Representatividade: Por que mulheres são minoria na política?

Brasil tem um dos menores índices de presença feminina nos Parlamentos. Entre 190 países, ocupa o 158º lugar. (Foto: Divulgação)

As mulheres representam mais da metade da população brasileira (51,5%), segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas ainda são minoria nos cargos políticos. O Brasil é o penúltimo país, entre os 21 da América Latina, em ocupação de cargos no Poder Legislativo por mulheres. Se comparado com o mundo, apresenta um dos menores índices de presença feminina nos Parlamentos. Entre 190 países, ocupa o 158º lugar.

“As mulheres têm dificuldades históricas para seu ingresso na política. A organização e a dinâmica dos partidos políticos sempre foi muito masculina e isso tem explicação em boa parte pelas dificuldades de combinação das atividades da vida privada com a vida pública. A carga de conservadorismo e de preconceito que sobrecarrega a escolha das mulheres pela construção de uma carreira política é uma dimensão importante nesses constrangimentos”, afirmou Rachel Meneguello, professora titular em Ciência Política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp, Rachel explicou que, além das desigualdades de gênero que envolvem a sociedade, há dificuldades sérias que estão nos próprios partidos políticos.

“São poucos os partidos que estimulam e regulamentam a participação das mulheres nos órgãos de direção partidária; há dificuldades para as mulheres em geral obterem preferência na distribuição de recursos de campanha ou mesmo para obterem legendas para a competição”.

Deputada estadual pelo PT (Partido do Trabalhadores) e presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo), a professora Maria Izabel Azevedo Noronha, conhecida como Bebel, acredita que a emancipação feminina no campo político exige novas formas de inclusão.

“Conquistamos a cota obrigatória de 30% para candidaturas de mulheres, mas não a eleição efetiva de mulheres”, destacou. De acordo com a parlamentar, o machismo que impera nas relações sociais, nos partidos políticos e nas instituições brasileiras ainda é muito arraigado.

“Precisamos avançar, ousar. Nós, do PT, defendemos eleição em lista fechada, alternada entre os gêneros e paritária entre homens e mulheres. É preciso distribuir as vagas legislativas entre homens e mulheres, só assim vamos ter parlamentos representantes da sociedade real, onde as mulheres são mais de 50% da população”, enfatizou.

Em Piracicaba, dos 23 vereadores da Câmara Municipal, apenas quatro são mulheres, ou seja, 17%. Uma delas é Rai de Almeida. Eleita pelo PT, a parlamentar afirmou que a baixa representatividade feminina no campo da política é resultado da falta de oportunidades e investimentos no capital político feminino, seja no plano interno dos próprios partidos ou no plano geral da organização política nacional.

“Somos a maior parte do eleitorado brasileiro, entretanto, ainda somos pouco representadas nos espaços de tomadas de decisões. E quando uma de nós ousa chegar lá, sofre toda tentativa de cerceamento e ataques das mais diversas e constantes ordens. Para a mulher, fazer política é uma atividade que exige empenho coletivo, coragem e esforço, mais do que redobrados”, pontuou Rai.

Vereadora pelo PL (Partido Liberal), Ana Lúcia Pavão disse que a mulher brasileira precisa quebrar o paradigma de sexo frágil. “Temos que vencer os obstáculos que nos apresentam como infalíveis, que na verdade não passam de monstros criados na nossa memória por uma sociedade machista e preconceituosa. Precisamos que partidos políticos não decidam por nós, a mídia pode nos apresentar como desejar, mas a nossa marca será sempre tatuada por nós e, por fim, venceremos com uma boa dose de amor regada de respeito e liberdade de expressão”, concluiu.

PARTICIPAÇÃO FEMININA

O número de mulheres que ingressam na política institucional tem aumentado aqui e em outros países, segundo Rachel Meneguello, professora da Unicamp.

“A Argentina, por exemplo, pioneira na adoção de cotas para mulheres, teve na última eleição de 2019 eleições paritárias, o mesmo número de candidatos homens e mulheres. E a participação feminina é atualmente de 40% na Câmara de Deputados”, informou.

Nos Estados Unidos, a participação das mulheres, segundo a última eleição, é de 25%. “Aqui no Brasil ainda temos muito espaço para caminhar. As eleições de 2018 elegeram apenas 77 mulheres dos 513 deputados, mas as eleições municipais de 2020 mostraram um crescimento importante. O percentual de vereadoras eleitas saltou de 12% em 2016 para 16% em 2020, embora nas cidades com mais de 200 mil habitantes apenas nove prefeitas tenham sido eleitas”. Para a pesquisadora, as eleições locais apontam que esse é um cenário que deve se alterar.

Ana Carolina Leal
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