Para alguns alunos, o acesso à internet é um fator distante (Foto: Amanda Vieira/JP)

A pandemia provocada pelo novo coronavírus exigiu mudanças radicais no cotidiano de todos os setores da sociedade, entre eles o da educação. Por conta do isolamento social, as instituições de ensino tiveram de encontrar uma solução para suas escolas e alunos. Na rede pública, os colégios têm investido em aulas virtuais e no envio de material às casas dos estudantes. Também foram criados grupos de WhatsApp com alunos e professores para trocar vídeos e áudios com atividades.


A maquiadora e designer Letícia Gabriele Moreira, 27 anos, tem dois filhos matriculados no ensino fundamental, uma menina no 5º e um menino no 3º ano. “É complicado seguir o grupo de matérias que são passadas pelo WhatsApp, videoaula. A internet trava e eles não conseguem assistir. Está muito difícil”, desabafa.

Não são poucas as famílias vivendo circunstâncias parecidas em meio à pandemia. “Se os desafios do ensino remoto já são enormes para os ensinos médio e superior, sem dúvida alguma a educação básica é a que mais necessita de soluções neste sentido”, afirma Juliana Arruda Leite, professora do Curso de Administração Pública da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp.

De acordo com a docente, as crianças não estão prontas para o processo de autonomia na aprendizagem e, por isso, dependem dos familiares para acompanhá-las nas atividades escolares à distância. “Isso traz enormes desafios para a ‘gestão doméstica’, num contexto em que muitas famílias estão sofrendo com os impactos da pandemia (entes doentes, familiares que perderam o emprego, etc.). Além disso, existe a questão de que não é saudável expor uma criança a muitas horas em frente às telas e, portanto, as formas de proporcionar o desenvolvimento e aprendizagem se tornam muito mais limitadas”, argumenta.

Em Piracicaba, a rede municipal de ensino tem entregado às famílias de alunos da educação infantil orientações com intuito de propor às crianças atividades que possam ser realizadas no contexto da casa, garantindo momentos de brincar, participar e explorar. “O objetivo foi alcançado, compartilhar experiências do contexto educacional às famílias e crianças, fortalecendo as relações”, destaca, por meio da assessoria, a Secretaria Municipal de Educação.

Já os estudantes do ensino fundamental têm recebido, a cada quinze dias, atividades impressas. O método foi escolhido levando em consideração que são poucas as famílias que dispõem de equipamentos eletrônicos e fácil acesso aos recursos tecnológicos.

A rede estadual, por sua vez, tem oferecido aulas por meio de aplicativos disponíveis para os sistemas Android e IOS e pelos canais digitais TV Univesp e TV Educação.

A Secretaria Estadual da Educação patrocina os planos móveis de internet para que alunos e professores tenham acesso aos conteúdos via telefone celular sem custo. Piracicaba tem 62 escolas estaduais, com mais de 29 mil alunos matriculados.

Ensino a distância expõe desigualdades no acesso à internet
Para o ensino virtual ser efetivo, todos os alunos deveriam ter acesso à internet. No entanto, pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revela que 58% dos domicílios no país não têm acesso a computadores e 33% não dispõem de internet.

“O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e, neste momento, essa desigualdade está muito explícita. Trata-se de uma ocasião oportuna para testemunhar que diferentes indivíduos e grupos não ‘partem do mesmo lugar’ e que, portanto, é absolutamente leviano se falar em ‘meritocracia’”, afirma Juliana Arruda Leite, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp.

De acordo com ela, os estudantes de escola pública, que já recebiam uma educação de qualidade muito inferior àquela recebida pelos alunos das classes superiores, agora estão numa situação ainda mais crítica. “Para eles, não há condições de se adquirir computadores, ou até celulares mais adequados, ou mesmo planos de internet”, diz.

Juliana acredita que o governo não está levando isso em consideração e pressupõe que cada um “dê um jeito” para acompanhar esta nova forma de ensino. “E não somente nas escolas públicas ocorre esta desigualdade. Em universidades, está patente a dificuldade dos estudantes de baixa renda para continuarem seus estudos. Ou seja, neste momento está muito claro que as oportunidades de formação no ensino básico, médio e superior estão sendo mais do que antes impactadas pela questão de classe”.

Ana Carolina Leal

Especial para o JP

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