindo tão pouco, apenas para o necessário, e isso arrancou de nós parte de nossa gentil espontaneidade no trato com o outro.

Esperemos que restem, sim, os bons sentimentos, o riso e o gesto caloroso, a volta dos abraços e dos beijos na face dos nossos amados. Há muito tempo não abraço os meus dois netinhos e sinto um aperto na alma quando os vejo. Jogo um beijo de longe, cruzo as mãos no coração e digo que os amo.

Mas nada supera o toque amoroso, o abraço de verdade, o contato físico com nossos pequenos, a demonstração de afeto e de carinho. Esta carícia essencial nos faz tanta falta! Temos sempre saudades dos nossos amados. Não podemos, talvez, vê-los todos os dias, mas cada encontro renova em nós este amor apaixonado, a certeza de que todo o afeto que damos e recebemos é o presente maior desta vida.

Há de restar algo de muito generoso e belo, depois que tudo passar. Se é que vai passar. Espero que sim. Espero poder sair sem a máscara, cumprimentar apertando a mão, dar um abraço em quem faz tempo que não vejo. E são muitos os amigos dos quais acabamos nos afastando, por força desta situação surreal.

O que aprendemos com tudo isso? Que a amizade é um dom preciosíssimo, e que fomos salvos pelo WhatsApp da vida. Tarde da noite, e lá estamos nós numa conversa agradável com os notívagos de plantão. Tem muita gente que dorme tarde e ter amigos nos mais diferentes horários, prontos para um bate papo, tem sido bom demais.

Sempre somos salvos, se a dor aperta e sentimos a picada sofrida da solidão. Mas sobrevivemos a ela e tudo se abranda quando se tem amigos. Ah, Deus, que presente me destes nesta vida! Tenho tanto a agradecer por estas belas almas, pelas pessoas incríveis que cruzam nosso caminho em todo momento.

São elas as responsáveis pela nossa sanidade mental. Se elas soubessem o bem que nos fazem e o que representam em nossas vidas! Quando tudo passar, espero contar com estes mesmos adoráveis amigos que agora partilham comigo as suas lutas, as suas angústias, seus medos e suas esperanças.

Há de brilhar para todos nós o sol bendito do “feliz ano novo”, o raio luminoso de um dia especial, onde será declarado o controle desta doença, a liberação dos espaços, a abertura de todas as coisas providencialmente fechadas ao público e ao sonho de cada um.

Que seja realizada esta festa de arromba, quando tudo passar. Estamos um tanto cansados da reclusão. Mas louvamos ao Criador pela saúde, pela força diária e pela graça da vida. Amém.

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