Tarde destas, um advogado amigo, convidou-me a que fosse visitar um seu colega que fora meu aluno. Não hesitei. Rever pessoa que conhecera há anos, exercendo profissão que bem gostaria fosse minha, tal devoção tenho pela Justiça e tanto respeito às leis, pareceu-me interessante. Sou de um tempo que existiu, em que o advogado não fazia de sua banca um balcão de mercenário, porque honrava sua profissão entendendo ser órgão subsidiário da justiça. Diante disto, ver como age profissional do Direito a quem ensinei um dia, daria, ao velho professor, ânimo novo ou total desilusão.
 
De tudo, a elegância do traje era a única peça do cenário que me remetia, na distância, ao ritual que o exercício do Direito exige. Diferentemente do jurista a que acompanhava, nem mesmo a linguagem era referência. Faltou-lhe, por certo, nos tempos de faculdade, alguém que ditasse, como um dia ditou Rui Barbosa, oração ao moço.
 
O calor excessivo dos últimos dias exige negar presença em qualquer sítio no meio da tarde. Chego a reconhecer, aqui, o que vivi em Cuiabá e seus arredores, nos tempos em que ensinei na Universidade Federal do Mato Grosso e em seus diferentes campi, locais que se igualavam no calor do dia e na insuportável quentura da tarde a estes dias paulistas. Como por lá, por vezes, fugia de compromissos sociais. A este encontro que relato, deveria ter sido esta, minha desculpa.
 
Calado a um canto ouvia a conversa dos jurisconsultos, ainda que, na verdade, só mesmo o velho intercessor que me levou merecesse ser chamado assim, pela elegância ímpar, pelo texto quase machadiano, pela prudência ao emitir conceitos e conclusões sobre o tema que, à distância, me parecia familiar.
 
Por vezes, tive vontade de intervir valendo-me das tiradas de Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, para tentar resgatar um pouco da dignidade que sonhei um dia encontrar nestas bancas onde se exerce o Direito. Ao chegar, pude constatar que o tempo é democrático em sua investida. Envelhecemos, ambos. Para ser honesto com o leitor, ele mais que eu, contemporâneos que somos. Os anos que nos separam não se somam, juntam-se, e a distância traz-lhe alguma vantagem que a maioridade me subtrai. Naquela turma de alunos, professor, era dos mais novos entre todos. “Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma; mas ao tempo dá Deus habeas corpus”, ensina o genial escritor. O jurisconsulto que me azedou a tarde tenta, para si e para a causa que discutiam, capturar o tempo. Tomara entenda, agora, que Deus lhe dá habeas corpus.
 
Sem digressões. Este estar ali tinha um só objetivo: permitir-me conhecer a mágoa que manchara os últimos tempos de vida de meu pai ao saber que um seu parente, usucapto, levara para si o que pertencia a todos e a justiça, cega, mas perspicaz, reconhecera a usurpação, e a Corte Suprema pôs fim à questão que encontrou, no advogado a quem visito agora, profissional capaz de encontrar subterfúgios que impedem o cumprimento daquela sentença.
 
Inteirei-me ali das diferentes estratégias usadas sem que haja força moral que faça valer a sentença. Não seria esta uma forma de desacatar a justiça, agravá-la ou agredi-la, negando atender ao que foi determinado na última instância do poder judiciário? Quero entender, ministra Carmen Lúcia. 

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