Quatro histórias de mulheres que fazem ciência em Piracicaba

Levantamento do CNPq revela que 59% das bolsas de iniciação científica são de pesquisadoras. (Foto: : Gerhard Waller (USP-Esalq)

As mulheres são hoje cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil. Esse número é semelhante aos dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos, onde em 2017 as mulheres conseguiram 53% dos diplomas de doutorados concedidos no país.

Um estudo recente, no entanto, revelou que apesar de serem a maioria das pessoas com doutorados em diversas áreas, as mulheres brasileiras não estão tão bem representadas nos níveis mais altos da carreira.

Dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) revelam que 59% das bolsas de iniciação científica são de pesquisadoras, mas, nas de produtividade – que são as mais prestigiadas e com financiamento maior –, a parcela feminina cai para 35,5%. Dentro desse grupo existem ainda as bolsas concedidas a pesquisadores sênior e apenas 24,6% delas são para cientistas do gênero feminino.

O Jornal de Piracicaba conversou com algumas dessas mulheres, que conquistaram seu espaço nesse ambiente competitivo e ainda machistas. Hoje, essas profissionais fazem ciência na Esalq/ USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e na FOP/Unicamp (Faculdade de Odontologia de Piracicaba).

Pesquisadora e professora da FOP, a cirurgiã dentista Brenda Paula Figueiredo de Almeida Gomes é uma das principais referências no país no estudo de microbiologia dos canais radiculares.

“Investigo quais microrganismos estão presentes nos canais, o que eles estão causando para o paciente, como, por exemplo, os quadros de dor, dor a palpação, dor a percussão, edema (inchaço), exsudato purulento (pus), entre outros aspectos clínicos”, explicou. A pesquisadora acrescentou ainda que os estudos também avaliam a eficácia do tratamento para redução da população bacteriana e de seus fatores, consequentemente melhorando a qualidade de vida do paciente.

“As pesquisas que realizo ao longo dos anos, apesar de ser no mesmo tema, estão sempre evoluindo, pois temos novos métodos de detecção e identificação de microrganismos e novas técnicas de tratamento”.

Atualmente, Brenda tem em andamento um projeto temático da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), um de produtividade em pesquisa do CNPq, quatro iniciações científicas, três mestrados, 11 doutorados e um pós-doutorado. Todos voltados à microbiologia dos canais radiculares, mas de diferentes condições clínicas.

PESQUISA

O D e p a r t a m e n t o d e Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq está prestes a concluir um projeto sobre aproveitamento de talos de shitake. “A partir de um material que seria descartado pelos produtores do cogumelo, depois de todo trabalho de otimização para encontrar uma condição de processo simples, porém eficiente, obtivemos um ingrediente rico e sabor umami (um pó, encapsulado), que pode diminuir ou mesmo substituir o uso de sal em alimentos”, explicou a docente e pesquisadora Thaís Vieira.

De acordo com ela, o pó foi testado em snacks extrusados de milho (uma espécie de salgadinho) e será testado ainda em outros alimentos. “Outro projeto em andamento, na mesma linha de estabelecer uma via ambientalmente amigável de processo, que possa ser adotada sem problemas por produtores, é obter compostos bioativos a partir de resíduos de abacate”, afirmou.

Esses projetos, segundo Thaís, são desenvolvidos pela equipe de pesquisadores e alunos de graduação da Esalq, em parceria com instituições do Brasil e do exterior. Atualmente, ela coordena um convênio entre a Esalq e Oniris Nantes Atlantique (França), outros setes convênios de cooperação internacional e projetos que garantem recursos financeiros para pesquisa e mobilidade de alunos e professores.

“Assim, trabalhando em rede, podemos oferecer aos alunos a possibilidade de realizar intercâmbios”, disse.

TRABALHO X FAMÍLIA

Assim que se formou em Administração de Empresas, com mestrado e doutorado na mesma área, Heliani Berlato entrou na Esalq/USP. “Minha tese de doutorado foi sobre a relação trabalho e família e a questão da dual career (carreira da família). Quando comecei a estudar, vi a questão dos papéis sociais e identificou-se muito a questão da mulher nessa relação do casamento, no desenvolvimento da sua carreira. Comecei a caminhar para esses assuntos que envolviam mais a diversidade”, explicou.

Professora do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq e coordenadora do Gecop (Grupo de Extensão em Carreira, Organização e Pessoas), Heliani se dedica aos estudos da relação trabalho e família para pessoas que vivem um relacionamento, bem como casais heterossexuais e homossexuais, para entender essa perspectiva em configurações de papéis diferentes.

“Minhas pesquisas, hoje, são muito fruto do que vivo, mesmo com alta escolaridade, ocupando um espaço que é privilegiado perto de outros empregos, vejo que ainda não temos a voz que deveríamos ter”.

UM OLHAR PARA SAÚDE

Se depender dos esforços e pesquisas realizadas pela fisioterapeuta Marlene Aparecida Moreno, diretora de Pós- -Graduação e Pesquisa da Unimep, pacientes com doenças cardiovasculares ou com fatores de risco, como diabetes e hipertensão, terão nos exercícios físicos realizados em ambiente aquático um grande aliado para melhorar os problemas de saúde.

“Este projeto teve por objetivo avaliar os efeitos de exercícios em piscinas sobre a composição corporal, condição física e cardiovascular desses pacientes. E os resultados mostram melhora significativa após o período de treinamento”.

Outro projeto já finalizado, que também demonstrou ótimos resultados, de acordo com a pesquisadora, envolveu jogadores de basquete em cadeira de rodas. “Os atletas realizaram um treinamento respiratório específico e apresentaram melhora da função respiratória e também do desempenho físico”.

A Unimep, sob a coordenação da professora, desenvolve atualmente um projeto de pesquisa voltado aos pacientes pós infecção por Covid-19. “O objetivo é aplicar exercícios físicos e respiratórios para a reabilitação dessas pessoas. O acompanhamento desses pacientes é importante, uma vez que a Covid, além do grave comprometimento do sistema respiratório, também promove debilidade física”, concluiu Marlene.

Ana Carolina Leal
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