Quarentena pode causar doenças emocionais; psicóloga explica sobre cuidados

Psicóloga Elen Contro explica que é possível mudar o foco em busca do equilíbrio das sensações (Divulgação)

A quarentena por causa da pandemia da covid-19, trazem a tona algumas sensações que nem sempre são agradáveis. Alguns sinais precisam mostrar quando esse sentimento passa a ser prejudicial e pode levar alguns problemas emocionais. O alerta é da psicológa organizacional e pesquisadora da psicologia positiva da Humano Mais, Elen Contro. Ela também é coordenadora do Núcleo de Psicologia do Projeto Heroica, de Piracicaba. A profissional explica, que a grande maioria dos sintomas emocionais que vivenciados no momento derivam do medo.

“Tememos morrer, perder familiares e amigos, ficar sem trabalho e não ter dinheiro para sobreviver. Também temem ficar socialmente isoladas por muito tempo ou contrair o vírus ao se aproximar de alguém”, explica Elen.

Segundo ela, em certo ponto é normal ter medo da atual situação, mas quando se torna crônico, pode ficar nocivo.

“Pode ser o gatilho para o desenvolvimento de problemas de saúde mental. Ele aumenta os níveis de ansiedade e estresse em pessoas saudáveis e intensifica os sintomas das que têm transtornos psiquiátricos pré-existentes”, afirmou a psicóloga.

Elen enfatizou que no passado, e os cientistas puderam em vários casos estudar os efeitos psicológicos, em outras pandemias. Vários apontaram o surgimento na população em isolamento de vários problemas emocionais, como a depressão, mau humor, insônia, raiva, exaustão emocional e irritabilidade. Um estudo sobre a epidemia de SARS, por exemplo, mostrou que pessoas em quarentena relataram vários transtornos, como medo, irritabilidade e profunda tristeza. Outra pesquisa com funcionários de um hospital na China, que haviam sido expostos a um surto de SARS, mostrou que ter passado pela situação aumentou as chances de se viver um alto nível de sintomas depressivos três anos depois.

A revista científica “The Lancet” fez um levantamento de vários estudos sobre os efeitos psicológicos da quarentena e de acordo com o levantamento, 29% apresentaram sintomas de estresse pós-traumático, enquanto 31% tiveram depressão depois do isolamento.

Outra pesquisa conduzida na Califórnia com crianças e adultos que passaram pela reclusão, apontou que as medidas de isolamento levaram 30% das crianças a atender os critérios para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ou seja, uma taxa três vezes maior que o normal.

Todos estamos sujeitos a apresentar sintomas de abalo emocional no isolamento. Evidentemente alguns muito mais que outros, como grupos de risco, pessoas sem recursos, profissionais da saúde, grupos que irão precisar de maiores cuidados para não aprofundarem os sintomas. De repente, as pessoas tiveram de romper com suas rotinas, se afastar de amigos, familiares, deixar de sair de casa. “O novocoronavírus obrigou todo mundo a mudar de hábitos. Você perde muito dos estímulos naturais, como a ocitocina, hormônio que vem num abraço de um amigo, olhar no olho, aperto de mão. É importante saber que isso vai impactar na sua saúde mental. Por isso é tão difícil não se abalar”, disse Elen.

A especialista considera que problema é que não é possível afirmar qual é o momento ideal para procurar ajuda profissional quando se trata de transtornos emocionais, como a depressão. Mas, se tem algo que está prejudicando o funcionamento da sua vida deve-se buscar ajuda.. Quanto antes o transtorno for diagnosticado, menores são as chances de agravamento da situação. Se perceber que está sobrecarregado, ansioso ou depressivo busque ajuda com o médico, psicólogo, familiares, inclusive para serviços como o CVV (Centro de Valorização da Vida). O importante é não tentar superar tudo isso sozinho. Muitas vezes, basta olhar ao lado e procurar alguém mais próximo.

Algumas dicas para driblar alguns sentimentos não tão bons

Elen Contro explica que é fundamental tomar uma série de cuidados. Uma das principais recomendações é aprender a gerenciar os pensamentos.Não se trata de procurar um pensamento positivo, mas de ser realista. Foque no que está acontecendo, não naquilo que pode acontecer. Os pensamentos catastróficos, aqueles que exageram os riscos, precisam ser monitorados ativamente. “Pergunte-se: “qual a chance disso acontecer? Isso está sob o meu controle?”. Normalmente essa ação já gera um sentimento de controle e nos acalma. Uma dica: tenha um “momento preocupação”. Tire um tempo (nunca a noite) para refletir sobre o que te incomoda. Os pensamentos são silenciados mais facilmente quando não lutamos contra eles, e os deixamos “sair”. Assim eles param de nos incomodar pelo resto do dia”, disse a psicóloga.

Elen enfatizou que outro ponto importante é gerenciar a quantidade e a qualidade das informações que consumimos. Notícias, apenas o suficiente para se manter informado do essencial, e sempre de fontes confiáveis, sólidas. Assistir a filmes, séries e fazer uma leitura é ótimo, mas dê preferência a conteúdos informativos ou de entretenimento leve, que não estimulem paranoias. Procure manter atividades prazerosas, como ouvir música, conversar com seus amigos e familiares. Isso distrai da rotina e ajuda a construir emoções positivas. “Se alimentar e dormir bem, não precisa nem falar, certo? E por último, procurar manter a mente ativa, se desafiar, aprender coisas novas, desenvolver uma nova habilidade.”, afirmou.

Outra orientação é investir em algo dentro da sua realidade. Faça palavras cruzadas, por exemplo. Retomar aquele projeto de aprender a tocar violão. É importante manter períodos de sono adequado de forma disciplinada. Por estar em casa, a probabilidade é de ficar mais tempo deitado. Estabeleça um horário fixo para dormir e para acordar, e respeite esse horário. É importante só ir para cama quando tem sono. Precisa fazer o corpo relacionar a cama com o sono.

Cristiani Azanha

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Profissional explica que é possível mudar o foco em busca do equilíbrio das sensações