Quem acinzenta os dias?

Como convidam à vida estes brasileiros dias. Por vezes provocam dúvidas. Nunca se sabe ao certo se outono, ainda.Há buganvílias por todos os lados sugerindo. Será primavera? Manacás da serra prenunciando. O que dirá setembro? Ipês roxos, sibipirunas. Quanto fl orescimento! E o sol escaldante deste meio-dia,? Já se faz verão? Ou terá havido engano no movimentar- -se o planeta tentando fazer num só dia as quatro estações?

Gosto do inverno. Nele, sinto falta da passarinhada. Ao chegar setembro, é do que mais gosto. Alguns permanecem anunciando o dia e ajeitando cirandas no cair da tarde. O bando é menor, é bem verdade, mas, no amanhecer, bastante para saudar o dia. Não como na minha infância. Para amenizar este desejo, penetro meu espírito no “déjá-vu” que se repete não sei quantas vezes neste período, e reamanheço com pássaros cantando, num pia-piar sem fim, na expectativa da primaveril procriação que os faz ainda mais felizes. Despertar no surgir do sol para celebrar, com eles, a vida em alvoroço. Se fosse possível recuperar o tempo perdido para tê-los como na infância e juventude, e dar-lhes a importância merecida, quanto me alegraria. Incomoda-me não ter sabido ver nem sentir. A cidade lhes vai engolindo espaço e vida. Com eles, devora também a nossa vida.

Na tarde em que escrevo, preocupado com o avanço do vírus responsável por dar às cidades de todo o mundo aspecto de desolação e tristeza e novo comportamento social, roubando o convívio, a afetividade, o toque, ajeito o coração para o novo, sonhando imitar na vida a primavera. Renascer. Renascer em democracia pujante, sem falas absurdas ou ameaças constantes, empurrando para longe a pandemia e os que de sua companhia parecem privar. Nos jardins, quem sabe, volta a passarada dominando o espaço nos amanheceres e nos fins de tarde, ignorando o jovem ministro vociferando na tentativa de acinzentar a vida.

O país, a pátria “do céu, do mar, dos rios, da floresta, da natureza perpetuamente em festa, este seio de mãe a transbordar carinhos”, há de empurrar para longe a desmedida preocupação com a economia exigindo trazer para primeiro plano o direito à vida.

Ao menos tivessem no poder alguém que os defendesse a eles e à natureza. O jovem ministro do Meio Ambiente se comporta de forma tão distinta da que dele se espera que se vale da Covid-19 para fazer uma “baciada” de mudanças, revelando aproveitar-se da mídia, segundo ele, ocupada com a pandemia e desatenta a seus malfeitos com a natureza. É justo? Mal sabe que jornalistas costumam ter olhos aguçados para mais de um assunto e, se talentosos, bem preparados e corretos, como sabem ser muitos, afeitos a questões fundamentais. Olhar crítico e bom senso não faltam.

A continuar como se apresenta agora, como serão, no futuro, os dias de sol? Com que tons se pintará o céu, ainda tão azul? O que farão dos rios, de cachoeiras e cascatas ao implicarem com seu trabalho milenar de esculpir pedras, criando arte como nenhuma outra se outros tantos agirem como o o ministro do Meio Ambiente? Ninguém jamais teria ensinado a este jovem sentir uma ave no céu, uma ave no chão,uma chuva chovendo para enfeitar jardins; traçar caminhos com pés descalços na marcha estradeira ou assistir à dança dos botocudos coroando tudo? Em que enrascada nos metemos, meu Deus!